Os antagonistas

Por Inês Lampreia

Os corpos nus de cerca de 30 mulheres, num exército de paz, moviam-se compassados. Mulheres em palco, que se apropriavam de instrumentos, experimentavam, testavam a possibilidade de criar música, numa orquestra em crescendo, esgotando-se fisicamente. No camarote, senti-me eu próprio em palco, nu, junto daquelas mulheres num grito humano, expandindo os múltiplos sentidos que se avolumavam naquela noite. Talvez, se fosse outro dia, a estreia de Carta, de Mónica Calle, não tivesse tido tão forte ressonância em mim, mas aquela era a noite que antecedia mais um período de confinamento. Estávamos na terceira vaga e no início de 2021.

A urgência da liberdade de movimento fazia com que a fisicalidade daquele espetáculo ganhasse maior relevância. Saí do teatro a prever a suspensão do dia seguinte, inebriado pela movimentação do meu corpo e pelo espetáculo – arte viva – ali, a acontecer numa sala também ela viva, com pessoas, que bateram palmas e que se emocionaram como eu. No dia seguinte, voltaríamos a confinar e os nossos corpos ficariam reduzidos a esquemas de resistência – passeios higiénicos, abastecimento alimentar, idas à farmácia… as regras subsequentes do confinamento. Como que para superar essa falta de movimentação, mergulharíamos nas redes sociais onde, cada vez mais, proliferavam o anúncio diário de rotinas pouco ou nada interessantes, mas que ainda assim criavam uma sensação de que estaríamos ligados ao mundo.

Enquanto vivíamos nessa contingência – contabilizando os números aflitivos da pandemia –, instalava-se uma multiplicidade de emoções. Ao contrário do que se poderia esperar, visto termo-nos adaptado a novos hábitos e a um conjunto de regras, a terceira vaga trazia novos amargos de boca. Havia um sentimento de esgotamento, não suportávamos mais a falta de liberdade, as máscaras e, sobretudo, a distância humana, a falta de toque, as privações sociais consecutivas.  Os médicos choravam antevendo a mais hedionda situação: terem de vir a escolher entre quem vive ou morre. Instalavam-se câmaras frigorificas nos hospitais para albergar os cadáveres; tudo voltava a fechar na tentativa de que a curva ascendente de casos pandémicos e mortes nos surpreendesse com uma queda livre. E nem mesmo o início da toma da vacina nos permitia olhar o horizonte e perspetivar o futuro.

O João, que conhecera um ano antes, tinha-se transformado numa espécie de miragem inalcançável. Mal tinha tido tempo de lhe tocar nos lábios, de me deliciar com a sua voz. A pandemia privara-nos da paixão, da possibilidade do amor… e isso era fatal. Mantínhamos, com enorme estranheza, uma relação à distância baseada num imaginário porvir, criando ilusões que se iriam diluir quando finalmente nos pudéssemos tocar e ter.  Quando chegaria o pós-coronavírus?

Acrescia a este panorama, o mundo continuar a girar e o volume de acontecimentos atropelarem-se, trazendo-nos notícias continuas da turbulência dos nossos tempos. Os tumultos no Capitólio, nos EUA, ampliavam a nossa desilusão e a campanha eleitoral para as presidenciais, em Portugal, banhada por um nefasto e medíocre partido de extrema direita, demonstravam que os portugueses cediam cada vez mais a um populismo de cariz fascista, quiçá cativados por um discurso vazio e por mecanismos de marketing político.

Vivíamos uma pandemia pela Covid e essa palavra, que se tornara tão quotidiana nas nossas vidas, servia de base para outros enquadramentos. Parados que estávamos em casa, apenas com os sentidos a captar o real pelos dispositivos digitais, assistíamos a outras pandemias que nos habitavam: a intolerância, a indignação, a ignorância.

As pessoas usavam as novas tecnologias para ganharem voz, para influenciar mudanças, mas pouco se sabia dos seus efeitos reais, especialmente junto da população envelhecida, mais distante dos posts no Facebook, Twitter ou Instagram. Via o espírito empreendedor online, e os apelos ao voto eram muitos e bem-vindos. Contudo, mal chegámos ao dia de eleições e os supostos “iluminados das redes sociais”, lançaram-se em mensagens como “eu já votei e o local onde votei é lindo”, que me faziam lembrar a necessidade de aprovação das crianças em relação aos pais, quando dão saltinhos à frente dos mesmos dizendo “eu já fiz, eu já fiz!”. Quereriam as pessoas ter “gostos” porque tinham ido votar? Não bastaria a satisfação de ter realizado esse ato de cidadania que é exercer o voto? Ou agora o ato seria validado duplamente em cada um de nós caso toda a nossa rede virtual o soubesse?

Da mesma forma, quando o partido de extrema-direita ficou em terceiro lugar, iniciou-se toda uma onda de comentários de análise política. É certo que a pandemia não permitia que as pessoas se encontrassem, criassem espaços de diálogo, agora convertidos em tertúlias no zoom ou extensíssimos comentários nas redes sociais, mas ainda assim, era demasiado evidente o que se passava. Os comentários e as conversas geradas em mensagens nas redes sociais contribuíam para um sentimento de poder de opinião, mas em simultâneo para uma banalidade da indignação. Além disso, não poderia esquecer a ideia de Mcluhan: “The medium is the massage”. Havia uma “massagem” perpétua de egos naquela atividade que, em suma, criava sobretudo ruído e disputa de ideias sem dissenso. Acrescia que muitas dessas mensagens eram, sobretudo, derivadas do fenómeno FOMO – Fear of Missing Out – ou seja “Se o meu vizinho opina, eu também”. Não só precisávamos de saber de tudo, como também de falar de tudo… e já não aguentávamos que não soubessem, os outros, de tudo o que pensávamos e fazíamos. Uma autêntica ilusão proliferada através do virtual.

Três aspetos me pareciam evidentes para pensar que tudo isto não era assim tão surpreendente:

Primeiro: A descontextualização do conhecimento histórico, a ideia de que aquilo que “se passa aqui e agora é tudo o que existe”, elevava um olhar estereotipado e presunçoso sobre as ações humanas. O legado histórico, a vida quotidiana de gerações e as circunstâncias sociopolíticas das comunidades… eram esquecidas numa indignação superficial. Como não olhar para trás para tentar perceber de onde advinham tais comportamentos extremos? Num país com grande envelhecimento da população, elevado grau de iliteracia, extrema pobreza e isolamento do interior… era absolutamente necessário um olhar mais crítico.

Segundo: A importância da razão técnica não era de somenos. O deslocamento da ideia de liberdade para uma liberdade pelo material, criara um novo valor que se encontrava no topo das hierarquias – o valor económico apoiado num determinismo do progresso, em que os cidadãos surgiam como objetos de uma praxis, incapazes de plasmar a história, contribuindo para uma servidão humana submissa à razão técnica. Essa encarnação de um novo deus, que nos fazia acreditar no crescimento económico como caminho único só era usufruto de alguns. O dinheiro tornara-se signo de poder e o consumo símbolo de prazer… e todos queriam consumir, mas nem todos tinham o signo nas mãos.

Terceiro: Não seria preciso argumentar sobre a importância da educação, mas tornara-se óbvio que nas sociedades contemporâneas mais e mais fundadas na razão, a educação entrara numa crise profunda. A descrença e a desvalorização das ciências sociais, como seriam a filosofia, a sociologia, a psicologia, a história, distanciavam gerações e gerações do pensamento, do entendimento dialógico, da história e da cultura. Se em outros tempos houvera espaço para a esgrimia de opiniões, agora tendia-se para a polarização discursiva, banhada pela espuma da desonestidade intelectual. Tanto à esquerda como à direita, fazia-se a defesa de verdades absolutas, fruto de uma discursividade do presente sem passado, grandemente fomentada pelo gigante volume de informação mal ruminada.

Lembrei-me de uma frase de Balzac – o mundo pertence-me porque eu o compreendo. Como poderemos nós compreender o mundo, se não nos contaminarmos pela escuta recíproca?

Agora, em 2025, passada a pandemia, somos herdeiros de um mundo mais asséptico e de uma híper vigilância do comportamento. A utópica ideia de que recuperaríamos um sentido humanista, caiu por terra. A reformulação das nossas sociedades, não só em prol de um estado social comum, mas também da proteção desse outro corpo que é a natureza, preservando-a para nos preservarmos, não se verificou ainda. E cuidar das grandes clivagens entre ricos e pobres ficará, parece-me, como a história nos tem dito, para segundo plano.

O que fazemos agora, depois da pandemia, é semelhante ao que se faz depois de uma guerra: reconstruimos, tentamos superar os danos e, sobretudo, observamos o capitalismo a prosseguir o seu curso indelével. E sem ilusões… há uma expansão da ignorância. Tornámo-nos um género de Naltrexona -­ medicamento antagonista que bloqueia os efeitos dos opiáceos, atuando nos recetores cerebrais e não os deixando ativar – … somos os novos antagonistas do pensamento.

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto por Daniele Levis Pelusi

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Comments

  1. Uma reflexão repleta de linhas de leitura sobre o a dureza desta pandemia, uma bala certeira no narcisismo que pulula nas redes sociais e uma intrigante forma de nos alertar para a essencialidade da cultura, gostei bastante! A metáfora dos antagonistas é genial, fez-me recordar o medicamento Nalorex, uma revolução no tratamento da dependência de heroína , que não deixava “bater” a droga, auxiliando os “agarrados ao cavalo”, a não pensar obsessivamente no “produto”. Um belo “caldo” de resistência à aridez de pensamento crítico dos nossos dias!

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