O que pode um corpo?

Por Pedro Mendes

Que força tem um corpo? Que força têm sete corpos?

VÄRA é a quarta criação de Daniel Matos, coreógrafo e performer que já trabalhou com nomes como Ana Borralho & João Galante, Angélica Liddell, Romeo Castellucci, Amélia Bentes, Luís Marrafa e André Uerba.

Depois de “#Limoeiro 55”, peça para dois interpretes, em VÄRA trabalha com sete. Um aumento de escala e de fôlego.

Lê-se na descrição da peça que “Vära é um ponto híbrido entre dois choros: o do nascimento de um bebé humano e o da matança de um suíno, do qual não se sente piedade”. Esses dois choros estão presentes ao longo da peça, seja por via da música de João Galante, seja por via das vozes dos bailarinos que, em dado momento, nos dão ambas as sensações de forma incisiva.

A peça começa de forma ritual, com os sete corpos nus, de gatas e alinhados, a avançar como que para a matança. Ao longo do espectáculo o movimento vai surgindo, ora lentamente, ora de supetão, imprimindo uma dinâmica constante. Solos, duos e uníssonos coabitam na peça, e dão-lhe ritmo. Este movimento ritual atravessa a performance, por vezes suave, outras intenso.

O quadro final é de uma enorme potência, em que o corpo é levado quase à exaustão pela repetição. O espectador não pode deixar de empatizar com o esforço visivel dos performers, nota alta em que termina a performance.

Notam-se influências, mais próximas ou mais subtis, do trabalho de criadoras como Angelica Liddell ou Mónica Calle. No entanto, considero o trabalho de Daniel Matos refrescante e muito original em termos do que nos apresenta em cena. É um criador a manter no radar.

Não posso deixar de nomear os sete bailarinos, que deixam tudo em palco: Adriana Xavier, Sofia Kafol, Joana Pinto, Jean-loup Gayrard, Lia Vohlgemuth, Mélanie Ferreira e Marco Olival.

Foto: Bruno Simão

VÄRA, de Daniel Matos
22/01/2022
Centro Cultural de Lagos

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