Marta Martins (Artemrede) – Entrevista

Conversámos com Marta Martins, directora executiva da Artemrede. Esta associação está a gerir vários projectos, entre os quais o Odisseia, no âmbito do programa Partis, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, e o projeto europeu “A Manual on Work and Happiness”, vai organizar o festival Manobras depois do verão, bem como um Fórum Politico para discutir a territorialização das políticas públicas de cultura. Tudo para descobrir nesta entrevista.

Que balanço faz dos 12 anos de actividade da Artemrede?
A Artemrede é um projeto pioneiro em Portugal e penso que é possível dizer que é um caso de sucesso, pela capacidade de resiliência e de superação ao longo destes 12 anos. Começou por ser uma rede de teatros, centrada na circulação de espetáculos e na formação das equipas, passou por períodos muito difíceis e que puseram em causa a sua sobrevivência (especialmente nos anos da crise), mas foi capaz de se reinventar através de um processo profundo e amplo de reflexão estratégica, desenvolvido internamente e para o qual contribuíram todos os que participam na rede (eleitos, técnicos, programadores…). Durante estes 12 anos conhecemos muitos avanços e recuos e o trabalho que desenvolvemos nem sempre é visível ou tem resultados imediatos, mas acreditamos que temos feito a diferença nos territórios nos quais trabalhamos e a prova é que continuamos a crescer e a desenvolver novos projetos.

Quais são os principais focos de acção do Artemrede?
A nossa área de ação é ampla e ambiciosa. Durante anos a Artemrede atuou sobretudo em duas frentes: no desenvolvimento de ações de formação dirigidas às equipas dos equipamentos culturais dos nossos associados e na oferta regular de programação, promovendo ao mesmo tempo a troca de conhecimento e de boas práticas entre os membros. Essas frentes mantêm-se ainda hoje. Coexistem a par do apoio à criação artística, mas tudo isso tem vindo a ganhar contornos mais complexos já que passou a haver um foco no desenvolvimento de projetos plurianuais de intervenção no território e de trabalho com as comunidades locais, como é o caso do projeto Odisseia, que implementamos no âmbito do programa Partis da Fundação Calouste de Gulbenkian. Estes são focos de ação que implicam um maior acompanhamento e uma maior articulação entre a nossa equipa e os técnicos municipais dos departamentos de cultura, de educação, de intervenção social e de turismo.
Em simultâneo estamos também a dar os primeiros passos na internacionalização da rede e a contribuir para o debate público sobre cooperação cultural e territorial com a organização de um fórum político.

Qual o papel da descentralização na vossa actividade?
Vivemos num país muito desigual no que respeita ao acesso à cultura e às artes por parte das populações. E essas assimetrias são visíveis, não apenas comparando Lisboa com outras regiões, mas inclusive no contexto da Área Metropolitana de Lisboa. O trabalho que desenvolvemos contribui para melhorar essas condições de acesso no território no qual trabalhamos. E fazemo-lo de diversas formas. Promovemos uma programação de qualidade, diversificada e contemporânea; desenvolvemos projetos ancorados na mediação cultural e no território, no sentido da aproximação de todas as pessoas à cultura, advogamos a favor da cultura como fator de desenvolvimento territorial através da discussão e interlocução política e pluripartidária; e continuamos a desenvolver ações de formação especializada para os profissionais que trabalham na área da cultura nos nossos associados.

O facto de a Artemrede ser uma rede que congrega diferentes escalas e geografias é uma mais-valia, por promover a partilha de conhecimento e de experiências entre territórios que de outra forma dificilmente teriam a oportunidade de cooperarem e interagirem. E isso é, também, um contributo para a coesão territorial.

As políticas culturais devem ser adaptadas conforme o local em que se implementam?
Há políticas culturais, nomeadamente no que respeita à promoção do acesso à cultura, que devem ser transversais e que necessitam de uma definição estratégica global, acompanhada do respetivo investimento. Mas a implementação dessa estratégia só pode ser feita através de uma articulação entre Administração Central e Autarquias Locais. Os territórios são muito diversos e o poder local é o que está mais próximo dos cidadãos, pelo que mais apto de identificar e atuar perante as necessidades e interesses aí presentes.

Fale-nos um pouco do “A Manual on Work and Happiness”.
É complicado falar “um pouco” porque é uma iniciativa complexa. É o primeiro projeto transnacional que lideramos graças ao financiamento que ganhámos, no ano passado, do programa Europa Criativa da União Europeia. Estamos a implementá-lo com dois parceiros italianos e um grego. Contamos com a mala voadora na direção artística e com a participação do dramaturgo catalão Pablo Gisbert (El Conde de Torrefiel). Dois dos nossos municípios associados, Alcobaça e Montijo, embarcaram neste projeto, que reúne várias atividades. O projeto centra-se numa reflexão sobre o trabalho e no questionamento da felicidade. Por que motivo o trabalho ocupa tanto espaço nas nossas vidas e é visto como um motor de reconhecimento e de suposta felicidade? Por outro lado, há também muita infelicidade associada ao mundo laboral. E vivemos numa sociedade altamente tecnológica onde os trabalhadores vão sendo, progressivamente, substituídos por máquinas, o que nos permite indagar se no futuro não poderemos falar de uma sociedade pós-trabalho… Partindo destas e de outras questões, pensamos que poderíamos criar uma performance que fosse uma espécie de manual para a felicidade no trabalho, performance essa que seria livre de direitos de autor, passível de ser reproduzida livremente em qualquer parte do mundo, mas que, numa primeira fase, envolvesse as comunidades das cidades de Alcobaça e do Montijo, de Pergine (Itália) e de Patras (Grécia). Assim sendo, haverá um período de quatro residências que conduzirá a um mesmo espetáculo com elencos diferentes nessas quatro cidades no primeiro semestre de 2018.
Mas para lá chegar, desenvolvemos um processo de pesquisa abrangente e atípico que passa pela organização de um seminário internacional sobre trabalho e felicidade, que vai acontecer nos dias 14 e 15 de julho durante o festival Pergine Spettacolo Aperto, um dos parceiros italianos do projeto. A ideia é reunirmos especialistas e dar espaço a artistas para mostrarem projetos que se debrucem sobre o trabalho, a felicidade, a preguiça, a criatividade… Esse seminário pretende fazer emergir uma série de elementos para a reflexão e a escrita do texto do Manual. Essa escrita vai acontecer numa residência em agosto, no centro L’arboreto, em Itália.
O Manual representa um grande desafio para a equipa da Artemrede. Esperamos que depois dele venham outros projetos internacionais. Estamos já a trabalhar nesse sentido.

O que esperar do Festival Manobras?
O Manobras (8 Setembro – 29 Outubro) vai ser uma versão revista e aumentada da Festa da Marioneta que organizámos ao longo dos últimos anos e que permitiu que muitas obras circulassem por vários dos nossos municípios. O quão revista e aumentada será essa versão é ainda parcialmente uma incógnita já que o festival se enquadra numa candidatura que apresentamos ao programa Centro 2020 e cujo resultado ainda não conhecemos, o que aliás condiciona o nosso trabalho enquanto mediadores da programação dos municípios e deste festival em particular.
Ainda assim, objetivo é o Manobras manter uma linha de programação nacional e internacional ligada às marionetas e às formas animadas e desenvolver, em paralelo, uma linha de programação que dialogue com o património material e imaterial e com as comunidades locais, de forma a, por um lado, salientar o potencial turístico da região centro e, por outro, promover a participação das populações em projetos artísticos. Três desses títulos, a que chamamos projetos de território, já foram escolhidos. São eles Os Transportadores, da Radar 360º, Museu da Existência, da Amarelo Silvestre e a Coleção de Coleccionadores, da Raquel André. A programação completa vai ser anunciada no Verão.

Pensa que os apoios institucionais às artes tem sido bem distribuídos?
No que respeito ao apoio às artes o que defendemos é, mais uma vez, a atenção à coesão territorial. E pensamos que isso é possível através do apoio plurianual a projetos de cooperação intermunicipal e de ativação territorial. O Governo está a promover a reformulação do modelo de apoio às artes e sabemos, porque tal foi apresentado, que a coesão territorial é um dos princípios estratégicos, pelo que esperamos que hajam novidades neste campo.

Que iniciativas têm previsto para o resto de 2017?
O segundo semestre do ano será marcado pela continuidade do trabalho do Manual, em paralelo com o Manobras. Vamos entrar na terceira fase do projeto Odisseia, que envolve o cineasta António-Pedro. E há também os Visionários, que já tínhamos anunciado e que vai finalmente concretizar-se. É uma iniciativa inspirada num modelo italiano, mas pioneira em Portugal, no que respeita ao envolvimento das comunidades. Pretende transformar os espectadores em programadores. Ou seja, um grupo de pessoas não relacionadas com o meio cultural e artístico passará a ser responsável por uma linha de programação da Artemrede e, consequentemente, do respetivo município. Os primeiros Visionários serão alguns dos jovens que já fazem parte do projeto Odisseia, mas o objetivo é, depois, alargar a faixa etária dos participantes.

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