Os cães e os ossos no setor da cultura

Por Isabel Garcez

Estou a preparar uma candidatura a um concurso do setor da cultura e senti-me necessariamente solidária com os muitos quase todos que vivem atrás dos muito quase sempre poucos concursos na área da cultura. O equilíbrio difícil entre o otimismo obrigatório (ou não concorreríamos, acreditando que podemos vencer algum) e o pessimismo cauteloso que nos ajuda a sobreviver às muitas derrotas subsequentes ao sistema do sete cães a um osso que é o setor em que vivemos.

Como tenho muitos anos do outro lado, do lado que avalia, que decide os sins e os nãos que mudam vidas, não consigo deixar de ler além dos muito nobres objetivos que estão sempre presentes nos preâmbulos destes regulamentos; também não consigo deixar de me enervar com as sempre consideradas como aceitáveis condições prévias para que possamos sequer ser aceites à condição de candidatos a ser um destes sete cães. Ou seja, as balizas do «dimensões máximas (ou mínimas) dos Y cm x Z cm», do «os materiais das peças devem obedecer às normas do X», do «a duração do espetáculo não pode ser superior a P minutos», do «o manuscrito tem de ter um mínimo S palavras/carateres com espaços incluídos e um máximo de R»… já para não falar das condições prévias dos candidatos a cães propriamente ditos, como o «idades compreendidas entre X e Y», o «ser residente no território N», o «com residência fiscal em M», o «ter sido/não ter sido anteriormente beneficiário de T», o «tem de ter assegurado o cofinanciamento de B% do orçamento apresentado», o «apresentar declaração de uma editora em como se compromete a publicar a obra candidata [ou mesmo a obra que ainda não está escrita, mas cuja criação é o próprio objeto do concurso] e a oferecer D exemplares/vender até W exemplares com F% sobre o PVP», ou mesmo o «é necessária apresentação de registo criminal [limpo, entenda-se]».

Será mesmo óbvio que o dono do osso tenha direito a usar desta forma tantas letras do alfabeto (ou a sobrecarregar os tão explorados X, Y e Z)?

As razões subjacentes a estas práticas são compreensíveis e claras: cada concurso tem alvos e objetivos específicos, sejam eles um momento social e/ou económico, uma efeméride, a geografia, a discriminação positiva dos destinatários dos concursos, etc. E também é legítimo considerar apenas determinada linguagem artística, por exemplo. Mas o que se entrelê é muitas e demasiadas vezes mais e diferente das razões nucleares que estão na origem de cada um destes concursos: 1) a formatação dos criadores que são levados a adaptar as suas criações e o seu próprio perfil aos pré-requisitos que os impedem de ser expulsos dos escassos círculos do reconhecimento e da remuneração pelo seu trabalho; 2) a formatação dos públicos, que, de tanto verem o mesmo feito pelos mesmos ou pelos parecidos aos mesmos, querem apenas o mesmo ou o mais possível parecido ao mesmo.

Estas entrelinhas são também interlinhas que se podem desenrolar como: «o sistema está preparado para funcionar desta maneira», «é preciso otimizar o investimento já feito no conceito A ou C ou V», «só com critérios inquestionáveis se garante a transparência», etc., etc., etc. Podemos fazer vários novelos com todas estas linhas, entrelinhas e interlinhas, e até podemos ter, desta forma, cestos criativos muito organizados e prontos a saltar on demand, mas o certo é que a democracia da criação fica, no mínimo, (de)limitada entre as regras do mercado dos concursos, assim como a democratização da receção ficará cada vez mais enrolada na massificação. E a massificação, como se sabe, é um dos principais calcanhares-de-aquiles da democracia.

PS: Ah, justiça seja feita: o concurso mencionado no início desta reflexão – Culture of Solidarity Fund – levou-me a pensar em tudo isto exatamente porque sofre pouco dos males enunciados. Serão muitos os cães e poucos e modestos os ossos, mas, de resto, não há formulários estanques com muitas caixas de preenchimento rígidas e interdependentes nem listas infindáveis de pré-requisitos. Temos, portanto, aqui, um exemplo de um fundo que se propõe financiar a diversidade e que, pretendendo a diversidade, se abre a projetos e a projetores diversos. Aproveitem.

Isabel Garcez
É investigadora no Centro de Culturas e Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL). Trabalha em edição desde 1993 (Editorial Caminho: 1996-2016). É membro fundador da Associação Cultural Prado.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

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