Like……Me

Por Inês Lampreia

Alexandra e eu estávamos sentadas numa esplanada, de máscaras pendidas sob o queixo. Ela pedira uma cerveja e eu bebia água. Sabendo que esse bem um dia havia de escassear, ingeria-o em grandes quantidades.

“Vou apagar as minhas contas de Facebook e Instagram”, disse-me enquanto observávamos meia dúzia de pessoas a entrar na galeria em frente à esplanada, numa passerelle de máscaras coloridas. Nós também iríamos para a exposição e dali a poucos minutos estaríamos igualmente em renovadas conversas de circunstância. As condições atmosféricas como desbloqueador de conversas já não eram a primazia. Agora tínhamos este novo elemento desconfortável – a máscara. Comentários como “oh, que máscara tão gira!” ou “adoro as cores da tua máscara”, e por aí em diante, ocupavam o espaço e o tempo.

Era a quinta vez que Alexandra partilhava essa vontade de fechar as suas redes sociais. Eu, que mantinha as minhas numa entediante sobrevivência garantindo que estava conectada, não atentei às primeiras vezes em que Alexandra verbalizou tal desejo. Embora, a partir de então, viesse a testemunhar uma série de comportamentos na vida virtual desta amiga, que me faziam pensar no célebre comentário de Anatole France, “As maiores transformações da vida social produzem-se insensivelmente e só se vêem à distância”[1].

Penso que Alexandra não teria absoluta noção, mas, por assim dizer, representava o deslumbramento do eu, era uma evidência em carne e osso de como o capitalismo tinha atingido o território do privado.  Aquela impaciência muitas vezes expressa na mudança continua da sua foto de perfil comprovava isso mesmo.

Alexandra existia sempre que colocava uma nova imagem de perfil, numa superexposição da sua imagem, que alternava com fotos de objetos, viagens e livros. Posava para o seu Iphone com largos sorrisos, de pestanas pintadas. Fazia selfies aproveitando a melhor luz, posicionava os lábios estendendo-os para a frente e semicerrava os olhos… não que ela se achasse a mais bela, mas importava que os outros o dissessem. As poses artificialmente naturais criavam estados de cumplicidade, imbuídos de um toque artístico. Cabelos apanhados, inclinações estratégicas da cabeça, micro expressões, sorrisos largos e a pele sempre a luzir em algum ponto facial. Selecionava e retocava as suas fotos de perfil, utilizando um variado número de apps, justamente para encobrir características indesejáveis, e mostrar a realização de um novo ‘eu’ sempre em potência.

Imaginava que só raramente Alexandra recordaria uma vida sem virtual. Tinha-se diluído o tempo em que nos sentávamos em família no sofá das nossas salas assistindo às notícias, bombardeados pelos anúncios cujos slogans decorávamos e cantarolávamos nos intervalos da escola. Havia sido o tempo em que se afirmara essa palavra feia – marketing – e a sua ferramenta poderosa e crucial para o capitalismo otimista. Agora, virados que estávamos para o individual, mal se falava disso, porque tal como Alexandra que construía o seu perfil, havia outros slogans:  éramos nós os próprios anúncios e os nossos copies nas redes sociais os seus repetitivos slogans.

Lera recentemente que o tempo necessário para uma pessoa gostar de uma imagem nas redes sociais não ultrapassa um décimo de segundo. Isso significa que, precisamos apenas de uma micro fração para lançarmos o dedo num “gosto”, muitas vezes, não porque a imagem nos agrada, mas por amizade à pessoa ou por uma combinação de fatores. Lera ainda numa pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Psicologia da Universidade de York, em Toronto, no Canadá, que internautas narcisistas com baixa autoestima e necessidade de aceitação tendiam a ser mais ativos nas redes sociais.

Alexandra via nos comentários dos amigos a possibilidade de gostar de si, inconscientemente. À parte a mediocridade da situação, quando lia nas mensagens “que sorriso tão bonito”, “gira” ou “que bonita”, depois de ter colocado uma nova foto de perfil no Facebook, Instagram ou WhatsApp subia-lhe um sentimento de regozijo. Não era o Zé ou o João, a Maria ou a Rita que a achavam mais bonita do que outras, era Alexandra que achava que para o Zé ou para o João, para a Maria ou para a Rita ela era a única bonita… por instantes.

Nas redes a sua fisicalidade era substituída por um variável número de imagens de partes do corpo – o braço tatuado, a cara sorridente, os olhos brilhantes, as pernas trocadas demonstrando relaxe aos fins-de-semana, as mãos sobre objetos. Vendia, porventura, uma espécie de autenticidade, um branding pessoal, produzindo-se a si própria.

Não saciada com a visibilidade do seu perfil, Alexandra enveredara por uma participação política nas redes. Sobre vários acontecimentos mundiais, injustiças e corrupções passara a incluir nas redes sociais longos pensamentos. Partilhava posts de indignação que despoletavam comentários infindos, multiplicados durante dias.

Enquanto se passavam as revoluções nas ruas, as discussões nas redes sociais agudizavam-se. Havia quem demarcasse com agressividade as suas posições e outros, por escolha própria ou por não se conseguirem afirmar, sentiam-se impelidos a colocar posts menos diretos sobre os assuntos em questão, ressoando nos seus círculos de amigos. Ainda assim, em todos os casos, tratava-se de um verdadeiro trabalho a tempo inteiro: escrever copies, anexar imagens, selecionar partes de artigos, e ainda alimentar as sucessivas respostas a comentários…

Com muita irreverência, provocação e desconforto, os posts opinativos de Alexandra permitiam-lhe ter voz. A interação que criara era tão intensa que chegava a ganhar pequenas guerras individuais, tendo mesmo colocado mensagens dizendo que quem não partilhasse das suas visões e ideias era convidado a não comunicar com ela.

A sua indignação no virtual escalava em longas discussões internautas o que me levava a pensar nos pequenos ditadores das redes sociais, naqueles que agora ‘sabiam a verdade’ e lançavam frases como “ou estão comigo ou contra mim”.

Enquanto olhava Alexandra, na esplanada, de cerveja na mão, explicando por que decidira deixar as redes sociais, indignada com os comentários xenófobos no seu feed, e justificando que agora se dedicaria ao seu jardim – cujas rotinas diárias postava no Instagram com belas fotos das plantas a crescer –, surgiu-me um sentimento de compaixão. Ela ou eu ou todos os outros navegadores internautas de lugar nenhum vivíamos com esta ânsia: sermos adorados. Mas, pensava, sermos narcisos sem o outro era estarmos continuamente a sofrer. Os “likes” podiam dar resposta momentânea à nossa ansiedade, mas rapidamente sabíamos quão vazios de sentido eram, pelo que a popularidade de Alexandra nas redes sociais degenerara em algo vazio que ela cada vez menos sabia gerir emocionalmente.

De certa forma, era até interessante que o perfil das diferentes redes sociais servisse, afinal, para por às claras a vaidade de Alexandra, a insegurança de Alexandra, a autoestima de Alexandra, a visão política de Alexandra… mas depois: tudo isso nas redes sociais… servia para quê?

No quotidiano, Alexandra trabalhava para uma instituição onde pouco ou nada podia opinar e onde passava os dias a sorrir como forma de proteger o posto de trabalho, não obstante a sua inteligência. Sorrir com todos os dentes visíveis, as maçãs do rosto abertas, escondendo os olhos pequenos e arredondados.

Saí da exposição a caminho de casa. Havia uma bruma nas ruas, assim como no meu pensamento. O maior dilema com que me confrontava nestes dias relacionava-se com refrear o julgamento. Era preciso olhar todos os fenómenos com a devida distância, sem empacotar tudo em caixas etiquetadas, ou seja, não queria de forma alguma ser detentora da verdade.

Alexandra, eu e muita gente destes tempos éramos peões dum mundo virtual que nos devorava. Lá, nesse lugar sem fim e sem paredes – o virtual – criticávamos com indignação os males do mundo, mas o grito que verdadeiramente gostaríamos de dar era cá fora, para que nos ouvissem verdadeiramente.

No fundo, seriamos matéria para Byung-Chul Han elaborar as suas teses. Consumíamo-nos e explorávamo-nos achando que isso era uma espécie de realização.

Sabíamos que o algoritmo nos traçava perfis, tínhamos consciência da existência da vigilância, falávamos sobre ela, mas não abdicávamos desses microssegundos que nos insuflavam o ego.

Alguns de nós, como agora Alexandra, viravam-se para a alteridade da terra. Como se durante décadas a terra tivesse deixado o seu lugar e agora voltasse. Cultivávamos jardins, geríamos pequenas agriculturas e, no entanto, precisávamos ainda e sempre, um pouco, de expor essas vivências em posts do Instagram ou do Facebook, como se as sensações, as cores, os aromas que efluíam dos nossos cultivos não chegassem para nos preencher, como se os nossos jardins tivessem de ser validados por “likes”.

Quase a chegar a casa, olhando os anúncios no ecrã digital da Av. Fontes Pereira de Melo, onde apareciam uns grandes olhos, recordei uma ilustração do livro El Mundo al Revés[2], em que um microscópio gigante observa um cientista minúsculo. Imaginei, por momentos, que o microscópio me observava a mim, à Alexandra e a um grande número de amigos…  todos nós que fazíamos parte e contribuíamos para essa grande tribo… os Homo Ludens.

[1] no livro Sur la Pierre Blanche (Sobre a Pedra Branca)
[2] El Mundo al Revés, Media Vaca

Foto por Марьян Блан

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