Mariana Tengner Barros – Entrevista

Foto de António Mv

Foto de António Mv

A coreógrafa e bailarina Mariana Tengner Barros é a nossa entrevistada de hoje. Desde cedo percebeu que a dança iria fazer parte da sua vida, e desde então não parou. Fala-nos do seu percurso, da importância da formação, das suas incursões pelo estrangeiro,  das colaborações que tem feito, e dos projectos em que está envolvida. A não perder.

Quando percebeste que querias fazer carreira na Dança?
Nunca tive intenções de fazer “carreira” em nenhuma área. Os meus pais são músicos e sempre me estimularam a dançar (mesmo que inconscientemente), e aos 5 anos, perguntaram-me se eu gostaria de ir aprender ballet numa escola de dança em Famalicão (cidade onde cresci), e eu disse que sim. Gostava do “ballet”, mas interessava-me por muitas outras coisas, não tinha nenhuma profissão de eleição, quis ser muitas, e no final do liceu, até estava a pensar seguir Biologia.

Nessa altura, também ajudava a minha professora de dança Neuza Rodrigues, dando aulas de ballet e dança moderna a crianças, numa sucursal da escola nos arredores de Famalicão, o que me deu imensa experiência, sendo uma enorme responsabilidade para uma adolescente. Mas era comum dizer-se que a dança não dava dinheiro, que era sempre algo para fazer como actividade extra… E eu, por mais que amasse a dança, tinha medo de arriscar e ia-me mentalizando em seguir o percurso mais “normal”. Quando tinha 16 anos fiz um workshop no Porto com um bailarino inglês, o John Carney, que me disse que eu devia concorrer a uma escola profissional em Inglaterra. Sugeriu-me a Northern School of Contemporary Dance, em Leeds. Na altura era demasiado nova, tinha que terminar o liceu primeiro, mas informei-me, e no ano seguinte logo concorri à NSCD.  Ele é responsável por eu ter seguido este caminho, e estou-lhe eternamente grata pelo incentivo. Estava sem expectativas, já a pensar num plano B que seria a Escola Superior de Dança em Lisboa, mas dias depois tinha uma carta em casa… a dizer que me aceitaram na NSDC. Fui então, com 17 anos para Leeds, e foi a partir do início do primeiro semestre na escola, em 1999, que finalmente decidi que ia ser coreógrafa e bailarina. Deixei-me de medos, e nunca mais olhei para trás.

Que importância tem a formação no contexto das Artes Performativas?
A formação é muito importante, pois é através da transmissão do conhecimento, que se evolui e se aprende, se partilha. A formação pode e deve acontecer em diversas circunstâncias, não somente a formação institucionalizada, que infelizmente tende a perder qualidade… Sou apologista de que cada um procure aquilo que precisa, que haja opções, diversidade na oferta de workshops, cursos, aulas livres, para que os mais jovens possam ir percebendo os diferentes caminhos que podem escolher, antes de desistirem…  Isto para dizer, que, em Portugal, há muito pouca diversidade na oferta de formação em dança. Temos apenas um ou dois cursos superiores cuja qualidade técnica e artística me deixa muito a desejar. Não devido à falta de pessoas com a experiência e o talento para ensinar, mas pelas mudanças que temos vindo a sofrer com os cortes orçamentais na Cultura e consequente apoio às artes. Se esta área sempre foi marginal, agora está ainda mais… Eu voltei para Portugal em 2008, e voltei porque neste país tão “desesperado”, havia um curso de 2 anos, no Fórum Dança, o PEPCC, que tinha formato de workshops seguidos, com quase todos os criadores que eu admirava e que queria conhecer: Nunca vi um curso com aquela qualidade artística, quase sem condições físicas para fazermos as coisas, mas um curso que mudou mais uma vez a minha vida e onde conheci as pessoas com quem trabalho regularmente hoje em dia. A importância da formação é mesmo esta, altera a vida de uma pessoa, guia gerações em determinadas direcções… logo é preciso ter mesmo muito cuidado com as escolhas… sempre. Mas é nessas alturas, quando se faz um curso (seja profissional ou formato workshop), que se põe as mãos na massa, com a ajuda de mentores, de pessoas que têm muito mais experiência e que podem guiar as nossas, e é quando se entende muita coisa, que possibilita uma postura mais madura para lidar com o mundo.

THE TRAP. Foto de Marco Pires.

THE TRAP. Foto de Marco Pires.

O mundo da Dança é feito de colaborações. Que momentos do teu percurso te marcaram enquanto artista?
Todas as pessoas que conheci ligadas à dança ou às artes em geral, foram importantes por diferentes razões. Não posso nomear todas (nem todos os momentos) pois seria uma lista demasiado extensa, portanto saliento: Neuza Rodrigues, uma das minhas primeiras professoras de ballet e fundadora da Escola Alémdadança em Famalicão onde iniciei o meu percurso; Sónia Rodrigues, que me introduziu ao contacto-improvisação e à improvisação; John Carney, que me incentivou a concorrer à NSCD, todo o percurso dentro da NSCD foi extremamente importante e são muitos os nomes, mas saliento os colegas com quem inventava mais conceitos e que me faziam acreditar na nossa capacidade de afectar o mundo… Ian Piears e o colectivo do qual fiz parte The Resistance Movement, com Said Dakash, Melina Pena e Shona Roberts…; Filip Van Huffell, director da companhia de Dança Retina Dance sediada na Bélgica, onde dancei durante 2 anos e onde conheci a performer polaca Agnieszka Dmochowska; a Vera Mantero, que me fez voltar a Portugal em 2008 e me deu a conhecer o PEPCC, a Cristina Santos (directora do Fórum Dança) e todos os mentores/criadores e colegas que faziam parte do curso. Foi também nesta altura que conheci o Francisco Camacho e que comecei a ser apoiada pela sua estrutura de produção, a EIRA, da qual sou actualmente artista associada. O Francisco e a EIRA tornaram-se partes integrantes da minha vida, uma segunda família, uma segunda casa, onde aprendo imenso e tenho espaço e apoio para fazer as minhas experiências artísticas, assim como feito parte das dos artistas da Eira e de outros que passaram por lá de alguma forma tais como Tiago Cadete, Rafael Alvarez, Carlota Lagido, Abraham Hurtado, Rui Silveira, João Manuel Oliveira, Filipe Viegas, Filipe Lopes…

O Mark Tompkins, que conheci ainda no Fórum Dança, com quem me identifico profundamente, e com quem colaboro frequentemente…

Outro momento-chave essencial é ter conhecido o António Mv, a quem eu prefiro chamar “meu braço esquerdo”, colaborador fundamental no meu trabalho. E, quase em simultâneo, conheci o Nuno Miguel e o Rogério Nuno Costa. Juntos, somos a BELA TV, projecto para a vida, que é um colectivo anartístico e tecno-emocional™.  Não posso deixar de referir também o John Romão e o Mickael de Oliveira, aka Colectivo 84, que “me levaram ao teatro” e que marcou uma nova estrada na minha “carreira”. Por fim, vou “nomear” como pessoas importantes que me “marcam” contínua e actualmente: Elizabete Francisca,  Cláudio Viera, Ana Sousa, Susana Otero, João Costa, Raquel Castro, Vítor Rosário, Nuno Alexandre, Pedro Andrade, Jonny Kadaver…

Já actuaste em diversos países. Que diferenças encontras em relação à realidade portuguesa?
Dinheiro. A diferença está sempre aí. Uns têm mais, outros (por incrível que pareça) têm menos. Nos países com mais dinheiro, tudo parece funcionar melhor, há mais condições para se realizarem os projectos e apresentarem os espectáculos, e consequentemente sente-se mais “competição” no ar, as festas e o “social” têm a carga de “trabalho”, sente-se que se está de facto num mercado. Nos países mais pobres, o lado humano é normalmente mais forte, as experiências mais intensas a esse nível. É uma resposta perversa, para uma realidade perversa…

O que procuras quando coreografas?
Procuro as melhores ferramentas para materializar ideias.

De que criadores não perdes pitada?
É difícil responder a esta pergunta, pois há criadores que admiro imenso e que gostava de acompanhar, mas não posso, pois não vêm a Portugal regularmente, por exemplo… Ou seja, de que criadores gostaria de não perder pitada? Diria: Mark Tompkins, Davis Freeman, Francisco Camacho, Vera Mantero, Miguel Pereira, Elizabete Francisca, John Romão, Meg Stuart, Rogério Nuno Costa, João Costa, Pedro Gil, Raquel Castro, Dinis Machado, Tânia Carvalho, Luís Guerra, Marlene Monteiro Freitas, Ana Borralho e João Galante, Cláudia Dias, Vânia Rovisco, Stina Nyberg, António Onio, Ann Liv Young, Jefta van Dinther, Jeremy Wade, Anna Gaiotti…

A POWER BALAD. Foto de Vítor D Rosário.

A POWER BALAD. Foto de Vítor D Rosário.

Em que projectos estás actualmente envolvida?
Estou em processo de criação para a minha nova peça THE WEATHER™ que estreia ainda em 2015 no Festival Temps D’Image em Lisboa. Será uma peça em formato “programa de tv”, assim como um dueto virtual com o Luís Guerra (que aparece sempre em forma de “projecção”) e com a banda psicadélica JESUS K & the sicksicksicks a tocar ao vivo. Continuo a circular com outras peças minhas, vamos repôr o END OF TRANSMISSION (peça que criei com o Ballet Contemporâneo do Norte em 2014) em Santa Maria da Feira, no Cineteatro António Lamoso dia 16 de Maio, e o meu solo APRÈS LE BAIN, dia 31 de Maio, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Também vou coreografar uma peça para a companhia londrina EDge, companhia de pós-graduados do THE PLACE em Londres. Esta companhia tem um protocolo com a escola Além da Dança e a Casa das Artes em Famalicão. Anualmente finalizam a sua tourné mundial em Famalicão, durante uma semana no início de Julho, onde apresentam o repertório e realizam workshops com a escola e membros da comunidade. Eu crio uma peça para e com eles, em poucos dias, sendo uma improvisação guiada por mim e pelo músico Jonny Kadaver, ao vivo. Será apresentada dia 7 de Julho, ao ar livre, no Parque da Devesa em Famalicão. Nessa altura estarei também em cena no Teatro Nacional S. João, com a peça de teatro POCILGA, de Pier Paolo Pasolini, encenada pelo John Romão de 2 a 5 e de 8 a 12 de Julho. Esta peça passará primeiro por Torres Novas e Viseu, no final de Junho. Tenho outros projectos que estarão a acontecer pelo ano fora, se quiserem seguir, podem ver a informação no meu blog: http://marianatengnerbarros.tumblr.com/ e pelo Facebook.

Que mensagem deixarias aos bailarinos de amanhã?
As mensagens estão no meu trabalho, de forma não linear… Para bailarinos e não só. Gostava que as pessoas pensassem mais, para além do óbvio, que se preocupassem menos com as aparências e os lobbys, e que fossem fieis aos seus ideais. Que perdessem o medo, deixassem de querer “agradar” e se focassem em sentir, em viver.

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