O benefício dá dúvida

Por Keli Freitas

Não sei por que a coisa foi assim, mas foi assim: eu era uma criança com muita vergonha de perguntar. Intuía que a falta de certezas era algo muito malvisto, e me apavorava a ideia de que o mundo suspeitasse da vastidão de coisas que eu não era minimamente capaz de compreender. Morria com a dúvida mas não perguntava, e passava o tempo a tentar montar um quebra-cabeças confuso, sem saber bem qual desenho deveria ter.

Isto se dava principalmente com o significado das palavras.

Dentro desse sistema de aprendizado questionável e solitário em que me agarrei, houve duas palavras com que passei especial dificuldade. Eram elas: educação e cultura.

Sempre que eu achava que finalmente tinha entendido o que significavam, logo era confrontada com a insuficiência da minha explicação, e tinha de reorganizar as peças todas de novo.

Por exemplo.

Meu primeiro entendimento do que seria educação vinha de casa, mais precisamente das refeições. Arrotar à mesa: falta de educação. Comer de boca aberta: falta de educação. Lamber do prato o resto de comida que não consigo pegar com a colher: falta de educação. Fixei, portanto, que educação nada mais era do que comportar-me à mesa sem aborrecer a minha mãe.

Segunda compreensão de educação: a maneira como nos portamos quando vamos à casa dos outros. Abrir o frigorífico na casa dos outros: falta de educação. Esparramar-se no sofá na casa dos outros: falta de educação. Usar as coisas dos outros sem permissão: falta de educação. O espectro do significado de educação ia aos poucos se alargando, mas era mau: parecia sempre ter algo a ver com não poder agir como entendia em determinadas situações partilhadas.

Quando, no jornal e na televisão, falavam dos problemas do país devido à falta de investimento na educação, não percebia como é que um país podia ir tão mal só porque as pessoas não sabiam usar os talheres.

Só bem depois é que veio agrupar-se a terceira peça possível no meu desenho de educação: afinal, entendi que também tinha a ver com as coisas da escola. Aula de matemática também era educação. Aula de história também era educação. Aula de língua portuguesa também era educação. Mas nem todas as crianças como eu podiam ter aulas dessas coisas. Não entendi. Oferecer o que se tem aos outros não era um dos princípios básicos da boa educação?

Com a palavra cultura foi a mesma odisseia, mas pior. Nem vale a pena dizer que eu achava que o Ministério da Cultura era uma polícia com permissão para atacar a casa de quem tirasse nota baixa. (Mas também podia ser que um ministério fosse um mistério em miniatura.)

De todas as incompreensões sobre o que seria ou não cultura, uma estranha certeza estava sempre lá: é uma coisa que não é para toda a gente.

Pensar nisso hoje é ainda assustador: um erro tão evidente na gestão política de uma palavra que até eu, no meu silêncio ignorante, consegui perceber.

Não sei dizer se perdi mais ou ganhei mais com a minha vergonha de perguntar. Sigo colecionando peças de muitos quebra-cabeças.

É preciso saber o que as palavras são para melhor poder defendê-las.

Os mistérios em miniatura, muitas vezes, não colaboram.

Keli Freitas (1983, Brasil) é criadora, dramaturga e actriz.
Graduada em Letras pela PUC-Rio e mestranda em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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