Monstra – Entrevista

Cartaz Monstra 2014Esta semana falámos com Fernando Galrito, director artístico da Monstra, o festival de animação que decorre de 13 a 23 de Março em Lisboa.

Qual o balanço que faz dos 14 anos que levam de actividade?
Se pensarmos que em 14 anos evoluímos de 2 mil espectadores para 40 mil, de uma dúzia de sessões para o dobro diariamente, de duas ou três formações para mais de 15, mais de 500 filmes por edição…

Podemos hoje dizer que as pessoas que vêm ao festival passaram a saber mais e ver o cinema de animação de uma forma diferente. Paralelamente é bom encontrar pessoas desde crianças frequentam a MONSTRA. É bom ter reconhecimento nacional e internacional da importância do nosso trabalho. Somos, em muitos casos, os embaixadores da animação portuguesa, tanto em mostras como em formação, comentário e comunicações.
Mantemos a mesma liberdade criativa, espírito inventivo, transformador e subversivo, como convém a qualquer processo artístico. E continuamos a fazê-lo com imenso prazer.
Resumindo, tanto quantitativamente como  qualitativamente creio que o balanço é muito positivo.

Que evolução nota no público do festival?
Para além da quantidade há um público fiel, mais interessado, conhecedor e transversal.
O dialogo artístico que o festival propõe desde a sua primeira edição criou uma hábito de frequências transdisciplinares nos interesses do público do festival.
Esta diversidade faz da MONSTRA um local de encontros entre artistas de diferentes áreas, ligados por esta arte, a animação, ela própria diversa e multidisciplinar.
Há portanto uma evolução positiva em quantidade e diversidade mas também temos um mais conhecedor de uma arte que durante muito tempo foi conotada apenas com o público infantil.

Still da animação MaestroO Festival costuma ter sempre uma componente de formação. Qual o seu impacto?
O Festival nasceu num tempo em que não existiam festivais de cinema em Lisboa e praticamente não existia formação em animação no país. Assim, uma das componentes que pensámos ser muito importante – até porque nós próprios somos formadores – era a realização de workshops com grandes mestres mundiais.
Nos dias de hoje essa necessidade mantém-se a outro nível. Mais de vanguarda, de topo e de especialização. Nesse sentido continuamos apostados em propor anualmente um largo conjunto de formações e encontros com os melhores especialistas mundiais e em áreas transversais e de vanguarda.
Este ano, por exemplo, teremos um encontro sobre a imagem em movimento para além do ecrã, onde alguns especialistas mundiais vão debater o futuro da relação entre as imagens em movimento e as novas tecnologias. As novas formas de fazer arte de forma transdisciplinar, generativa. Paralelamente organizamos um atelier de animação sobre película outro de animação em desenho, mas, um olhar diferente sobre o “desenho animado”. Ou seja as artes mais recentes e as mais “clássicas”, porque elas são, todas, dependendo apenas da forma como as trabalhamos, o futuro.

Quais os destaques da programação deste ano?
A estrutura do festival assenta em quatro grandes bases:
O país convidado, a Hungria, onde destaco a retrospectiva de Ferenc Cakó, pela qualidade dos filmes, temáticas envolvidas e pela diversidade das técnicas que o mestre apresenta. As longas, nomeadamente The District (O Bairro) fantástica paródia ao típico bairro cigano de Budapeste ou as novas gerações de autores.
Na Competição, sendo difícil destacar filmes que o júri irá julgar e não querendo antecipar nada, diria que é um prazer estrear na Europa o filme do Alê Abreu O menino e o mundo, a história de um menino que procura o seu pai ou o último filme do Bil Plympton, ambos em estreia europeia. Realce ainda para Tia Hilda do Francês Jacques Remy Gired, autor já premiado na MONSTRA ou o último japonês de grande sucesso Blod C.
Nos programas especiais destaque naturalmente para a estreia nacional do último filme de Miyazaki As Asas do Vento, os 60 anos da primeira longa metragem britânica O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) de J. Halas e J. Batchelor, inspirado em Georges Orwell, os 50 anos da nossa amiga Pantera Cor de Rosa ou os 25 de Wallace and Gromitt, a dupla mais famosa da animação inglesa. Mas também a retrospectiva argentina e chinesa.
Na formação e transversalidades destaque para quatro estreias mundiais:
I-CARE-US uma obra que mistura imagens em movimento, performers e drones, a vanguarda feita em Portugal. 40-04-25-74, um filme transdisciplinar que comemora os 40 anos do 25 de Abril e os 40 anos do cubo de rubik, PASSAGES de Ilan Katin, uma obra interactiva encomendada pela MONSTRA para o cinema São Jorge e inspirada em Fernando Pessoa ou ainda, Tudo era barbas uma memória do 25 de Abril realizada por Rik e Raquel Goddar, ele que chegou em 1975 a Portugal num tempo em que todos usavam barba e faziam “revolução”.
Nas formações o workshop com o José Xavier pela diferente forma como enquadra a criação de movimentos ilusórios, A Martine Chartran em pintura animada, ou e desenho sobre película com o italiano Vincenzo Gianola.

Still da animação As Asas do VentoO país homenageado deste ano é a Hungria. Pode explicar-nos a escolha?
A escolha na Hungria em 2014 deve-se por um lado ao facto de se comemorar o centenário do primeiro filme de animação e o 30 anos sobre uma obra de arte mundial chamada Tempo Heróicos, a primeira longa metragem realizada em pintura a óleo animada.
Mas este é apenas um motivo histórico. O principal é que a Hungria foi um embrião para muitos autores que ali se iniciaram na arte da animação, mas depois partiram da sua terra natal para outros países e aí fizeram as suas carreiras e obras de grande qualidade. Lembro-me de John Halas (que vamos homenagear), Peter Foldes, o primeiro grande experimentador da animação digital, no Canadá ou Jean Image,  Berthold Bartosh, Georges Pal, entre muitos outros.
Mas a qualidade não desceu, pois a Hungria manteve no seu seio outros grandes mestres como Ferenc Rófusz (Óscar), Ferenk Cakó (Palma de ouro em Cannes e Urso de Ouro em Berlim), Marcell Jankovics, Istvan Orosz, Csaba Varga, György Kovasznai entre muitos outros.
A nova geração mantém a animação húngara nos grandes ecrãs da animação mundial. Jovens autores como Geza Tóth, Áron Gauder, Adám Magyar, Peter Vaz entre muitos outros, consolidam a tradição de grandes mestres na animação húngara e que estarão entre nós entre 13 e 23 de Março,  na MONSTRA 2014.

800_Ab-OvoQual o papel que a Monstrinha tem no Festival?
A MONSTRINHA tem um papel fundamental no festival. Ela é o espaço por excelência da criação e apresentação da diversidade junto dos públicos infantis e familiares. Apresenta obras de grande qualidade, alternativas aos ecrãs mais normais – o cinema e a televisão. Cria hábitos de ver cinema diferente, em técnicas menos habituais e com temáticas mais profundas e que permitem a pais e professores “saltar” dos filmes para questões pedagógicas e artísticas com mais profundidade.
Depois é um espaço de formação de novos públicos e de maior abertura para a diferença, o que se traduz também num maior humanismo e abertura de espírito não apenas para o cinema mas para as artes e para a vida.
A outro nível, pensamos ser também importante para a “formação” dos formadores, pois esta diversidade permite-lhes também ter matérias mais diversificadas de trabalho.
Por último as oficinas que realizamos – durante o festival e durante o ano – para crianças, jovens, pais e filhos e professores, completam este objectivo de mostrar e formar através do cinema de animação que, para além de uma arte do foro dos sentidos e da sensibilidade, é, e muito, uma arte pedagógica.

Como vê o estado da animação em Portugal?
O cinema de animação português, é bom referir, é considerado um dos melhores do mundo. Não pela quantidade, mas pela qualidade, diversidade e originalidade.
É portanto com tristeza que vemos a arte que mais prémios trouxe para as artes portuguesas e que leva o nome do país além fronteiras como sinónimo de qualidade e capacidade inventiva e de criação, esteja a passar por tempos tão caóticos. A indefinição e falta de apoio dos últimos dois anos levou ao encerramento de produtoras e à não apresentação ou finalização de novas obras. Esperemos que o novo regulamento possa trazer ritmo e apoios mínimos para se continuar o trabalho de qualidade que nos habituaram.

Mais informações em http://monstrafestival.com/

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