Miguel Clara Vasconcelos – Entrevista

MiguelClaraVasconcelosMiguel Clara Vasconcelos, nasceu em Lisboa, em 1971. Realizador, escritor, encenador e produtor independente, concluiu recentemente o Mestrado em Estudos Cinematográficos, na Universidade da Sorbonne, em Paris. Foi premiado em concursos literários e festivais de cinema em Portugal e no estrangeiro. Entre 1994 e 2004, escreveu, encenou e produziu espectáculos de teatro e dança. Em 2005 produziu e realizou o seu primeiro filme, Documento Boxe. Paralelamente, desenvolve acções de formação artística em diferentes instituições a nível internacional, nomeadamente em Espanha, Bélgica e França.

O que é que o cinema tem, que o destingue das outras formas de arte?
O cinema tem um medium diferente das outras formas de arte. De forma resumida, começou por ser a projecção de imagens em movimento. Inicialmente numa tenda, depois passou para as salas de cinema. Mais tarde, juntou-se o som à imagem e desenvolveu-se a projecção a cores. Do mesmo modo que o cinema derivou de artes como o teatro, a pintura, ou a literatura, também terá dado origem a formas de expressão como a video-arte, a televisão ou o vídeojogo. O cinema não anula nem é anulado por nenhuma outra forma de arte, mas já não é “a última forma de expressão artística”. Tornou-se clássico. Dentro do cinema há uma turbulência constante que multiplica os géneros e transforma os meios de exibição. O cinema que me interessa é mais pessoal, menos industrial.

Quais os tipos de histórias que mais te interessa contar?
Interessa-me contar histórias através de personagens que questionam os nossos valores e a noção que temos do mundo. Essas ideias estão presentes no documentário sobre o mundo do boxe, “Documento Boxe” (2005), ou na curta-metragem sobre o teletransporte de um corpo a outro, “Universo de Mya” (2010), para dar dois exemplos extremos. Espero continuar com esse tipo de histórias nos meus próximos filmes.

O trabalho em equipa é importante para ti, ou tendes a trabalhar isolado?
O trabalho é composto de isolamento e partilha. Muitas das ideias iniciais surgem quando estou só, sobretudo quando caminho. A escrita é ainda uma etapa da criação bastante solitária, mas no momento em que opto por uma forma de expressão que envolve imagem, som, décors, deslocações, actores e formas de registo bem mais complexas do que a folha de papel, é necessário partilhar essas ideias e o trabalho torna-se colectivo. A equipa é um conjunto de pessoas criativas e o filme desenvolve-se com a capacidade e generosidade de todos. Se na guerra se regista o nome dos que nela morreram, no cinema regista-se o nome dos que o viveram. A ficha técnica não é um mero protocolo, é o reconhecimento da criação de uma obra colectiva.

Até que ponto a exposição dos festivais pode ajudar a carreira de um realizador?
Os festivais são o momento mágico do cinema contemporâneo. Do festival de cinema pode dizer-se que é a “última forma de expressão artística”! O sucesso de um filme num festival é fundamental para o percurso do filme e do realizador. Os festivais mais importantes aceitam filmes que ainda não existem. O realizador vai lá com a sua ideia, com o seu dossier do filme, à procura de apoios para o concretizar.

Por vezes dás formação. Consideras importante este aspecto de partilha de conhecimento?
O importante da partilha de conhecimento é a construção de “cultura”. Eu vou ver um filme com amigos. No final do filme, discutimos o que vimos, o que sentimos, o que pensámos. Produzimos cultura, aprendemos uns com os outros, aumentámos a nossa formação cinematográfica e no filme seguinte iremos com mais “bagagem”. O que me interessa da formação é esse processo desenvolvido de forma mais sistemática e com mais recursos, mais livros e mais equipamentos. O formador deve ser capaz de organizar esses materiais, mas sempre numa lógica de partilha.

Que perspectivas vês para um jovem realizador em 2013?
As perspectivas para um jovem realizador serão idênticas às de um jovem-qualquer-outra-coisa… A crise gera criatividade. A falta de recursos está a desencadear novos processos de produção artística e novas formas de partilha. Acredito que daí surja uma nova cultura. Os realizadores envolvidos neste processo são os que têm mais perspectivas.

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