Nuno Pereira – Entrevista

O LAC – Laboratório de Actividades Criativas foi criado em Lagos, no Algarve, há mais de duas décadas. Conversámos com Nuno Pereira, Presidente da Direcção da Associação que o gere. Fez-se um balanço dos últimos anos, falou-se das várias valências do LAC (residências, formação, internacional), e também do panorama cultural no Algarve.

Que balanço fazes da actividade do LAC nestas mais de duas décadas de existência?
Faço parte da direção da associação há cerca de 10 anos, mas anteriormente já acompanhava de perto a actividade do LAC, desde o início da constituição da associação. Penso que a actividade do LAC evoluiu de uma forma natural, passo a passo, lentamente como a normal evolução de qualquer associação: realizando inicialmente actividades de uma forma mais esporádica e evoluindo para uma programação mais frequente e, muito consistente nos últimos anos. Esta evolução deveu-se em muito ao facto da associação poder usufruir de diferentes espaços físicos, desde logo o próprio edifício sede do LAC (Antiga Cadeia de Lagos) que sempre funcionou como espaço de trabalho, onde as celas foram transformadas em ateliers de trabalho e mais recentemente o Edifício LAR, localizado no centro da cidade que integra a Galeria que acolhe exposições, promove encontros informais e outras actividades das mais variadíssimas áreas bem como pequenos concertos, isto a par do LAR – espaço para alojamento dos artistas em residência na tipologia dos projectos de curta duração. Todos estes espaços foram cedidos pela Câmara de Lagos, mediante acordos em função dos planos de atividade apresentados e realizados. A par disso, temos conseguido optimizar os apoios financeiros que recebemos ao longo dos anos, quer por parte do Município de Lagos, quer através da formalização de contratos de apoio a actividades pontuais e por outro ser possível obter um apoio/financiamento sustentado por parte do governo central, que nos permitiu desenvolver uma atuação mais consolidada junto dos diversos públicos. Ao longo da nossa existência,  temos realizado inúmeras atividades de caracter experimental – não comercial, que se inserem em 4 grandes eixos: Residências Artísticas, Exposições, Concertos e Workshops nos domínios Criação, Programação, Circulação nacional, Internacionalização, Desenvolvimento de públicos, Edição e Formação nas áreas artísticas das Artes Visuais (Artes Plásticas, Fotografia, Novos Medias) e das Artes Performativas (Música, Dança e Artes de Rua).

Na verdade, as actividades de caracter mais geral, acabam por desdobrar-se na realização em centenas de actividades/eventos anualmente, acolhendo igualmente dezenas de artistas ao longo do ano.

Por tudo isto, creio que tem sido um balanço bastante positivo.

Como foi “habitarem” um espaço que já foi uma cadeia, mas também um convento?
O facto de “habitar” um espaço que mantem actualmente as características de uma cadeia tem em si uma espécie de aura mística de onde decorre uma interessante dicotomia entre prisão/reclusão vs. espaço de liberdade /criatividade. Esta “áurea” que é muito apelativa para a criação artística, teve inicialmente o seu lado subversivo na medida em que a comunidade local não se sentia muito atraída pelo que se passava “na cadeia”. Felizmente essa barreira foi sendo quebrada através de uma proximidade que fomos estabelecendo ao longo dos anos, em muito baseada numa programação eclética que longo do tempo chamou e continua a chamar ao espaço, vários nichos de públicos com os seus variados interesses.

Em relação ao convento pouco já resta da sua arquitectura original, no entanto ainda podemos observar alguns elementos característicos junto ao edifício como por ex. o que resta de uma das fachadas com janelas ou uma das chaminés do convento. O edifício do LAC é portanto, um edificado histórico, que faz parte integrante da cidade de Lagos.

Neste momento estamos a recolher informação acerca de toda a história acerca das várias ocupações e funcionalidades que o edifício teve ao longo dos tempos. Toda essa informação irá materializar-se numa exposição, cujo formato e curadoria estão a ser pensados, mas que com certeza será mais um ponto positivo de conhecimento e (re) ligação a oferecer à cidade.

De que formas é dinamizado o vosso espaço?
Os espaços (LAC e Galeria LAR) são dinamizados atualmente pela equipe da associação. Inicialmente houve uma forte componente de voluntariado onde concebíamos e desenvolvíamos as actividades de acordo com o interesse na área técnica de cada um dos elementos da direcção que é multidisciplinar, o que torna interessante a dinâmica da associação sob o ponto de vista estético na medida em que as várias actividades/projectos são analisados e vistos de diferentes perspetivas. Este voluntariado, no fundo, permitiu, por um lado, entender melhor esta dinâmica e por outro a consolidar a oferta de actividades no panorama cultural da cidade e da região.

O apoio/financiamento por parte do governo central (Ministério da Cultura através da DGArtes), também foi decisivo para a estruturação profissional da actividade do LAC. No fundo temos vindo a ser 3 pessoas, e apesar de termos responsabilidades nas várias áreas técnicas (Gestão administrativa e financeira, Programação, Produção, Comunicação, etc) fazemos de tudo um pouco, o que é normal dentro da base associativa. As actividades são concebidas na maior parte das vezes em conjunto com os vários artistas contando também algumas vezes com a precisosa ajuda de voluntários. Também recebemos propostas para acolhimento de actividades que depois são articuladas com a nossa programação.

Como funciona o vosso Programa de Residências Artísticas e quem se pode candidatar?
Existem duas tipologias principais no âmbito do PRALAC. Programa de Residências Artísticas do LAC: Projectos anuais; que são dirigidos aos artistas locais com duração, tal como o nome indica, de um ano e os Projectos de curta duração, dirigidos aos artistas de âmbito regional, nacional e internacional que pretendam desenvolver os seus projectos até 3 meses.

Com este Programa pretende-se criar um espaço de encontro que contribua para a troca de conhecimento de experiência, e que contribua para a circulação dos artistas.

Em ambas as tipologias é cedido um espaço de trabalho e na medida dos possíveis, prestado apoio técnico e é cedido material técnico que a associação dispõe.

No caso dos projectos de curta duração há ainda a possibilidade dos artistas ficarem alojados no LAR, uma espécie da hostel localizado no centro histórico da cidade.

O PRALAC funciona assim através da apresentação de candidaturas onde todos os artistas poderão apresentar as suas propostas que depois serão analisadas e validadas pela direcção do LAC.

Fala-nos um pouco da vossa componente de formação.
A componente de formação surge como uma necessidade sentida por parte dos artistas e interessados no geral, e tem assumido um papel importante na actividade da associação na medida em que fomentamos a educação não formal através de realização de workshops técnicos de curta duração, de caracter experimental. Com estas estas formações pretendemos fomentar o aperfeiçoamento técnico nas mais variadíssimas áreas artísticas.

Qual a importância da vossa actividade internacional?
A actividade internacional é importante na medida em que dá a conhecer a actividade da associação permitindo estabelecer novas parcerias de uma abrangência mais alargada com entidades congéneres do LAC e permite igualmente a circulação e a afirmação/promoção dos artistas além-fronteiras.

Em relação a projectos desenvolvidos tem 2 deles que têm um caracter mais internacional são eles o ARTURb, um projecto que recentemente teve a sua 9º edição, dedicado á arte urbana, onde já trouxemos à cidade de Lagos aprox. 50 artistas de renome internacional contando já com dezenas de obras públicas pelas ruas da cidade e o ROOTS, um projecto que já contou com 4 edições, aborda a escravatura clássica e contemporânea contando com a participação de artistas de países que têm ou já passaram por este processo. Tivemos a oportunidade de “transportar” este projeto no âmbito da cooperação internacional, para países tão distantes como seja o caso de S. Tomé e Principe, na cidade de S. Tomé e Moçambique, na cidade de Maputo contanto igualmente com a participação de artistas oriundos destes países.

Que desafios se vos apresentam por estarem fora dos grandes centros urbanos?
De facto a nossa afirmação tem tido um foco redobrado na medida em que a nossa região é, em si mesma, periférica, contudo, e tendo em conta a programação que desenvolvemos, sentimos o eco dos grandes centros urbanos face à nossa actividade.

O principal desafio é sempre a manutenção e a sustentabilidade da atividade, sendo certo e de senso muito comum que a cultura não gera recursos só os deve gerir, o que em minha opinião é uma visão redutora, na verdade o que acontece é que os recursos a nível local, regional e nacional são sempre escassos e nunca suficientes. Importa olhar para a cultura e para as atividades artísticas como pilares essenciais ao desenvolvimento das comunidades e sociedades, o que parece estar ainda longe de vir a acontecer.

Neste momento enfrentamos por isto mais um derradeiro desafio, que decorre da falta apoio/financiamento que não obtivemos por parte do Governo Central (Ministério da Cultura através da DGArtes), onde ficamos a “uma unha negra” de obter financiamento. Esta recente situação está a fazer com que nos foquemos em conjunto com a Câmara Municipal de Lagos noutras soluções que irão permitir a médio/longo prazo a sustentabilidade da atividade do LAC.

Como vês o panorama cultural da região do Algarve?
Sinto que o panorama cultural no Algarve evolui ao nível da programação nomeadamente com as recentes edições do 365 Algarve, que contribuiu de alguma uma forma para estruturar a oferta cultural nos meses da chamada época baixa, no entanto, ainda sinto que há muito por fazer no sentido da concertação da actividade dos agentes culturais da Região de modo a esbater a separação natural e geográfica das sub regiões Barlavento e Sotavento que poderá por passar, por exemplo, por estabelecer ou criar programas de apoio que apoiem esta troca de experiência ou que fomentem e que se valorize as actividade conjuntas e/ou em parceria.

Por outro lado, sinto que as constantes políticas de apoio por parte do governo central não têm abonado a favor das regiões periféricas no sentido em que deveria ser promovido uma equidade regional em termos de financiamento mínimo para as estruturas que trabalham nestes territórios.

Mais sobre o LAC em http://www.lac.org.pt/

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