Nuno Correia Pinto – Entrevista

Hoje conversamos com Nuno Correia Pinto, Diretor Artístico da Associação Cultural Chão de Oliva. Falou-se sobre a edição de inverno do Festival Periferias. Nesta estação o festival celebra as várias correntes artísticas que marcam o festival de artes performativas desde 2011, dando palco a artistas emergentes da região de Sintra.

Fala-nos um pouco das origens e percurso do Chão de Oliva
O Chão de Oliva – Centro de Difusão Cultural em Sintra – foi fundado em 1987, sendo desde aí uma associação cultural sem fins lucrativos e mais tarde passou a ter estatuto de Utilidade Publica. Passamos por vários espaços, mas desde 1999 que temos a sua sede localizada na Casa de Teatro de Sintra.

Desde o ano da sua fundação que temos por base três eixos centrais de trabalho: Criação Teatral, Programação Cultural e Serviço Educativo, pelo que temos vindo a promover vários projetos artísticos nesse sentido, ao longo dos anos, sempre com o objetivo de aproximar a Associação e a arte dos sintrenses.

Posteriormente, em 1990, criámos a Companhia de Teatro de Sintra, e em 1994 o grupo de marionetas Fio d’ Azeite, duas companhias pertencentes ao Chão de Oliva, de cariz profissional, que vieram juntar valor acrescentado ao trabalho realizado pelo grupo amador – Teatro da Meia-Lua -, que suportava o trabalho de criação teatral até então, promovendo diversas produções e festivais. Em 2012, devido à crise e à impossibilidade de manter os vários festivais que tínhamos ao longo do ano, criámos o Periferias, o festival de Artes Performativas que reúne todos esses festivais num só, com a missão levar a cultura de artistas emergentes, e não só, à população de Sintra, que este ano comemora a sua décima edição, algo que tanto nos orgulha.

Além desta vertente de criação, desde o início do Chão de Oliva que um dos nossos objetivos é também estar atentos e próximos da sociedade e daquilo que pensa e sente e, nesse sentido, no decorrer da nossa existência, temos mantido a oferta de cursos de iniciação teatral e workshops abertos a profissionais e não profissionais. Nos últimos anos, temos também consolidado o serviço educativo com outros projetos comunitários e de arte participativa, trabalhando deste modo várias expressões culturas, sempre em relação com a arte e as pessoas, através até do teatro documental.

Temos também como foco o trabalho e talento de artistas emergentes, apoiando as várias dimensões de produção, criação e acolhimento destes artistas, bem como colocando a Casa de Teatro de Sintra como o palco em que podem levar o seu talento ao público.

Que balanço se consegue fazer de 10 edições do Festival Periferias?
O festival surgiu para ser um espaço de valorização e apresentação das Artes Performativas das “regiões periféricas” e das “periferias”, sendo um motor de atração de novos públicos e de criação de novas centralidades no território, neste caso, Sintra. Em 10 edições, este objetivo foi cumprido, pelo que só temos de considerar o balanço do Periferias muito positivo.

São agora dez edições a levar muita alegria e boa disposição ao público, cruzando sempre o talento de artistas emergentes e consagrados não esquecendo os sintrenses. Nesse sentido, desde a primeira edição que temos o objetivo de dar palco a estes artistas e levar a sua arte às ruas, aos vários espaços e lugares de Sintra, procurando incentivar o seu desenvolvimento e crescimento, algo que tem vindo a ser conseguido.

Mesmo em períodos mais desafiantes, como o que vivemos atualmente, o Festival conseguiu reinventar-se e manter-se ativo. No ano em que celebramos a décima edição, decidimos levar o Periferias às quatro estações, com uma edição de Primavera, Verão, Outono e agora Inverno, adaptando-nos ao avanço da pandemia e contornando um período tão difícil para o setor da Cultura.

Fala-nos do ano de celebrações que acontece em 2021
Em 2021, de forma a continuar a celebrar junto do público a décima edição do Festival e a levar a cultura de artistas emergentes a todos, criámos o Periferias quatro estações, desdobrando a iniciativa em quatro momentos, que se foram adaptando às diferentes fases da pandemia, de forma a garantir sempre a segurança de todos os que nos visitam.

Na Primavera, num período onde o país ainda estava a aplicar muitas das medidas de contenção, o festival foi realizado totalmente online e levámos poesia, teatro, música e espetáculos para crianças e adultos à casa das pessoas.

No Verão, tivemos a possibilidade de ter as pessoas a assistir a espetáculos de música ao ar livre e no Outono, altura onde tivemos mais público, levámos dança e marionetas aos vários palcos de Sintra, desde locais históricos a freguesias mais pequenas, continuando assim a cumprir um dos principais objetivos do Periferias desde que foi criado, a descentralização.

Neste último momento de celebração, a edição de Inverno será uma espécie de homenagem a cada uma das artes performativas, reunindo teatro, performance, dança, marionetas e música. Será ainda lançado um livro sobre as 10 edições do Festival e as Conversas Periféricas estarão de regresso, onde serão convidados diferentes artistas para falar com o público sobre temas relacionados com o mundo das artes.

Que preocupações estão presentes ao compor a programação de um festival?
Para compor a programação do Periferias, em cada edição, temos como prioridade criar um Festival repleto de espetáculos com temáticas e abordagens diferentes, de forma a chegarmos ao máximo de pessoas possível, desde miúdos a graúdos. O mais importante é que cada espetáculo traga alegria e celebração a quem os assiste, mas que todos em conjunto criem dias únicos e que coloquem no centro diferentes artes e artistas emergentes, que encontram no Periferias um palco para se expressarem.

Sendo esta a décima edição, temos já mesmo artistas que agora regressam ao nosso Festival, tendo sido o Periferias como um ponto de partida da sua carreira, algo que não nos podia deixar mais orgulhosos.

Além de uma programação irreverente, bem como diversificada, organizar o Periferias no momento de incerteza como este traz a preocupação de garantir a segurança dos espectadores que ao longo de todos estes anos nos têm apoiado. Para isso, definimos, logo no início, uma estratégia concreta, para que pudéssemos ir ao encontro daquilo em que acreditamos, tendo sempre em mente que para nós o que não pode faltar num espetáculo é o público e ao vivo.
Desta forma, durante todos os dias do Festival serão cumpridas todas as normas de higiene e segurança impostas pela Direção-Geral de Saúde, para que todos os visitantes estejam confortáveis e seguros.

Quais os temas presentes na edição de Inverno 2021?
Esta edição de Inverno, ao juntar várias artes e artistas, aborda temáticas diferentes ao longo dos dias.

No dia 17, data de começo do festival, às 21h30, teremos a performance do grupo Art’Imagem, natural do Porto, com o espetáculo “Desastre Nu”. Aqui, através do Teatro do Absurdo, o principal tema abordado é a falta de sentido da própria condição humana, juntando até elementos cómicos e discursos trágicos.

No dia seguinte, 18 de dezembro, às 16h00, o grupo Valdevinos, com o “Teatro Dom Roberto” apresentará na rua pedonal Estefânia uma produção capaz de divertir miúdos e graúdos, que aborda desde gigantes, monstros e até princesas. A mesma produção volta às 11h00 do dia 19. A 18 de dezembro, na Casa de Teatro de Sintra, o grupo A Bruxa Teatro, de Évora, apresenta o espetáculo “E que fazer com o Violoncelo?”. Também através da música, aqui aborda-se o bom senso, o medo do outro, a arte e até o lugar dos artistas.

No dia 19, às 16h30, a companhia “Truta no Buraco”, levará ao palco da Casa de Teatro de Sintra a produção “Eles passarão, tu passarinho – Uma História Política das Aves”, onde a política tem as aves como pano de fundo.

Dia 20 o Festival contará com a performance de Lukanu Mpasi, com “Influências”, às 21h30, que fala precisamente sobre a influência do hip hop, kuduro na vida jovens dos anos 2000, criando relação com a cultura hip-hop, pop dos dias de hoje e tendo como pano de fundo a vida na periferia e em família.

Por fim, no dia 21, o Festival será encerrado com o lançamento do livro “Periferias -10 anos”, e com as Conversas Periféricas, que estão de regresso este ano, ambos na Casa de Teatro de Sintra, às 21h30.

Queres fazer alguns destaques da programação?
Considero que todos os espetáculos no Periferias são únicos à sua maneira. No entanto, entre a programação dos dias 17 a 21 de dezembro, posso destacar a coprodução com o Lukanu Mpasi, com o nome de “Influências”, que se apresenta no dia 20 de dezembro, às 21h30, na Casa de Teatro de Sintra. Desafiámos este bailarino, performer e videografo a produzir um espetáculo ao qual depois pudesse dar continuidade e daí nasce o “Influências”, que surgiu através de outro projeto que realizámos em conjunto e onde achámos que o Lukanu tinha todo o potencial para o incentivarmos a fazer algo mais, e quem sabe, dar o salto para chegar mais além.

Este espetáculo, que agora se apresenta no Festival, é recheado de poesia, movimento e dança e revela, devido a toda a sua história, mais uma vez, um dos objetivos do Periferias desde que foi criado: incentivar e desafiar artistas a ir mais longe, para que possam desenvolver a sua arte.

A que eventos paralelos vamos poder assistir?
Além das diferentes apresentações artísticas, teremos no Periferias Inverno o lançamento do livro que retrata as 10 edições do Festival, dia 21 de dezembro, às 21h30, na Casa de Teatro de Sintra, seguido das Conversas Periféricas, com a temática “Arte Periférica?”, onde convidados muito especiais que acompanharam ao longo do tempo a missão partilhada de dar visibilidade às práticas artísticas das periferias geográficas e artísticas, dentro e fora do território sintrense, se juntarão numa tertúlia.

Por fim, convidaremos a todos que visitem a “Linha Imaginária” no MU.SA- Museu das Artes de Sintra, uma exposição que reúne criações de mais de uma dezena de artistas das várias periferias urbanas e que representa as suas vivências ao longo do tempo.

Peço-te um desejo para as Artes, para os tempos mais próximos
Pensando no próximo ano que se aproxima, o principal desejo que tenho, nomeadamente no campo da cultura e artes, é que estas possam regressar em segurança ao seu formato original, sendo celebradas no seu local próprio e em comunhão com o público, levando-lhe o melhor de cada artista.
Desejo um setor da Cultura cada vez mais valorizado, que possa levar aos espectadores produções com a maior segurança possível, através de medidas que possam ser viáveis para todos, quer para os artistas, quer para o público, de forma que a cultura continue a fazer o seu papel junto de todos nós, algo que considero imprescindível.

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