o amor tem os dias recortados

Por Ondjaki

(…) o homem colava as letras e depois de recortadas

arrumava-as num pequeno espaço aberto e, aos poucos, via surgir de novo, como que renascidas, as palavras em juras de amor, ditas com inocência e candura (como se dessa fórmula dependesse o sucesso do condenado-amor atravessado pela tempestade dos anos e da costumice)

o homem ia colando as letras

e delas se esquecia de seguida, num prazer de círculos curtos: quanto mais escrevia e recortava, mais esquecia;

depois de acumulada a colagem, ali ele descobria o todo de uma carta: o corpo de um poema; a última ponte de uma bela declaração de amor; o início de uma forte notícia a ser dada com clareza e incisão; o prazer descritivo de alguém que deambulasse por um labiríntico jardim onde se somavam às cores os tons de cinza.

tudo isto pensava o homem enquanto sentado a um canto via, com espanto e encantamento, os primeiros momentos do sol invadirem a poeira em voo, o som nenhum, a delicada novidade sonora: uma espécie de não-azul

(…)

no homem germinava esse espanto que era um acúmulo de simples força: uma espessa e antiga mesmice: o mundo-igual, o mesmo-mundo afinal revelava-se outra-vez-e-sempre

como mundo novo: caótico, sedutor e surpreendente.

ondjaki (luanda/angola). escreve para contar, e às vezes sonha poemas.
gosta de lesmas, borboletas e do sal dos sonhos.

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