Manifesto Feminista

Por Sara Figueiredo Costa

Uma mulher com lenço vermelho às bolinhas e a manga da camisa azul arregaçada, exibindo os bícepes, acompanha a frase «We Can Do It!». O cartaz foi criado nos anos 40, nos Estados Unidos, promovendo o trabalho das mulheres nas fábricas durante a II Guerra Mundial e procurando evitar o absentismo e desencorajar as greves. Décadas mais tarde, a imagem foi recuperada pelos movimentos feministas e várias vezes adaptada a situações concretas, como aconteceu há dois anos, quando a The New Yorker reeditou o poster na sua capa, usando a imagem de uma mulher negra e substituindo o lenço vermelho por um pussy hat cor-de-rosa, igual ao que muitas mulheres usaram durante a Marcha das Mulheres, no dia da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA. Entre essas duas imagens, múltiplos caminhos se trilharam na conquista dos direitos das mulheres, nos debates sobre que direitos são ou devem ser esses e nos diferentes movimentos que foram nascendo em torno da questão. A generalização de tudo isto só existe em alguma imprensa e no modo pouco reflectido com que se fala do feminismo.

Nancy Fraser, Tithi Bhattacharya e Cinzia Arruzza escreveram um livro que percorre algumas das questões espinhosas do feminismo e das suas representações sociais e mediáticas, apresentando um conjunto de propostas muito concretas para alterar o modo como o género continua a ser motivo de desigualdade em todo o mundo. Feminismo Para os 99% – Um Manifesto, agora publicado em Portugal (pela Objectiva), parte de uma oposição à ideia de conquistar lugares de poder como forma de assegurar a igualdade e parte, sobretudo, de um anti-capitalismo assumido, uma visão do mundo que pretende alcançar uma nova justiça social e não tanto remendar as desigualdades existentes como se o próprio sistema em que existem não fosse a sua causa. «Deveremos continuar a perseguir “o domínio da igualdade de oportunidades” enquanto o planeta arde? Ou deveremos repensar a justiça de género num formato anticapitalista, que nos ajude a atravessar a crise actual em direcção a uma nova sociedade?» (pg.14), escreve-se no texto de abertura. «Este Manifesto é a nossa forma de promover esse “outro” feminismo. Escrevemo-lo não para esboçar uma utopia imaginada, mas para traçar um caminho que deve ser feito para alcançarmos uma sociedade justa.» (pg.16) Esse caminho, para as autoras do manifesto, passa por desafiar os muitos mecanismos económicos, sociais e culturais em que assenta o sistema capitalista, reclamando um feminismo de visão universal, que tenha em conta as muitas realidades de discriminação de género que não cabem na simples exigência de haver mais mulheres a liderar empresas. As mulheres que trabalham de sol a sol nos campos de arroz do Sudeste asiático, as que enfrentam condições laborais aterradoras nas fábricas mexicanas, as que lutam contra a excisão em vários países africanos, as que, vivendo em países onde teoricamente poderiam ascender aos tais cargos de topo e liderança, habitam as franjas da sociedade noticiável, nenhuma delas terá muito por onde se rever no discurso da igualdade empresarial. Englobar essas mulheres na luta, enquadrar as outras discriminações que se cruzam com a de género, do racismo à homofobia, da imposição do binarismo de género à assunção de um papel reprodutor, bem como discutir problemas sistémicos que aparentemente (e talvez só aparentemente) nada têm que ver com o feminismo, como é o caso da ecologia, é missão afirmada por este manifesto desde a primeira página.

Partindo das contradições do próprio sistema capitalista, as autoras desenvolvem as suas teses políticas em capítulos breves, cada um dedicado a analisar aspectos particulares desse sistema e a apresentar propostas para a sua alteração. A reflexão sobre os cruzamentos entre racismo e colonialismo e patriarcado, ou entre as lutas LGBTQ+ e o feminismo compõem os capítulos com maior novidade, não porque os movimentos feministas não discutam esses temas há muito, incorporando-os nas suas lutas, mas porque a imagem uniformizada – e, por vezes, caricaturizada –  desses movimentos transmitida pelos media não costuma abarcá-los. Ecoando o Manifesto Comunista de Marx e Engels, publicado em 1848, o que este pequeno proclama é que anda um espectro pelo mundo, o do feminismo, e que tendo em conta as tantas vozes que tentam desacreditá-lo (e a origem privilegiada dessas vozes), talvez tenha chegado a altura de assumir a urgência de mudar tudo. E este tudo não é a pouca presença de mulheres nos altos cargos empresarias ou governamentais, é o sistema que assenta parte das suas fundações na desigualdade de género, amparado por várias outras desigualdades que se foram entrelaçando ao longo do tempo e compondo alicerces que muitos crêem inabaláveis. A isso ainda se chama uma revolução, por mais que a palavra tenha sido banalizada em músicas pop ou anúncios de refrigerantes, e é exactamente isso que Nancy Fraser, Tithi Bhattacharia e Cinzia Arruzza defendem neste Manifesto. Se dessa defesa nascerão consequências, resta-nos esperar para ver.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de julho de 2019.

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