Maneiras de pescar um McFish

Por Keli Freitas

O dia já ia tão mal que achei que almoçar no McDonald’s, e me sentir ainda pior, seria a forma mais razoável de dar seguimento às coisas. Mas como tudo nessa vida dá trabalho, e eu não vou ao McDonald’s há muito tempo, tenho de fazer um esforço intelectual enorme e indesejado para conseguir acompanhar o cardápio digital que vai sendo exibido como um trailer de cinema nas gigantescas telas de led que reluzem por trás de funcionários mais atarefados que qualquer presidente da república. Atualizando-me sobre os lanches anunciados, sinto imediatamente falta do McFish. Sinto falta do McFish como quem tem saudade de um amigo de infância. Sinto falta do McFish como quem pressente a morte da sua última tia gente boa.

Quando eu era pequena achava que o McFish era o único sanduíche que o McDonald’s vendia. A minha mãe só comia McFish, o meu pai só comia McFish, a minha irmã só comia McFish e eu só comia McFish. Eu não pensava sobre isso e não era infeliz assim. O McFish era a mais esperada recompensa depois de um dia inteiro a percorrer os saldos do Madureira Shopping Rio em busca de biquínis que durassem 10 verões, casacos para combinar com quaisquer calças, camisetas de fácil lavagem, tênis escolares que não furassem na sola antes do pós-doutoramento. Consumidora extremamente exigente, minha mãe escrutinava corredores, produtos, preços, formas de pagamento, fiabilidade das costuras de cada peça, frente e verso, e não nos permitia respirar, sentar ou lanchar até que sentisse que tinha feito os melhores investimentos, como se cada escolha feita naquela tarde fosse valer para o resto de nossas vidas. Andávamos atrás dela como camelos obedientes e fazíamos o que quisesse, contando com o grand finale de, ao fim de tudo, nos sentarmos, semi-inconscientes, num mar de sacolas, diante de nossos 4 McFishs.

Quando chega a minha vez de pedir, aponto para o menu surreal 3D hollywoodesco e pergunto ao senhor que me atende se o McFish não existe mais. O senhor me responde que sim, que o McFish ainda existe. Eu, aliviadíssima, ia querendo saber, meio ofendida, qual a lógica de não anunciarem o McFish se o McFish ainda existe, ou de ainda existir o McFish se não têm vontade de o anunciar. Mas lembro-me que já estou muito cansada, que o senhor à minha frente nada tem que ver com os sanduíches que vende, que o dia já ia muito mal àquela altura e eu só desejava piorá-lo da maneira mais breve e prática possível. Peço, portanto, o meu McFish, e vou para um canto aguardar com a senha em mãos.

Enquanto espero, vejo gerações e mais gerações de clientes chegando, pedindo e saindo com seus lanches, e nada do meu McFish. Eu já sabia, sempre soube, que o McFish é um sanduíche marginal. Que, como quase ninguém pede McFish, nunca há McFishs prontos, então eles têm de ser feitos de raiz, quase que reinventados a cada vez, na hora em que são pedidos, o que é uma coisa boa para quem já vai comer uma coisa má.

Mas o dia ia mesmo mal, e eu nunca havia esperado tanto por um McFish como desta vez. Esperei tanto que usei meu tempo imaginando que há pelo menos  10 anos não pediam ali um McFish. Mas que, como, por alguma razão, o McFish continua existindo, é preciso sempre manter pelo menos um funcionário mais antigo que conheça a receita e a maneira de se montar um McFish. Imaginei que é possível que haja um quarto ao fundo de cada lanchonete McDonald’s do mundo, onde vive e dorme este funcionário que só é chamado, acordado ou ressuscitado em caso de alguém vir a pedir um McFish. Como este funcionário trabalha muito poucas horas por dia, o McDonald’s acabou por construir-lhe este pequeno quarto, arejado apenas o bastante para que não se morra asfixiado lá dentro, e com um banheiro químico em miniatura desenvolvido pela Nasa especialmente para esta situação; vai também neste quartinho uma pequena secretária e um banquinho, para que o funcionário possa ler, escrever e desenvolver projetos pessoais enquanto aguarda a improvável ocorrência de um pedido de McFish. Imagino coisas assim e coisas piores, que não tenho coragem de contar, quando, graças às deusas, sou interrompida pela chegada do meu saquinho.

Noto que toda equipa McDonald’s está mais exausta, e em mim sinto o peso de pelo menos 7 cabelos brancos a mais. Pedem-me mil desculpas, eu as aceito e, enfim, vou saborear o meu tão aguardado e culpado McFish. Está quentinho, macio e tem o mesmo cheiro e o mesmo gosto que tinha há 25 anos atrás, como numa tarde de compras anuais no Madureira Shopping Rio. Fico quase grata ao McDonald’s por ser tão fielmente artificial em seus ingredientes letais. O sanduíche continua sendo tão exatamente o mesmo que, enquanto o como, custa acreditar que hoje é hoje e que já sou adulta há décadas, e que portanto não tenho 11 anos recém-completos, que não acabei de comprar uma mochila nova para a quinta classe, que já não me são permitidas as mesmas esperanças para aquele que ainda não compreendi que seja o mundo.

O sanduíche é a estátua do sanduíche, e eu mastigo devagar. Enquanto dura o pão, estou em Madureira.  Enquanto dura o filete feito de tudo menos peixe, a família está reunida à mesa. Enquanto há molho tártaro estamos todos vivos, fascismo é uma palavra encontrável apenas em livros de História e o Brasil é o país do futuro. Termino a Coca-Cola, as batatinhas, deito fora os restos e agradeço ao funcionário dos fundos a sua paciência e a importância do seu inglório ofício.

Keli Freitas (1983, Brasil) é criadora, dramaturga e actriz.
Graduada em Letras pela PUC-Rio e mestranda em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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Comments

  1. Francisco Pedroso says

    Notável

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