Maria Novo e a Masmorra

Nascida recentemente numa garagem do centro histórico de Ponta Delgada, a Masmorra é uma plataforma híbrida de produção cultural experimental que pretende contribuir para a cidade de Ponta Delgada com receptividade e inclusão através da arte. Conversámos com Maria Novo, responsável pelo projecto, para saber mais.

Fala-nos sobre as origens e missão da Masmorra
A Masmorra nasceu no verão do ano passado, numa garagem do centro histórico de Ponta Delgada e desde esse momento quisemos ser uma plataforma híbrida de produção cultural experimental. Produzimos diversos eventos de forma autogerida como exposições, instalações, eventos híbridos como foi o caso da Masmorra Salón, contando com bastante afluência de público local e estrangeiro.

O nosso propósito é o de potenciar estruturas artísticas informais e experimentais, que divergem de espaços convencionais como galerias e museus. Uma vez que trabalhamos com apoios públicos cremos que uma das nossas funções é a redistribuição de financiamento de forma inclusiva.

Podemos dizer que um dos vossos propósitos é dar visibilidade à diferença?
Mais do que diferença seria dar visibilidade à diversidade, à multiplicidade de formas de ser, de amar, de estar e se apresentar ao mundo.

Conta-nos sobre a Open Call que abriram, destinada à comunidade LGBTQIAP+
As residências Fast & Furious têm como finalidade potenciar a criação de espaços queer na ilha, pela necessidade de criar espaços inclusivos de produção e desenvolvimento artístico nos Açores. Vinculando a experiência da arte com causas sociais e ambientais, estas residências, estabelecem-se como uma oportunidade para novos diálogos, evidenciando a necessidade específica em dar visibilidade a criações e produções artísticas ou artistas de diversas identidades de género e sexualidades não normativas.

Com o objetivo de realizar um processo mais justo e transparente construímos uma equipa específica para open call e convidamos pessoas externas à Masmorra para apoiar a seleção de artistas, tal como é o caso do coletivo jovem Atelineiras e a performer e artista multidisciplinar Tita Maravilha.

Como se irão processar as residências resultantes da Open Call?
Cada semana a Masmorra acolherá duas residências em simultâneo, juntando artistas locais e não locais, promovendo a partilha de ideias e processos criativos mais amplos. O objectivo final de cada período de residência é que resulte numa mostra pública no espaço da Masmorra, sendo este partilhado entre 2 artistas. Deixa-se à consideração das pessoas em residência realizar uma mostra conjunta ou duas mostras separadas no mesmo espaço.

Quem são os vossos parceiros nesta iniciativa?
Como principais apoios contamos com o financiamento da Câmara Municipal de Ponta Delgada e da Direção Regional da Cultura do Governo dos Açores, que nos permitem produzir as residências Fast & Furious.

Para além deste apoio, temos como parceiras a A(MAR) Açores Pela Diversidade, o primeiro centro de apoio à população LGBTQIAP+ nos Açores, que irá dinamizar um ciclo de conversas que integram a programação da Masmorra sendo apresentadas no dia da mostra de cada residência.

Por último, desde o início contamos, de forma informal, com a cooperação de diversas instituições locais (tais como a Vaga – Espaço de Arte e Conhecimento, a La Bamba Bazar Store, Arquipélago, entre outras) através do apoio não só em termos logísticos como também em material, que nos permitiram crescer como espaço e realizar as primeiras residências e eventos, que por sua vez nos ajudou a formalizar uma plataforma na cidade e a chegar onde estamos hoje.

Como é que as pessoas se podem candidatar às residências?
A submissão de trabalhos deve ser feita até 30 de setembro através do preenchimento deste formulário online. Devem ser incluídas as seguintes informações: identificação da pessoa candidata e da sua cidade de residência; breve biografia; links para páginas ou plataformas online demonstrativos de trabalho artístico, identificação e breve descrição da proposta artística e objetivo e disponibilidade para residência artística. Serão aceites trabalhos em processo de desenvolvimento ou trabalhos já finalizados que pretendam ser repensados.

Esperas que o projecto Masmorra ajude à criação de mais espaços queer nos Açores?
Esperamos que as Fast & Furious Residencies incentivem não só a criação de espaços queer nos Açores, mas também a abertura de espaços artísticos com carácter mais informal.

Queremos abrir mentalidades, iniciar diálogos, desconstruir preconceitos ou normas culturais mais enraizadas, numa sociedade que ainda é tendencialmente conservadora e que isso nos Açores se sente mais. Se a presença de uma mulher cis no espaço público pode ser desconfortável, falando até por experiência pessoal, o que será das pessoas que não correspondem à norma, dos corpos dissidentes, das diversas identidades? A Masmorra quer ser um espaço seguro, contribuindo para uma sociedade mais consciente dos espectros da diversidade, através da prática artística.

Para além das mostras, as conversas com a A(MAR) surgem com a vontade de criar pontes e momentos semanais para abrir o diálogo com a comunidade sobre temáticas queer de forma gratuita e acessível.

A tua expectativa em relação ao futuro é positiva, ou nem por isso?
Se a Masmorra não fosse otimista não se propunha a produzir estas residências. Acreditamos na mudança, em juntar artistas e comunidade e no poder disruptivo da arte em gerar diálogos. No futuro esperamos que a Masmorra se possa estabelecer de forma permanente na cidade com programação mais regular.

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