Mário Coelho – Entrevista

© Joana Correia

Mário Coelho é actor, dramaturgo e encenador. Conversámos com ele a propósito do seu mais recente espectáculo “elena”. Também ficámos a saber o que procura num interprete, e os seus planos daqui para a frente. O espectáculo “elena” está em cena no Teatro da Comuna até dia 30 de Abril.

Conta-nos um pouco acerca do teu percurso artístico
Em 2012 entrei na Escola Superior de Teatro e Cinema. E essencialmente, nesses três anos de licenciatura, tentei (agora penso que não tanto como poderia) ir absorvendo o máximo que conseguia. No entanto, penso que o meu grande ponto de viragem aconteceu no processo de um espectáculo da Mariana Ferreira, uma colega e pessoa muito importante neste meu percurso artístico, que se chamava “Musgo e Urze”. Foi aí que descortinei – ou comecei a aprofundar – aquilo que me interessava no teatro: a criação de um espaço de encontro entre pessoas, com pessoas e para pessoas. E são sem dúvidas, elas, as pessoas, o motor do meu trabalho… interessam-me as marcas de cada corpo, as histórias de cada indivíduo; são uma infinidade de “material” artístico, de construção. Foi quando terminei esse processo, assim como a licenciatura, que decidi escrever e encenar o meu primeiro espectáculo, “é possível respirar debaixo de água”, e até agora, ainda não sei bem como, tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas que me trazem tanto de bom, e me têm ajudado a continuar com esta vontade em, para além de intérprete, escrever e encenar, o que ainda é um pouco novo para mim. Neste momento, faz-me sentido, ao escrever, já pensar nos corpos, nos intérpretes que me interessam e que me fazem sentido dizer aquelas palavras. E encontro-me neles. De certo modo, é isso que me tem mantido vivo enquanto artista.

Como surgiu a ideia para “elena”?
Depois do meu primeiro espectáculo, tinha uma ideia muito clara de qual seria o meu próximo. No entanto, na hora de escrever, não conseguia inteiramente processar tudo aquilo em que estava a pensar e todas as urgências que me assolavam; eram muitas as ideias, sempre ligadas a um ambiente apocalíptico, e precisava de algum tempo para me focar no essencial. Contudo, entre o “é possível respirar debaixo de água” e o “elena”, trabalhei com a Anabela Teixeira num espectáculo, de nome “Voltar à Terra”, que levou a um processo muito duro de repensar o próprio papel do teatro na minha vida, e, pelo caminho, fez-me perceber de uma forma mais clara, o que seria este “elena”. Então comecei a escrever, já com grande parte das premissas textuais delineadas e com a ideia dos intérpretes que queria para este espectáculo e, de certo modo, a coisa foi acontecendo e também fui descobrindo o texto à medida que o seu processo de escrita se desenrolava. E que bom que isso é. O “elena” surge como um espectáculo, a meu ver, que acompanha também um processo pessoal de construção de um discurso e de uma linguagem mais clara; é, nesse sentido, um texto muito mais maduro que o anterior que, com toda a importância que teve e tem na minha vida, ainda me apanhava num sítio de (maior) indecisão sobre o que queria verdadeiramente dizer, ou melhor, como dizê-lo, sem cair em justificação de ideias. Esse é um corte duro, mas necessário.
Agora, parece-me que este, o “é possível respirar debaixo de água” e aquele que pretendo fazer ainda no final deste ano, “finado”, compõem uma espécie de trilogia (não planeada) ligada ao abandono da infância e iminência da morte.

© Tiago Damas

Quais os grandes temas abordados no espectáculo?
A sensação, o tom que permeia cada momento deste espectáculo é o da iminência do último golpe apocalíptico, no qual tudo será irrevogavelmente aniquilado. “elena” apresenta-nos sete indivíduos, numa casa, a tentarem perceber o que é isto, esta possibilidade de “viver a nossa vida uma última vez” e o “que querem deixar registado para os habitantes da nova era”.
Entretanto, os pássaros caem do céu, as abelhas desapareceram, a noite acabou, assaltam-se supermercados; a ordem foi, enfim, desestabilizada. O fim tanto está para vir como já começou há muito tempo. É esta linha de tempo que, uma vez assumindo contornos turvos, abala qualquer hipótese de estabilidade ou possibilidade de compreensão do tempo e dos fenómenos mundanos.
A única hipótese de salvação que é apresentada é a de uma lotaria que, aleatoriamente, irá seleccionar indivíduos para viajarem até Marte, onde a colonização se tornou possível. Na nova era – que nascerá de um contexto pós-apocalíptico – os seres humanos serão substituídos por seres especiais. A evolução da inteligência artificial parece ter sido o objectivo máximo do ser humano na sua incessante busca pelos ideais do progresso.
Porém, uma das questões mais pertinentes nesta discussão – e que se torna um aspecto nuclear – é a da sensação de que o ser humano se tornou (ou está a tornar-se) cada vez mais fragmentado, incongruente, inconsequente, absurdo, contraditório e frívolo – o que, ao nos levar a considerar mais atentamente a falibilidade humana, conduz-nos, por sua vez, a uma interrogação sobre se o ser humano é ou não um elemento integrante de um cenário alternativo.
E terei de parar por aqui, com o risco de revelar em excesso o enredo.

Enquanto encenador, o que te cativa num intérprete?
Corpos em revolução. Figuras com capacidade de sacrifício e investimento. Corpos disponíveis. Figuras em conflito, mas livres na sua individualidade. Corpos que estejam vivos, ou melhor, a lutar por essa vida que lhes preenche e pertence. Figuras que não se deixem acompanhar em demasia por conceitos como “bom”, “mau”, “falhar”, “acertar”… no fundo, não existe uma qualidade de intérprete que me cative. Sou apaixonado pela variedade humana, por aquilo que cada pessoa pode introduzir a um processo criativo. Só assim me parece fazer sentido. Mas uma coisa posso revelar: adoro chamadas, a meio da noite, para falar do ensaio ou debater questões ligadas ao texto, etc… olha, É ISSO: intérpretes com insónias.
Fora de brincadeiras, as pessoas que me têm interessado são aquelas que me lançam e levam para sítios diferentes, quase violentos, mas belos. Talvez seja a isso que se refere a expressão: “tirar o chão”. De momento, a Ana Valentim, a Cleo Tavares, a Elena Rudakova, a Leonor Wellenkamp Carretas, a Mariana Pacheco de Medeiros, o Pedro Baptista e a Rita Silvestre, são sete dos intérpretes que me proporcionam essa viagem de um modo estrondoso.

Esta equipa artística tem projectos daqui para a frente?
Temos sim. A seguir, em Junho deste ano, também na Comuna Teatro de Pesquisa, eu, juntamente com alguns dos intérpretes deste “elena”, mais a Anabela Ribeiro, vamos participar no “Paisagem” do Pedro Baptista, um actor e encenador que é, sem dúvida, das pessoas que mais admiro e com quem mais me identifico de um ponto de vista artístico, e que também irá escrever e encenar. Para o próximo ano, também já temos alguns projectos planeados, com algumas das mesmas pessoas (e não só) com quem me tenho cruzado nestes projectos. Eles já são família e, no que depender de mim, não se vêm livres deste chato assim tão cedo.

Entre escrever e encenar, qual apresenta o maior desafio?
TUDO. Tudo é um desafio, altamente prazeroso mas, por vezes, bastante doloroso. Mas faz parte. Está tudo bem.

O que faz falta para animar a malta?
Um pouco mais de atenção à Cultura, não era nada mal pensado.

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