Miguel Branco – Entrevista

Conversámos com Miguel Branco, jornalista, e autor do texto de “Até Parece”, que a Companhia Mascarenhas-Martins leva a cena entre 11 e 19 de maio no Montijo. Falámos sobre o espectáculo e o processo, sobre escrita para teatro e jornalismo, e sobre o panorama teatral português.

Como está a ser o desafio de, pela primeira vez, escreveres para teatro?
Felizmente já acabou. Digo felizmente porque é algo que me consome um bocado, que me afasta da realidade, da obrigatoriedade de ser um ser social e relativamente simpático, cordial, bem-disposto. Isto começou em Setembro, não estava previsto que assinasse o texto. O Levi convidou-me, como ao resto da equipa, para participar neste processo, sem saber muito bem o que seria, sabíamos que ia desembocar em alguma coisa, sabíamos que isso seria a próxima criação da Mascarenhas-Martins, mas não sabíamos o que ia ser. Só havia uma premissa: que nos encontrássemos algumas vezes para discutir o conceito de crise.

O Levi convidou-me porque somos amigos e porque lhe fui contando de um certo desalento que sinto em relação ao jornalismo, do meu desejo de dizer qualquer coisa de forma mais livre, sem limite de caracteres ou a necessidade de um título, de aspas, por aí. E isso já era uma crise.

Com o desenvolver do processo, do debate, quase como resposta ao que ia acontecendo nesses nossos encontros, fui escrevendo pequenas situações dramáticas, diálogos sem ligação, aquilo a que chamamos quadros. Não tanto directamente relacionados com crise, mais talvez as nossas crises, das pessoas que ali estavam a discutir, as embirrações, os afectos, os hábitos alimentares…sei lá, não sei bem. Era chegar a casa, muitas vezes à noite, ir para a varanda e ver o que tinha na cabeça.

O teu percurso no jornalismo ajudou nesta nova aventura?
Claro que sim. Não posso negar a importância do jornalismo na minha vida, naquilo que me fui tornando, até porque foi sobretudo pelo jornalismo que me fui aproximando do teatro. Acho que vi muito do teatro feito, sobretudo em Lisboa, nos últimos 3/4 anos, fui acompanhando processos de forma mais longa, fiz entrevistas, fui a muitos ensaios de imprensa. De certa forma foi importante até como ideia de ruptura, não quero fazer o jornalismo que vê duas cenas de um espectáculo e escreve sobre isso, às vezes ainda sou obrigado a fazê-lo, por uma questão financeira, mas não é isso que me interessa. Mas sim, foi pelo jornalismo que conheci o Levi e a Maria, foi pelo jornalismo que conheci muitas pessoas de quem hoje me considero amigo, pessoas que admiro, pessoas que fazem querer estar mais do lado do teatro e menos do lado do jornalismo.

De que nos fala o espectáculo “Até Parece”?
Bem sei que tens que fazer essa pergunta, e isto não é para me armar em chico-esperto-conceptual, mas não sei bem do que fala o espectáculo. Sei que o atravessa um mal-estar qualquer, muito actual, destas pessoas que agora tentam viver, algo que posso resumir talvez nisto: não se passa nada. Os dias passam e continua tudo na mesma, continuamos para aqui a ver se isto vai a algum sítio. Mas não vai. Acho eu. “Até Parece” fala-nos de gente que tenta trocar a desilusão pelo real, o real já não é real, é desilusão. E isso não tem que ser devastador, é o que é.

Acho que é por isso que temos gente que habita um resort de luxo na lua; gente que é viciada em leite, gente que é viciada em vinagre; temos gente que vê televendas. Mais uma vez: acho, não tenho certeza nenhuma.

Tens acompanhado o processo criativo para por de pé o espectáculo? Como tem corrido?
Sim, era como te dizia no início, estive lá sempre. Não fui a todos os ensaios, mas acho que fui à maioria. Isto não foi aquela coisa do autor que escreve e abandona os actores e a equipa, ou que nunca lá esteve. Sou o autor porque pronto, fui eu que escrevi e talvez até de uma forma insistente fui mostrando que queria escrever, mas, no fundo, sou mais um elemento da equipa, sou mais um filho da Mascarenhas-Martins (espero que eles não se importem que lhes chame pais). Mas estive lá desde sempre e as coisas foram crescendo, o concurso da DGArtes abriu e fomos imaginando coisas. O “Até Parece” é, no fundo, o primeiro de três capítulos de uma parceria que vou fazer com o Levi, onde eu escrevo e ele encena, assim como aquelas duplas artísticas, sabes?

Em 2020, esperem mais dois espectáculos com esta assinatura. Sim, o Levi quis fazer isto comigo…e agora olha, vamos em frente. Já lhe disse que a vida dele desde que me conheceu só pode ter piorado, ou seja, a cabeça dele só pode estar mais demente. Mas também acho que só assim é que se consegue chegar a um lugar interessante, a sacrificar a nossa sanidade, não acredito noutra fórmula.

Como vês o actual panorama teatral em Portugal?
Ui, pergunta com rasteira. Olha, não sei bem, sinto que há gente nova a querer fazer, a querer dizer alguma coisa e isso é bom, até porque eu também sou novo (27) e também quero dizer coisas. Acho fixe que digamos coisas, mesmo que disparatadas. E acho que os jornais e alguns (poucos) jornalistas preocupam-se em dar espaço a esta nova geração artística, parece-me que isto nem sempre foi assim.

Há gente de quem gosto muito, que preciso de ver quase como terapia, que criam espectáculos de teatro (e não só, não podemos esquecer a dança e a performance, vejo isto sempre como artes performativas e não só como teatro) muito, muito interessantes. Mas depois, não sei, acho que há gente que só repete fórmulas porque é isso que as candidaturas pedem, porque o mundo quer ver certos assuntos retratados em palco. E também acho que se está a cair numa programação de festival, que se por um lado permite aos espectadores ter contacto com artistas internacionais que de outra forma não conseguiria ver, por outro, é prejudicial para os artistas, que investem anos para depois despachar todo esse investimento em 3/4 récitas. É profundamente injusto. E só pode ser desgastante. Esta resposta podia ser interminável. Mas é melhor ficar por aqui.

O que faz falta para animar a malta?
O que faz falta.

Era giro ficar só a primeira frase como resposta, não era? Mas pronto, acho que faz falta as pessoas não serem como lhes dizem para ser. Está tudo cansado disso. Faz falta a eutanásia. Faz falta a demência. Faz falta homens que não sejam misóginos, racistas, nojentos. Faz falta espectáculos absurdos, provocatórios, transgressores, ditos imperceptíveis. Faz falta música da qual se diga “que merda é esta? Não aguento isto”. Faz falta desligarmo-nos dos circuitos comerciais, do lixo que nos entope a televisão, os serviços de streaming, os teatros, os livros. Faz falta o pensamento. E a capacidade de transformá-lo em discurso. Mas sabes o que faz mesmo falta? O fim do capitalismo. Isso é que era. Mas como pelos vistos está tudo bem, se calhar nada faz falta. Cantemos José Afonso, pelo menos.

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