Mais uma crise trágica

Por Ivo Saraiva e Silva

A tragédia devia ser inspiradora, mas faltam-me as ideias.

A circunstância em que hoje estamos inseridos, em que forçosamente nos vemos imbuídos em discórdias que não quisemos, assistindo à violência de conflitos tortuosos, parece rogar-nos uma atuação imediata, dentro das possibilidades da nossa ação no mundo. Em primeira instância, vem-nos à memória uma teoria batida: a História pode ser/é a repetição incessante de uma e a mesma coisa: uma batalha animal com precedentes e toda a gente sabe como vai acabar. Depois, apercebemo-nos da possibilidade de interagir e/ou agir diretamente para a travar ou a amenizar. É sintomático de contextos como os de hoje que as variadas opiniões que se revelam tenham diminuta validade. Por isso, avisa-se o leitor que tudo o que se defender nesta mancha gráfica pode eventualmente ser aperfeiçoado ou até contrariado por mim próprio, num futuro breve.

No meu entender, a arte é um mistério. Tenho vindo, com um par de artistas e outros colaboradores, a pensar que formas pode tomar a (“minha”) arte e de que maneira se a pode potenciar, ao mesmo tempo que se contribui para estilos e formatos mais pertinentes, exigentes com a sua estese. É igualmente verdade que há uma insistente ideia de crise que me tem vindo a acompanhar nos processos de trabalho, talvez ancorada à geração artística aonde pertenço, e onde nasci e cresci, e com a qual tenho vindo a explorar dialéticas multifárias e plurais (acredito). Ainda assim, parece-me que o momento histórico a que hoje assistimos, e o qual nos diz respeito porque acabamos por participar dele – direta ou indiretamente – é o de uma crise trágica, por se tratar de uma situação limite.

Em todas as situações limite – daquilo que tenho observado –, nunca se perceciona com exatidão o que pensar, defender, fazer, porque o contexto pode mudar a todas as horas e tomar contornos e proporções variáveis em curtos espaços de tempo. Não obstante, o facto de estarmos posicionados geográfica, social e politicamente numa zona de privilégio, oferece-nos a regalia de observarmos esta crise – que faz nascer uma tragédia – com relativo distanciamento e ainda de não participarmos nela com uma atividade tão séria. Parece-me que é aqui que se situa a nossa força de atuação. Isto é: o facto de estarmos a assistir faz dos nossos artistas, pensadores, escritores devedores de perspetivas e de uma poesia que discurse acerca da conjuntura atual.

É comum e natural que a maioria das pessoas anseie por um entretenimento que as faça esquecer a conjuntura onde se inserem, em tempos de crise e de tragédia. Ainda assim, a arte pode e deve assumir um papel imensamente importante na criação do belo e do sublime, na invenção de outros mundos e na inversão de mundos, novos pareceres. Mais ainda, a arte promete pensar futuros, elaborando até distopias que hoje vemos tornar-se numa feroz realidade: o argumento do eterno retorno, onde a História é cíclica e em espiral – argumento que auxiliou e foi objeto de inúmeras obras –, revela hoje um fatal destino, mas diz-nos igualmente que a arte e o pensamento são detentores dessa possibilidade de pensar numa posteridade.

Dentro do infinito domínio da arte, é destacada uma questão sem uma resposta simples e instantânea: como fazer arte hoje? Notoriamente, é do interesse desta questão uma exausta e ponderada partilha de aspetos e discussão de ideias que lhe pretendam responder; ainda assim, atrevo-me a sugerir que uma das ações possíveis poderá passar por tentar mediar os conteúdos a que importa aos artistas trabalhar com uma perspetiva justa e cuidada com o contexto em que se está a viver. Desta feita, talvez se faça habitar a obra num ambiente especulativo e interpretativo amplo, numa visão de mundo mais altruísta.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: Alípio Padilha

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