Luís Vieira e Rute Ribeiro – Entrevista

Luís Vieira e Rute Ribeiro são os Directores Artísticos d’A Tarumba e também do FIMFA – Festival Internacional de Marionetas.  A edição “normal” de 2020 teve se ser adiada dada a pandemia de Covid-19, mas não quiseram deixar de marcar presença com a edição especial Descon’FIMFA Lx20. Conversámos sobre esta edição, sobre os tempos que atravessamos, sobre o público e sobre o teatro de marionetas e formas animadas.

Antes de mais, como estão a viver estes tempos únicos?
A realidade que temos todos vivido tem sido difícil, estranha e inesperada. Estes tempos parecem ter saído de um filme de ficção científica… O que nos lembra uma frase do Philip K. Dick: “Por vezes enlouquecer é uma resposta adequada à realidade.”

Aconteceu tudo muito rapidamente. Começámos a ficar apreensivos em fevereiro. De 2 a 10 de março estivemos num Festival no Canadá, em Montreal. Partimos de Lisboa no dia em que surgiram os primeiros dois casos. O primeiro espetáculo neste festival teve de ser “alterado”, uma vez que abria com uma companhia chinesa, que não pôde viajar e, acabou por ser exibido o filme dessa criação, mas a restante programação correu como previsto. Entretanto, começaram a chegar artistas vindos de Nova Iorque bastante assustados. Foi nesse momento que começámos a ficar verdadeiramente preocupados.

Chegámos a Lisboa, fomos ao nosso espaço buscar os computadores e tudo o que precisávamos e resolvemos fazer quarentena, pelo sim, pelo não. Passados dois ou três dias ficámos todos “confinados”.

Temos tentado ter e manter um espírito positivo, mas estamos verdadeiramente apreensivos com o futuro das artes, dos artistas e do mundo. Os extremismos estão de volta, o mundo está estranho e parece que a coabitação humana em tempos difíceis torna-se violenta. Os casos de racismo que têm acontecido são algo que nos causa fel e que é preciso lutar e marcar posição para que esta situação se altere.

Muitas vezes temos a sensação de não estar verdadeiramente a viver esta situação, mas a vê-la de fora. É um sentimento difícil de explicar. Parece que estamos na corda bamba. As sensações são mistas, mas pensamos que são comuns a todos, e descrevem-se pelos estados de ansiedade, euforia, incredulidade, desassossego e, simultaneamente, Esperança. E é a esta palavra que nos queremos verdadeiramente agarrar.

A decisão de passar a edição do FIMFA 2020 para 2021 foi muito difícil?
Foi terrível! Custa-nos bastante falar disso. Há mais de um ano que trabalhávamos nesta edição em que celebrávamos os 20 anos do FIMFA. Foram meses intensos a tentar trazer projetos que há muito queríamos apresentar, exposições, livros, conferências… A abertura ia ser no Teatro Nacional D. Maria II, com um projeto belga fantástico com 18 bailarinos-manipuladores. No São Luiz tínhamos um conjunto programático de espetáculos e companhias de novo circo e marionetas, por exemplo. Bilhetes de avião comprados, hotéis reservados, materiais prestes a serem impressos. Enfim… meses de trabalho que não se veem, não são percetiveis e que “desapareceram”.

Tentámos passar a maior parte dos projetos para 2021, para uma edição a que vamos chamar de FIMFA Lx20+1, mas alguns destes espetáculos não vamos poder apresentar, por motivos de calendarização, uma vez que são companhias com agendas muito preenchidas, ou com outros projetos em curso nas datas do próximo ano, que vão ser de 4 a 23 de maio de 2021, assim o COVID nos deixe…

O que podemos esperar do Descon’FIMFA Lx20?
Primeiro esperamos que venham DesconFIMFAr connosco e sem receios, pois serão respeitadas todas as medidas de segurança.

O Descon’FIMFA é o resultado de não conseguirmos ficar parados, ser preciso resistir e agir. Por isso unimos esforços, para podermos apresentar alguns dos espetáculos previstos e criarmos esta edição diferente, nestes tempos únicos.

É também o resultado do desejo do encontro com o público, da partilha de universos extraordinários, de criadores que não conseguem parar de imaginar outros mundos.

Vai ser um DesconFIMFAmento com humor, crítica mordaz ao mundo, com espetáculos singulares, desenvolvidos especialmente em torno do teatro de objetos.

Vamos ter estreias nacionais e duas estreias absolutas, mas também projetos que voltamos a apresentar, e que fazem parte de um conjunto de espetáculos que o público muitas vezes nos pedia para voltarmos a apresentar.

Quais os temas que atravessam a programação desta edição?
A frase pensada para esta edição, acaba por sintetizar o espírito desta edição: Os objetos como mapas de memória para encontrar o futuro e pensar o nosso tempo.

O conjunto de espetáculos do Descon’FIMFA fala de paisagens que alimentamos no nosso imaginário e que já não existem, turismo de massas, desagregação social, risco, medo do futuro, democracia, memória, amor e morte, mas também de mundos ideais, tentativas de reconstrução do imaginário coletivo e de aprender a viver de novo. Um programa inédito, onde os objetos ganham protagonismo e nos ligam à emoção e à humanidade que os rodeia.

O espetáculo que abre o Festival, “La Melancolía del Turista”, dos Oligor y Microscopía (Espanha- México), coloca uma pertinente questão: quantos segundos são necessários para criar e perder um paraíso? Um delicado teatro-cinema leva-nos numa viagem em torno da vida secreta dos objetos, das paisagens e dos paraísos perdidos. “La Melancolía del Turista” é uma análise de momentos e objetos, através dos quais se cria a ideia de um paraíso na nossa imaginação. Surgiu a partir de um trabalho de campo em destinos turísticos, atualmente em decadência, e que deu lugar a uma pesquisa cénica sobre o conceito de paraíso. Jomi Oligor, dos Hermanos Oligor (Espanha) e Shaday Larios, da Microscopía Teatro (México), regressam ao FIMFA com a sua linguagem única, construída com objetos, mecanismos e miniaturas. O trabalho desta dupla é muito especial, inserindo-se no teatro de objetos documental.

O segundo espetáculo que apresentamos destes artistas, “La Máquina de la Soledad”, parte de uma mala cheia de cartas de amor de 1900, encontrada no México, e que revela a história de um casal, Manuel e Elisa. É uma fascinante criação sobre as relações epistolares, uma investigação-homenagem ao objeto-carta, mas também uma espécie de museu onde os objetos nos contam a história dos seus proprietários. “La Máquina de la Soledad” foi apresentado no FIMFA Lx15 com um grande sucesso entre o público.

André Murraças estreia o “Triângulo-Cor-de-Rosa”, onde aborda a chegada dos nazis, a destruição da liberdade e da vida dos que foram para os campos de concentração, duplamente discriminados por serem judeus e homossexuais. A maioria acabou por não ter futuro. Através dos seus objetos pessoais, André Murraças conta as histórias destes homens. Num ano em que se celebram os 75 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, os temas levantados ainda são pertinentes.

A Tarumba apresenta “Este não é o Nariz de Gógol, mas podia ser… com um toque de Jacques Prévert”, uma criação com figuras articuladas de papel e objetos, inspirada no universo de Gógol e Jacques Prévert, em que por trás do humor se esconde uma crítica satírica ao mundo contemporâneo, num ambiente kitsch, algures entre o Festival da Eurovisão e a Rússia dos anos 70…

O Teatro de Ferro estreia a sua nova criação, “Uma Coisa Longínqua”, que tem a colaboração do compositor Carlos Guedes, num filme-performance que procura perceber os estranhos acontecimentos protagonizados por um grupo de objetos emancipados. Um espetáculo que nasceu de um sonho, em que algumas esculturas/monumentos decidiram abandonar as plazas entre os grandes edifícios das metrópoles do planeta, e reunirem-se no deserto em busca de outras possibilidades para a sua existência no mundo das coisas.

A Formiga Atómica volta a apresentar “A Caminhada dos Elefantes”, um espetáculo especial para ver dos 6 aos 106 anos, e que reflete sobre a existência, a vida e a morte, e o caminho que todos temos de fazer, um dia, para nos despedirmos de alguém.

A PIA – Projectos de Intervenção Artística apresenta-se pela primeira vez em Lisboa, com “EntreMundos”, em que aborda as culturas tradicionais dos Gigantes, com marionetas de grande dimensão.

A encerrar o Descon’FIMFA a grande “papisa” e mestre do teatro de objetos, Agnès Limbos, com a sua companhia Gare Centrale. Em “Ressacs”, assinam a terceira parte das aventuras trágico-cómicas do casal recém-casado dos espetáculos “Troubles” e “Ô!”, apresentados anteriormente no FIMFA, ou como tendo por pano de fundo a crise e o superendividamento, a história de um casal perdido pode retratar a sociedade atual, onde os extremismos ganham protagonismo. Para além do humor, uma crítica à sociedade de consumo, aos excessos do capitalismo e ao colonialismo. Um espetáculo e uma criadora que aconselhamos todos a verem.

Vão ser apresentados espetáculos de 4 nacionalidades. É importante esta diversidade?
O FIMFA tem na sua génese o objetivo de mostrar o que de mais interessante tem sido produzido no teatro de marionetas e formas animadas em todo o mundo, numa perspetiva artística sem fronteiras, muros ou balizas.

Pensar e ver o mundo com um outro olhar – colocar em confronto técnicas antigas, tradicionais com as mais recentes e inovadoras. Colocar em diálogo outras formas de ver o mundo e artistas de várias nacionalidades.

É claro que o Descon’FIMFA também segue estas premissas, neste caso, artistas vindos da Bélgica, Espanha, México e Portugal.

Em que espaços poderemos assistir aos espectáculos?
Os espetáculos podem ser vistos no Teatro do Bairro, no Castelo de S. Jorge e no Teatro Taborda.

Como caracterizam o público do Festival?
Temos um público exigente, que tem acompanhado o Festival desde o seu início e que continua a vir e a trazer novas pessoas. Para além dos que descobrem todos os anos pela primeira vez o FIMFA.

É também um público que questiona e é bastante participativo. Ao longo de todas as edições anuais, quase todos os espetáculos esgotaram, o que tem sido um bom sinal.

Consideramos que temos um público de todas as idades, com maior incidência na população ativa, num público jovem, universitário. Mas também não esquecemos algo que nos agrada especialmente, o facto de observarmos em espetáculos mais experimentais, uma grande diversidade de públicos e de faixas etárias.

Embora possamos considerar a maior parte do público oriundo de Lisboa e das cidades envolventes, temos também vários espectadores vindos de outras partes do país e que tiram férias para assistirem ao festival. Outra característica tem sido a presença de muitos estrangeiros, mas não só turistas, somos muitas vezes contactados por quem vem a Portugal e quer saber o período em que se realiza o FIMFA, para poder vir assistir a alguns dos espetáculos.

Acham que o olhar do público para as marionetas e formas animadas tem vindo a mudar ao longo dos anos?
Felizmente, pensamos que sim, e sentimo-nos também responsáveis por isso. No entanto, para alguns ainda prevalecem as velhas questões de quando falamos em espetáculos de marionetas e formas animadas. Muitos associam logo que são dirigidos ao público infantil ou que são mero entretenimento ou consideram as marionetas uma forma de arte secundarizada.

No entanto, mesmo no nosso trabalho criativo, com os nossos espetáculos, trabalhamos principalmente para o público adulto e desde o início da companhia, há 27 anos, o público adulto aderiu desde o princípio.

Um dos motivos que adotámos a designação para o FIMFA, de Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, prendeu-se também por querermos dar a conhecer o papel da marioneta contemporânea, este lado abrangente de misturar várias artes, e mostrar trabalhos mais experimentais, na fronteira das várias artes, daí vieram também as ‘formas animadas’, designação que à época ainda não era praticamente utilizada. Atualmente, também por causa disso, dizemos as Artes da Marioneta.

O teatro de marionetas tem precisamente esta característica aglutinadora de juntar várias artes. Ao longo da história observamos que esteve presente nas vanguardas artísticas, que souberam explorar o seu valor experimental, social e político. Mas foi também um meio de retratar as injustiças sociais e ainda continua a ser. Muitas vezes podemos estar a ver a utilização desta forma artística nos projetos mais experimentais e não nos lembramos que são marionetas…

O que importa realçar é que as artes da marioneta são um mundo efervescente de grande liberdade artística e que congrega a influencias de várias disciplinas artísticas e artistas com múltiplos talentos e de proveniências muito diversas.

Qual o papel que o FIMFA quer ter no panorama cultural português?
Pensamos que o FIMFA já tem um papel muito importante no panorama cultural português, mas nunca estamos satisfeitos, queremos sempre ir mais além. O FIMFA, ao longo dos seus 20 anos, conseguiu crescer e implantar-se, faz parte do calendário cultural de Lisboa e de uma agenda internacional, mais ampla de festivais, tendo-se tornando num dos pontos de encontro internacional de referência.

Queremos manter a liberdade artística de mostrar projetos mais experimentais e inéditos no nosso país e internacionalmente. Basta lembrar-nos de companhias que se apresentaram no FIMFA e em Portugal pela primeira vez, e que marcaram o público e a crítica, como foi, por exemplo, o caso paradigmático dos Hotel Modern, com “The Great War” (em 2007 e 2015), “Kamp” (em 2008) ou “Shrimp Tales” (em 2010). Mas poderíamos falar de muitos outros.

A liberdade, o risco e a experimentação têm caracterizado a programação do FIMFA. Mas pensamos que há espaço para progredir e expandir ainda mais o festival. Temos muitas e ideias que gostaríamos de desenvolver para ocupar ainda mais a cidade e apoiar mais os artistas portugueses. Os problemas continuam a ser os fatores económicos e necessitarmos de um espaço físico maior.

Nos anos futuros o FIMFA pretende continuar a ocupar um lugar de excelência na apresentação de projetos de grande qualidade, caracterizados pela originalidade, experimentação e inovação artística, bem como em apostar em coproduções nacionais e internacionais.

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