O que devemos a Angela Davis

Por Sara Figueiredo Costa

Na capa da revista Life de 11 de Setembro de 2011, o rosto de Angela Davis era um desafio. O título «The making of a fugitive» parecia querer transformar esse desafio numa ideia algo desesperada de clandestinidade, mas o olhar daquela mulher, a cabeça emoldurada por um cabelo enorme e orgulhosamente crespo, não deixava de desafiar. Poucas semanas antes, Davis foi acusada de homicídio e envolvimento numa conspiração para libertar três prisioneiros.

Indexada na lista dos 10 Fugitivos Mais Procurados pelo FBI, a activista pelos direitos humanos e professora de filosofia na Universidade da Califórnia esteve presa durante alguns meses, dando origem a uma campanha internacional pela sua libertação. Houve recolhas de fundos para pagar as despesas do processo judicial, cartazes e manifestações em diferentes lugares dos EUA e do mundo, uma canção de John Lennon e Yoko Ono, “Angela”, a colocar no espaço público o nome da activista presa. Em 1971, o julgamento deixou clara a impossibilidade de provar qualquer envolvimento no crime e Angela Davis foi libertada e declarada inocente. Sem o desejarem, o FBI e o governo dos EUA tinham internacionalizado Angela Davis, ajudando a espalhar as suas ideias pelo mundo.

O incómodo provocado pelas intervenções públicas e pelo pensamento da autora junto das autoridades norte-americanas há muito se fazia sentir. O facto de ter integrado os Panteras Negras e de ser militante do Partido Comunista fizeram dela um alvo preferencial numa altura em que a Guerra do Vietname motivava turbulências várias na sociedade, em que a memória do McCartysmo ainda perdurava de modo vívido, em que a luta pelos direitos civis colocava o país frente a frente com os seus próprios fantasmas racistas e esclavagistas e em que a defesa de igualdade de direitos para as mulheres era uma ameaça a um status quo que se tentava desesperadamente – e sem sucesso – agarrar-se às visões de um passado onde as mulheres pertenciam ao marido, à casa, ao cuidado dos filhos e a nada mais. Talvez esse incómodo se devesse igualmente a uma visão acutilante das relações sociais, económicas e de poder. Angela Davis lutava pelos direitos dos negros, das mulheres, dos mais desfavorecidos, mas sobretudo lutava por perceber a influência mútua que as diferentes opressões exerciam sobre as pessoas, num processo que foi ganhando contornos cada vez mais intensos e clarividentes, formando uma visão do mundo que recusava a simples exigência de direitos concretos para este ou aquele grupo e punha em causa as estruturas que organizavam toda a sociedade.

Em Portugal, a Antígona acaba de publicar o livro A Liberdade É Uma Luta Constante (com tradução de Tânia Ganho), volume que reúne entrevistas e discursos de Davis proferidos nos últimos anos. Racismo e feminismo são temas transversais, mas nas suas interveções mais recentes, Davis dedica-se a denunciar a luta palestiniana pelo reconhecimento de um estado próprio (e pelo fim da ocupação), a reflectir sobre o movimento Occupy e as sementes que terá deixado para lutas futuras, a expôr os negócios e os relacionamentos pouco claros entre o sistema prisional, o racismo, a privatização da segurança e o domínio quase monopolista que uma empresa como a G4S, com prisões privadas nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, fornecimento de treino a polícias militares de vários países, imunidade mundial quanto à aplicação securitária e violenta de medidas não previstas nas constituições ou leis gerais. Há temas, argumentos e afirmações que se repetem, o que se explica pelo carácter de mosaico deste livro, juntando intervenções feitas em diferentes lugares. Apesar disso, o mais recente livro de Angela Davis é uma inquietação constante, colocando-nos perante a necessidade de questionar o modo como colectivamente vivemos. E ainda que Davis seja uma figura que imediatamente se associa aos movimentos políticos das décadas de 70 e 80 do século passado, sobretudo à luta anti-racista e pelo feminismo, o que se constata neste A Liberdade É Uma Luta Constante é actualidade do pensamento da autora, não necessariamente no sentido de assumir que aquilo que disse, escreveu e pelo qual lutou há décadas se mantém actual (essa assunção dependerá, claro, da mundividência política e ideológica de quem lê), mas no sentido de continuar a pensar sobre as lutas do presente (e a envolver-se nelas), estabelecendo nexos com o passado, mas debatendo a actualidade sem as baias de visões obsoletas ou desligadas dos motores que, hoje, impulsionam os movimentos sociais e políticos.

A leitura de A Liberdade É Uma Luta Constante ganha significados mais amplos quando se regressa a outros livros de Angela Davis, nomeadamente à sua obra mais conhecida. Mulheres, Raça e Classe também está traduzido em português, numa edição brasileira da Boitempo Editorial (tradução de Heci Regina Candiani), e foi originalmente publicado em 1981. Neste livro, a autora começa por percorrer a história da escravidão nos Estados Unidos da América, sempre convocando um contexto mais amplo – o do tráfico de pessoas escravizadas entre África, Europa e as Américas e a sua relação com os colonialismos – e traçando as raízes da opressão e da tomada de consciência que foram motivando movimentos de resistência ao longo dos séculos.

O que Angela Davis nunca faz é limitar a visão da escravidão a uma questão de racismo e de crença na superioridade das pessoas brancas. Não é que essa visão não tenha sido uma das bases do processo, mas isolá-la de todas as outras relações de poder, estruturas sociais e opressões é historicamente redutor e, para a autora, claramente um modo de não permitir questionamentos sociais mais relevantes. No capítulo intitulado «O movimento antiescravagista e a origem dos direitos das mulheres», Davis traça as influências mútuas de duas lutas por direitos humanos e, mais do que isso, defende que a sua criação está mutuamente imbricada, sendo impossível separar as origens e o desenvolvimento de cada um dos movimentos, sob pena de se perder a compreensão sobre o seu significado e alcance:  «Em 1831, ano da rebelião de Nat Turner, nasceu o movimento abolicionista organizado. O início da década foi também de greves e paralisações nas fábricas têxteis do Nordeste do país, operadas em grande parte por mulheres jovens e crianças. Na mesma época, mulheres brancas de origem mais abastada começavam a lutar pelo direito à educação e por uma carreira fora de casa.» Mais adiante, no mesmo capítulo, a autora ilustra a sua tese: «Em 1833, quando a Sociedade Antiescravagista Feminina de Filadélfia foi criada, na esteira da convenção de fundação da Sociedade Antiescravagista Estadunidense, o número de mulheres brancas simpatizantes à causa da população negra era suficiente para estabelecer o vínculo entre os dois grupos oprimidos.» O resultado foi uma «poderosa aliança entre a já estabelecida luta pela libertação negra e a embrionária batalha pelos direitos das mulheres.»

Esta leitura das relações intrínsecas entre os dois movimentos deu a Angela Davis um ângulo que foi sendo ampliado, pensado e adaptado ao passar das décadas. Não espanta, por isso, que a sua defesa da interseccionalidade seja, ainda hoje, tão veemente. Tanto em Mulheres, Raça e Classe como nos textos dispersos que compõem o recente A Liberdade É Uma Luta Constante, dois livros separados por mais de três décadas, Davis mantêm sempre presente esse foco, cruzando temas, lutas, geografias e heranças opressivas. Num dos textos que integram o livro agora publicado pela Antígona, uma entrevista de Dezembro de 2014, Frank Barat, o entrevistador, questiona Angela Davis sobre qual terá sido a mais importante mudança na política negra desde o fim do movimento pelos direitos civis. Resposta da autora: «Eu diria que a interligação dos movimentos anti-racistas com o género é crucial, mas também precisamos de os ligar com a classe, a nacionalidade e a etnia.»

Esta coerência que acompanha o pensamento de Angela Davis ao longo das décadas permite-lhe ir acrescentando novos elementos às suas teses à medida que novos movimentos sociais eclodem, que novos temas, exigências e modos de opressão ou discriminação vão surgindo. E é uma coerência que não torna rígidas as leituras que faz da sociedade. Pelo contrário, há uma ausência de ilusão de pureza moral que é louvável, concorde-se ou não com o ponto de vista político da autora, e nessa ausência assume-se um dos mais básicos traços de pensamento e comportamento dos seres humanos, o de sermos todos feitos de muitas contradições: «E deixem-me dizer também a quem se opõe à Lei DREAM por oferecer um caminho para a cidadania às pessoas que estão nas Forças Armadas: uma vez mais, podemos opor-nos aos militares e, ao memso tempo, apoiar a Lei DREAM. Da mesma maneira que podemos apoiar os direitos dos gays nas Forças Armadas e, ao mesmo tempo, dizer que queremos desmantelar o Pentágono.» Na obra de Angela Davis, mais importante do que olhares monolíticos é essa capacidade de ir pensando, questionando e definindo escolhas à medida que aprendemos. Ler este último livro, A Liberdade É Uma Luta Constante, e perceber que Davis continua a desafiar-se a ela própria e ao seu pensamento ao fim de décadas de activismo é revelador da importância do seu contributo para nos entendermos com o século XX e os seus ecos neste XXI.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda de julho/agosto de 2020.

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