O álcool, suponho

Por Rui Zink

Nem se sabe como começou a discussão. O álcool, suponho. Mas o álcool não explica tudo. Nunca vi um bêbado meter-se com alguém do seu tamanho. Bêbados, mas não parvos. E, mesmo quando a fúria os cega ao ponto de irem a casa buscar uma caçadeira, o que me espanta sempre é como não vomitaram pelo caminho, como não ficaram a ressonar na beira da estrada, onde curariam a bebedeira até lhes passar a telha, e assim se salvariam vidas. Sim, porque quando um bêbedo com os azeites e mau vinho vai a casa depois de dizer «Eu já te mostro como elas são» desgraças acontecem. Desgraças? Tragédias. Tragédias acontecem. Depois vem a Guarda, com a calma possível, mais calma do que seria recomendado pelo alerta dado, mas a calma necessária, que os guardas também são gente e, como gente que são, também têm cu, e quem tem cu tem medo, lá vem a Guarda averiguar o sucedido. Aí as hipóteses são três: ou o magano fugiu, ou o magano deu, a seguir, um tiro nos próprios cornos, ou o magano fica. Quando fogem é uma chatice. Há que organizar buscas, lançar um alerta, montar barreiras nas estradas, provavelmente inúteis porque o mariola conhece a zona como ninguém, tem amigos e família espalhados por todo o lado, e conhece melhor os cantos à casa do que os guardas, que na maior parte das vezes nem são dali, uma regra inventada há muito pelas chefias para evitar confusões, e não conseguiriam encontrar sequer a tenda da Tia Jacinta, quanto mais hortas e atalhos e covas e vales. Esconderijos muitos, se ao bêbedo, por uma discussão fútil, de cujos pormenores já nem se lembra, der para tentar fugir à justiça. Com sorte, entrega-se ao fim de um par de dias, esfomeado, arrependido e acreditando na clemência dos tribunais, tendo em conta que não estava em posse das suas inteiras faculdades quando despachou o outro para fora deste mundo. Ou então, que esta gente pode ser ignorante mas é matreira, pode nem estar nada arrependido, pode até estar bem satisfeitinho consigo mesmo por o outro já não estar por cá, ufano de respirar o ar mais uns dias do que o outro (que é uma vitória estar vivo e é a maior das derrotas estar morto) – eu posso adormecer no calabouço mas àquele já ninguém o acorda –, e confiante na leniência da Justiça – isto agora são todos umas meninas, a nova política é o humanismo, a clemência laico-cristã para quem pecou, mesmo que tenha pecado muito, mesmo que tenha cometido o maior dos pecados; era o que faltava não aproveitar estas marico-modernices, eh, eh, eh, chamem-me parvo… Não, chamem-me assassino, se quiserem, mas não parvo, que aí ofendo-me.

Rui Zink (Lisboa, 1961)
Escritor e professor. Autor, entre outros, de Apocalipse Nau (1996) e A Instalação do Medo (2012). Livros mais recentes: Manual do Bom Fascista e O avô tem uma borracha na cabeça.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.