O lugar dela

Por Fernanda Mira Barros

Imagine o leitor o seguinte: nasceu mulher, mas é no meio dos homens que se sente melhor porque os homens têm acesso a coisas a que, nesse tempo em que você nasceu, as mulheres não têm acesso. Mesmo tendo nascido privilegiadas. Portanto, você é uma mulher privilegiada, nascida na burguesia, jovem, e nesse tempo. De si esperam que se case, e que não deixe passar muito tempo porque há um tempo certo para uma mulher se casar: nova, deve casar-se nova, de si esperam que se case nova. E bem, deve casar-se bem, dentro ou talvez até um pouco acima da sua classe; de si esperam que se case bem. E esperam que, tal como deveu ao seu pai a sua vida, passe a ser, pelo casamento, devedora do seu marido. De si esperam que tenha as opiniões do seu marido ou, melhor ainda, que não manifeste opiniões. Esperam também que seja mãe e que se dedique às tarefas de esposa e mãe exemplares. Não deve sair muito, a casa deve ser o seu refúgio, o seu ninho, a sua segurança. Você deve gostar de segurança.

Imagine também que você, essa mulher, é filha de um general. Ser filha de um general não é como ser filha, por exemplo, de um comerciante abastado. Um general representa a autoridade, e não é uma autoridade qualquer: é uma autoridade de alta patente. Não vai ser fácil você encontrar quem supere o seu pai na sua vida. Ele é a grande figura da sua vida. Claro que você teve também uma mãe mas a importância dela é relativa; você não fala nela, é como se ela não tivesse existido. No fundo, essa não-existência da sua mãe há-de significar que ela desempenhou bem o papel dado às mulheres da sua época. Você pode ter um trauma com essa mãe, não sabemos; nem você nem ninguém fala dela. Porém, sabemos como você despreza as mulheres; sabemos porque a vemos actuar com elas.

A tia do seu marido, por exemplo, essa figura maternal, abnegada, cujo destino na vida é dedicar-se aos outros, você embirra com ela; irrita-a aquele modo gentil de ser que ela tem, aquela vocação para cuidar; você deve achar que isso é comportamento de serviçal, e é por isso, não é?, que finge confundir o chapéu dela com o da criada. Maldade sua, e você sabe. Ela tinha comprado aquele chapéu com esforço e para lhe agradar.

Ou, outro exemplo, a rapariguinha de cabelos louros, sua colega de escola e que reaparece agora na sua vida, continua insuportável, não é? Outra simples, outra mulherzinha, nada que chegue aos calcanhares da filha de um general. Ela teria evitado ir a sua casa se pudesse, porque tem bem presente como você a tratava na escola; você puxava-lhe os lindos cabelos louros e ameaçava que lhos queimaria, lembra-se? Ela não se esqueceu. É a ajuda do seu marido que ela procura agora, não a sua, como se você não tivesse importância nem autoridade para a ajudar. Isso também a enerva; você vai ter de fazer alguma coisa a esse respeito.

Imagine também que, há uns anos, quando era mais jovem e muito solteira, conheceu um homem de outra classe, um poeta estereotipicamente poeta, um sonhador, culto, dado a farras, um sedutor. Um homem de quem você gostava e que você pôs a falar consigo das coisas do mundo dos homens. Foi através dele, desse ser tão fora do seu mundo de regras e obrigações e tabus, que você contactou, como uma igual, com o mundo masculino. O mundo do seu pai, mas também dos poetas, dos homens livres. Ficou fascinada, e para esse homem imaginou feitos grandiosos. Nem poderia imaginar menos: ele era uma projecção de si própria.

Imagine também, claro, que, tendo sido educada por esse pai general e nesse meio burguês, você aprendeu muito bem as normas da sociedade em que vive. Sabe o que se espera de si.

Porém, o que se espera de si não é o que você quer para si, você nunca quis isso, nunca sonhou isso, sonhou outras coisas. Mas aprendeu as normas e aplica-as. Sabe, por exemplo, que uma mulher séria não trai o marido; você é uma mulher séria, jamais trairia o seu marido; ainda assim, gosta de namoriscar e seduzir os homens, de os provocar, dentro dos limites da seriedade, claro; mas gosta. Aprendeu também que deve dar filhos ao seu marido, mesmo sendo para si de uma violência terrível, a ponto de sentir repulsa, a ideia de estar grávida. O seu marido adora-a. Para ele, ter casado consigo foi também um feito social. Alcançou casar-se com a linda e cobiçada e livre filha do general, coisa que ele nunca pensou ser possível; e superou até, casando-se consigo, as suas mais secretas ambições; está cheio de orgulho por isso e, até, grato. Você detesta perceber isso nele, e trata-o mal. Ele não entende, ninguém entende por que razão você o trata mal; só você sabe.

Ele, o seu marido, comprou para si, por sua causa, a grande casa que você queria, aquela exactamente que você queria. E não sabe, porque esta é outra daquelas coisas que só você sabe, que, naquela noite em que você afirmou desejar viver naquela casa, você disse isso por desfastio, levianamente, entediada com a conversa e o passeio com o seu futuro marido. E ele acreditou no que ouviu ser o seu desejo e esforçou-se financeiramente, ele e toda a família dele, para lhe comprarem essa casa grande e cara que, afinal, você odeia. Que a sufoca. Sufocaria, não é?, qualquer casa em que ele estivesse. Porque você casou com ele porque não teve coragem de casar com o outro, o poeta; você casou com este porque este era adequado.

E não lhe passou nem um minuto pela cabeça que o poeta boémio voltasse, sóbrio e autor de um livro extraordinário. O seu marido também escreve livros, mas é um académico e os livros que ele escreve são maçadores, sobre o passado longínquo e incompreensível, pobre. O poeta escreve livros maravilhosos, para mudar o mundo, para o futuro. Difícil, não é?, você aceitar que não teve coragem de ficar com ele. Insuportável. E pior agora que ele regressou, não só bem, e sóbrio e feito escritor e pensador excelente, mas ajudado nesse caminho pela rapariguinha dos cabelos louros que você despreza. Mais: o regresso dele põe em risco sério a promoção do seu marido, que era praticamente certa e vos daria o desafogo financeiro para a vida de festas e cavalos que ele se comprometeu a dar-lhe. Porque você não conseguiria viver sem desafogo financeiro, não é? Ou será que nunca pensou nisso, não ousou pensar nisso, nas outras possibilidades de vida?

Ele, o seu poeta, não está sozinho nem se perdeu, e isso custa aceitar. Como você, ele seguiu caminho, não sucumbiu à dor de você não o ter querido. Na verdade, ele ergueu-se e revelou ser ainda melhor do que naqueles tempos fascinantes do passado, quando você se encantou por ele, e regressou sábio e cheio de vida e com o amor de uma mulher casada mas que teve a coragem de abandonar o marido e as convenções. A coragem que você não teve, nunca terá, e cuja falta lhe vem roendo as entranhas – essa peçonha cresce e torna-se insuportável. Uma simplória, nada comparável à filha de um general, é capaz de coisas para si inconcretizáveis. Ela está assustada, mas isso não a impediu de ser corajosa e determinada. Você está segura, mas não consegue respirar.

Você tem pistolas. Duas, que lhe deu o seu pai. E sabe atirar.

Você, caro leitor, é Hedda Gabler.

Fernanda Mira Barros
(1967 – ?), editora da Livros Cotovia

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Comments

  1. Belo texto, muito obrigado Fernanda Mira Barros, Prado e Coffepaste.

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