O festim

Por Inês Lampreia

Sabíamos o que andávamos a fazer. Bastava ser um pouco astuto para perceber que detínhamos um poder, diría, incontrolável. A questão que prevalecia, lembrando as palavras do escritor Jean de La Bruyère, é que as melhores ações perdem efeito pela forma como são executadas.

Os conteúdos que produzíamos surgiam numa prática contínua, na qual éramos nós próprios criadores, reflexo e representação. Sem dúvida de que informávamos, possibilitávamos experiências coletivas de saber, e fazíamo-lo com a voracidade de quem tem um dever – o dever de educar, de informar, de criar opinião pública.

Encontrávamo-nos no espaço de ligação entre o público e os grupos de interesse e forças sociais – eramos os mediadores.

Havia maior compromisso e poder do que esse? Ser o “terceiro elemento” de uma tríade com capacidade de estar em relação com o todo? Produzíamos informação em série e utilizávamos uma fórmula para um mercado.

Os jornais, os telejornais e a sua parafernália de conteúdos contribuíam para a rotina da dinâmica social, estabilizando-a em acontecimentos.

Observava a redação, sempre agitada, e pensava para comigo – faço parte do festim. Que melhor banquete para os média do que uma pandemia?

Na década de setenta, Toru Iwatani, um entusiasta dos vídeo-jogos, durante um jantar com amigos teve uma ideia genial. Em cima da mesa estava uma grande pizza, sem uma das fatias. Observando a pizza, Toru Iwatani viu uma cabeça de boca aberta, imagem que fazia lembrar a personagem popular japonesa, Paku, conhecida pelo seu devorador apetite. Desse momento, surgiu mais tarde, o jogo Pac-Man, que marcou a vida das gerações dos anos 80, do século XX. No jogo, os jogadores controlam o Pac-Man, um boneco que consiste em apenas uma cabeça redonda amarela com uma boca que se move num labirinto cheio de bolas. O objetivo é que o Pac-Man coma todas as bolas que se encontram espalhadas no labirinto, enquanto evita quatro fantasmas (os Galaxians), ‘blinky’, ‘pinky’, ‘inky’ e ‘clyde’, que escapam de uma prisão.

Sentia-me um autêntico pac-man. Dava por mim a pensar que os factos já não existiam em si mesmos – eram apenas a forma como os re-contextualizávamos nos média e não as ocorrências do “real”.

Tínhamos um acontecimento que era objeto de hipermediatização, disruptivo, mundial, e impregnado de significações múltiplas. “Melhor, só uma guerra!” ouvia, por vezes, na redação…

Era inevitável que relatássemos os acontecimentos produzindo-os a partir de uma matriz ideológica, tornando-nos construtores de consensos. Se era verdade que tínhamos um papel educativo, também contribuíamos para um conformismo; estabelecíamos noções de bom ou de mau comportamento, fornecíamos respostas e explicações sobre a pandemia, através de narrativas, recorrendo à esteticização da linguagem para enriquecer as ‘estórias’. Transformávamos a pandemia numa espécie de novela, e não uma novela qualquer, uma novela inflamada de números e do tão essencial mecanismo mítico da dualidade – sim/não, bom/mau. Não é esse o fermento dos mitos e das histórias de encantar?

O foco estava sempre nos novos números, na urgência de responder à concorrência.

Eram poucos os privilegiados que iriam descobrir as agulhas no palheiro e, talvez, lá para o fim da maratona pandémica trouxessem as suas extensas investigações revelando as ‘estórias’ por detrás da história.  Mudanças lentas e constantes não recebiam a mesma atenção dos editores. Era necessário manter a agenda.

Mais do que a Direção Geral da Saúde, mais do que o Governo e as suas diretrizes de segurança, eramos nós que manipulávamos a palavra. De certa forma andávamos todos animados com o nosso grande dever, e não dávamos conta de que contribuíamos para o empobrecimento moral da sociedade.

E quando já não sabíamos o que fazer com os dados estatísticos… eis que surge a vacina. O festim continuou! Criávamos espectativas, promovíamos o futuro e aquilo que estava por vir.  Éramos fazedores de mitos, dando resposta à ansiedade produzida pelas incertezas, aquilo a que Blumenberg chamava de “absolutismo da realidade” – as explicações gerais e globalizantes oferecidas por narrativas míticas. Afinal de contas, não é função própria do mito superar a estranheza do mundo?

Recordava os textos de Roland Barthes, lidos à pressa na faculdade, sobre o mito como uma fala “roubada”. As narrativas míticas contêm em si uma forma de escamotear outras narrativas. Esta, do risco pandémico, era criada por nós como um discurso dicotómico, capaz de manter o tema ao nível do imaginário coletivo, perpetuando a indefinição social.

Quando recebi o email do João, um amigo sempre atento, caiu sobre mim a consciência atroz de que fazia parte desta máquina. O email continha apenas o link para o artigo Listening to the silence and reporting back que invocava a necessidade de o jornalismo providenciar transparência e voltar a escutar. Cogitei: nas redações aceleradas ouvimos muito, mas escutamos pouco.

Como sair do labirinto do Pac-man, que me surgia agora como uma alegoria para a realidade jornalística? Um jogo incontrariável.

Foto por Viktor Talashuk

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