Liga-me: Peça para dois em duas partes

De Patrícia Portela

Estreia de 17 de 19 de fevereiro no Festival END – 5ª edição do Encontro Nacional de Dramaturgias (em parceria com o Coffeepaste)

Adereços – um texto com instruções (aqui impresso) e um telefone; equipamento eléctrico ou electrónico apropriado para tocar música ou instrumento musical. Dois interlocutores apenas, eu e tu.

Instruções:

Liga-me.

Se estiveres a sós e te lembrares de mim.

Se não te recordas do meu número aqui vai:

00351 962639449

Não tenho aplicações telefónicas. Não tenho moradas fixas. Não tenho redes sociais.

Liga-me.

Decora o meu número para poderes perder este livro, esta página, esta folha de papel.

Começa pelo indicativo, de Portugal. E depois pensa: todos os números de telefone móveis começam com 9, por isso não preciso de decorar. Logo a seguir penso num 9 ao contrário, um 6. E depois penso em 6 a dividir por 3 dá 2. 6 a dividir por 2 dá 3. E tenho metade do número: 96263

9 é o sinal de completude, é o último dígito no telefone.

4 é o número perfeito, as 4 estações, as 4 fases da lua, os 4 elementos. Completude Perfeita ou Perfeita completude? 94 ou 49?

E assim tens: completo, ao contrário, a dividir-me por três, a dividir-me ao meio, completamente perfeita, perfeitamente completa. Porque não existo. Sou só um número:  962639449.

E não te vou dar razão nenhuma para me telefonares a não ser a tua curiosidade. E a minha atenção:

Se eu atender, perguntas-me: Agora é possível?

Se eu desligar é porque este não é o momento por que esperaste.  Se o desejares, tornas a ligar. Uma e outra vez.

Não deixes mensagem. Nem por escrito, nem gravada.

Não digas nunca o teu nome.

Nem a idade, nem quais as tuas esperanças.

Tudo o que quero saber estará na tua voz.

Tudo o que quiseres de mim estará na minha.

Tudo o que disser depende de como me ligas, mas segue um guião. Caso contrário seria um telefonema banal entre dois desconhecidos.

Se me perguntares “agora é possível?” e eu sorrir, tu vais pressentir, do outro lado da linha, e aguardas que escolha uma música.

Ou escolhes tu, mas nesse caso dizes-me qual, ou pões o volume no máximo para eu também ouvir.

Quando a música estiver a tocar,

faz-me uma pergunta.

Ou duas.

Ou três.

Eu responderei a partir da primeira que gostar. Ou me incomodar. Ou me fizer rir. Ou me lembrar de algo que não está no texto que te quero dizer.

Escolhe o tema das perguntas, sabendo que o final é sempre o mesmo e que não poderás escolher mais nada.

Tu és a minha Daisy, e eu já o sei porque li de novo o livro que em tempos me ofereceste.

Eu não sou o teu Gatsby. Não me visto bem, não tenho uma casa com vista para a tua, não vivo obcecada por ti, mas gostaria. Ainda assim, é possível que essa história daqueles tempos que não são os nossos se repita; é possível que eu seja morta por um marido ciumento,  precisamente por não te ter enganado ou traído quando sabia quem ia ao volante no dia do acidente. No dia em que me telefonaste e eu não te atendi.

Mas liga-me.

Falaremos de preferência sem interrupções, mas com muitas pausas, como se ainda fosse elegante ficar em silêncio ao telefone e esse silêncio não fosse gerado por um programa que cancela o ruído quando não sente qualquer movimentação na conversa. Falaremos como se (ainda) fôssemos amantes e nada disto nos levasse à catástrofe em que ficámos.

Ou falaremos como amigos que não se falam há muito e perceberam finalmente que não sabem viver um sem o outro.

Ou como inimigos que nunca se deram tréguas, mas só por orgulho, porque na verdade, admiram-se.

Ou como familiares tão próximos que nem se perguntam como estão, passam logo para as banalidades.

Há sempre muitas razões para se iniciar uma conversa, a mais comum será querer ser ouvido. Ou querer saber como o outro está. Como anda, como quem anda, se ainda anda.

Diz-me como estás. Como te sentes. O que gostarias de ser e ainda não és. O que posso fazer por ti. O que nunca deveria ter feito, o que poderíamos fazer no sonho mais inusitado.

Nunca me desligues a não ser em caso de força maior, acidente, surpresa ou descanso temporário. Batida acelerada do coração.

Falta de bateria.

Sim, estou a pedir‐te que me ligues por inteiro, sabes que não existo para outro fim se não tu.

Mas não me ligues só para passar o tempo. Só porque parece divertido ligares-me. Como se apreciássemos a futilidade e tivéssemos tempo para isso.

Não.

Liga-me como se te fizesse diferença.

Como se fossemos um caso de vida ou de morte.

Como se quisesses que eu te acontecesse.

Como se eu fosse a tua resposta. A tua tábua de salvação. A tua saída. O teu beco sem.

Se assim o fizeres, assim eu o serei.

Liga-me como se eu fosse o serviço da telepizza e tu me dissesses em código qual a localização exacta dos terroristas que te mantêm refém dentro de um banco enquanto pedes dez pizzas com fiambre e ananás para todos os prisioneiros que estão na sala.

Liga-me como se fossemos os dois heróis num filme numa língua que desconhecemos.

Liga-me como se acreditasses que esta epidemia só vai parar quando sobrarmos só nós os dois e que antes disso tu já escolheste que eu era só eu.  Para ti. Percebes o que isto quer dizer? E sim, eu sei, também tenho filhos, também tenho pais que adoro, também tenho compromissos e complicações e reuniões inadiáveis, todos temos e no entanto…

Liga-me como se acreditasses que esta forma de dedicação é possível. Uma, e outra e outra vez. E por esta, por aquele e por mais outra.

Liga-me como se tivesses a certeza de que tudo faz sentido.

É tão romântico ter certezas, não é?

Liga-me sem dúvidas e sem manhas. Sem jogo e sem expectativa.

Enquanto me ouves não deixes que do teu rosto te escape uma expressão. Não tussas para limpar a voz. Não grites.

Não me coloques em voz alta.

Mas também não me oiças muito baixinho.

Se estiveres em casa, sai. Passeia-te comigo. Sempre em frente. Sem destino certo. E sem mais companhia.

Ou se preferires, faz de mim o teu ditado, na cama, no sofá, na mesa do café, no banco de jardim.

Se me levares até à praia, experimenta molhar-me mas não me enterres.

Faz um reconhecimento do espaço entre as minhas palavras e as tuas, o que digo e o que não dizes, como quem sabe que todos os monólogos são diálogos, e que todos os diálogos são monólogos. Entre nós os dois.

Ensaia habituares‐te a mim e imagina que somos todos pessoas vestidas de outras com palavras emprestadas para dizer. Que não sabemos muito bem o que essas palavras de facto dizem (especialmente quando ordenadas desta ou daquela maneira), mas que ainda assim as dizemos, e que, ao fazê‐lo, todas as sílabas se encaixam perfeitamente na nossa boca e no nosso corpo, transformando‐nos naqueles que não somos mas que poderíamos ser.

Mantém um lenço de assoar sempre à mão.

E uma caneta.

Tira a máscara se podes, se queres. Entre nós só há um bucal ou um ecrã telefónico.

Nem de todas as desgraças se pode tirar uma boa lição e é por isso que nos ligamos. Para percebermos melhor ao lado de um estranho aquilo que teimamos em não perceber em mais lado nenhum.

Ignoremo‐nos mutuamente pelo que somos fora deste nosso telefonema. O corpo pode ser sempre verdadeiro desde que a realidade seja uma alternativa.

Quando chegarmos ao fim da nossa conversa, decide quem eu sou ou quem eu fui:  o Martin Luther King? A Rosa Parks?  A Sissy Spacek? A Simone de Beauvoir?

Pensa bem antes de me responderes.

Depois da última resposta, deixa‐me.

Nunca serei eu a desligar-te. Nem a ligar-te de volta.

O melhor seria falarmos até passares um túnel na viagem de comboio que te faz perder a rede, ou passares por um corte de electricidade geral que nos deixa a todos desligados.

Mas espera antes de chegares ao fim, para não acontecermos depressa.
Aceita o nó, ou ataca‐o.

Ataca o nó, ou aceita‐o.

Ambos com prolongados vice‐versas.
Atalha pelo caminho mais longo.
Mas chega cá na mesma sem estares preparado mas também sem ânimo leve.
Mesmo antes de me desligares desiste em contramão.

Perde as forças. Perde as forças. Perde as forças.

Perde‐te a perder as forças.
Faz conversa para não cairmos, logo agora que nos estamos a levantar.

A partir daqui tudo deve ser meticuloso porque cruel.

Fechamos os olhos.
Aceitamos com surpresa o meu beijo de Judas como se fosse uma jangada.
Morremos à deriva por este século como se fosse o último, o telefone sem bateria ou sem rede ou sem saldo e nós os dois com tanta coisa ainda por mudar.
Constata que deste meu lado não há tempestade.

Acorda sem razão para o teu pior pesadelo.
Abre os olhos sem que te peçam ou te dêem instruções.

Repara na porta que deixámos escancarada depois desta nossa conversa e na água que não cessa de entrar.
Constata que nenhum de nós sabe nadar.
Não peças socorro nem esbracejes porque afogar é o que se faz a um fim.
Repete‐te mas não esperes que aconteça mais depressa.

Sabes que a vida é sempre Once in a lifetime e que esta chamada não se repete. E, no entanto, podes chamar-me outra vez. Pelo meu nome e para este número de telefone. Mesmo sabendo que não voltarei a atender.

Estás preparado/a para me ligar?

Liga.

Patrícia Portela

Na foto: Célia Fechas. Autoria Leonardo Simões.

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