O STAND – Entrevista

O STAND é um projecto artístico que nasceu num stand de automóveis em Lisboa. Conversámos com os responsáveis pela iniciativa para saber um pouco mais sobre o que são, sobre o desfrute artístico, sobre a sua programação, sobre a pandemia, sobre irreverência, e muito mais.

O que é O STAND e qual a sua missão?
A missão do STAND é gozar o prato. Criamos condições para a produção de conteúdos e realização de projectos que não têm nenhuma utilidade senão a de nos divertir, conhecer pessoas que admiramos e potenciar a sua prática artística. O STAND proporciona momentos sui generis, pelo seu retracto físico mas sobretudo pelo seu contexto sociopolítico. Está disponível a toda a comunidade e é repensado diariamente para ser um lugar de segurança e tolerância.

O que apresentamos é um jogo, um espaço de intimidade entre as artistas, a equipa d’O STAND e outros satélites que surgem nos meandros. O desejo de criar, ver ou produzir arte traduz-se também numa enorme ânsia de intimidade. Construir um projecto a partir desta consciência repercute-se em toda a sua extensão e ressoa especialmente na forma como decidimos querer participar e contribuir para isto.

O vosso site abre com a frase “O STAND é um projecto de desfrute artístico”. Em que sentido?
No decurso da nossa actividade profissional individual, que se insere no sector artístico, começámos a sentir e a observar a necessidade de responder a um mercado. Um mercado que, como qualquer outro, encontra os mesmos lugares de parametrização e regulamentação, a mesma frieza em processos de transacção que qualquer outro: de repente, uma cadeia de valor que vagueia entre o momento em que se produz arte e as exigências do compra-vende.

Falar de desfrute é voltar a um início, regressar ao lugar em que quisemos fazer isto só porque sim, em que estamos no atelier ou acordamos de manhã e há uma energia obsessiva qualquer que não nos permite pensar em mais nada senão naquela obra ou processo. O STAND propõe um retorno a este espaço. Se na emergência, os agentes culturais sentem uma necessidade de responder a certas formas de ser, comunicar e estar, O STAND gostaria de ser o banco do descanso, em que da proximidade flui o que nos motiva a sermos artistas, productoras, curadoras, programadoras e, inicialmente, público.

Pode-se dizer que a irreverência é uma das características do vosso projecto?
Hasteamos a vontade de escapar a um modus operandi que nos aborrece. E estamos sempre a escapar e sempre na iminência de não escapar. É esta a jinga que nos alimenta e que nos permite pensar cada edição em contexto e não distanciada da vida. A irreverência, como dizes, começa por ser o motor de operações interno que inevitavelmente passa para o exterior, vendo-se desde longe porque brilha no escuro. Entre a equipa d’ O STAND há uma dinâmica interna de desestabilização que incuba esta ideia de que saímos da norma. Mais do que uma característica, diríamos que é uma forma de trabalhar: querer chegar a propostas excitantes, tanto na sua formalidade como a nível conceptual, é o que motiva a querermos fazer acontecer o STAND seguinte, e por aí fora. Enquanto este feeling se mantiver o projecto está vivo.

Como é pensada a programação do espaço?
Mais uma vez O STAND não se distancia da vida pelo que a metodologia de programação é flexível e fluida, influenciável pelo nosso quotidiano e as experiências pessoais de cada uma. Gostamos de trabalhar por ciclos de programação, em que cada evento é um capítulo de um livro. A implementação das artistas nesta narrativa normalmente vem depois e é resultado de muito brainstorming, ainda mais jantaradas e algumas noites acordadas a conspirar e a cruzar possibilidades.

Como estão a resistir aos tempos de pandemia?
Esta questão é curiosa tendo em conta que O STAND resiste desde o início, pelo simples facto de existir. Somos um projecto independente, autofinanciado, que existe por acreditarmos na necessidade de se apresentarem propostas artísticas libidinosas no meio da arte contemporânea de Lisboa. Dedicamos o nosso tempo e energia ao STAND como um segundo trabalho, uma segunda realidade das nossas vidas sendo que todas trabalhamos com cultura. Actualmente a situação é preocupante: o futuro é uma verdadeira incógnita. Trata-se de um sector extremamente precário, em que há muito trabalho informal, não havendo conhecimento conclusivo do retracto demográfico destas profissionais e estruturas. Enquanto esta informação não ganhar corpo todos apoios e soluções pensadas e apresentadas serão insuficientes e inadequadas.

Conseguimos sobreviver porque O STAND não é o nosso ganha-pão, porque não pagamos renda e por investimento de recursos próprios que, por outras palavras, é amor à camisola. Encontramo-nos em reestruturação, a construir um médio prazo com taxas de esforço mais simpáticas, em que possamos apoiar melhor as artistas e sentirmo-nos mais relaxadas porque se há coisa que a precariedade traz é tensão muscular, que é o único tipo de tensão de que não somos fãs.

Peço-vos um desejo para a Arte Contemporânea para os tempos mais próximos.
(NOTA: ler o desejo com uma melodia de fundo na cabeça)

Vamos pedir um desejo mil folhas

Primeira camada: uma grande festa

Segunda camada: sentido de comunidade

Terceiro andar: investimento real e com objectivos a longo prazo

O creme que junta tudo: sensualidade

Como convivem as duas vidas do espaço físico, um stand de automóveis e um espaço artístico?

Fotos de Reina del Mar

Mais sobre O STAND em https://ostand.pt/

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