Os Filhos do Medo

Por Rui Zink

Não era a primeira vez que a via acossada e, agora, já sabia o que esperar. Semanas, talvez meses, de pesadelo. Mas depois a coisa passaria, até porque passariam (passam sempre, ou quase sempre) os motivos para ela se sentir assim. Acossada.

Ná, ela não era paranoica. Pelo menos, não fora diagnosticada como tal. De resto, mesmo que o fosse, «até os paranoicos têm inimigos», frase atribuída a Henry Kissinger, mas que na volta nem era dele, simplesmente assentava ao lendário conselheiro de Nixon como uma luva a O. J. Simpson.

O. J. Simpson safou-se de um crime fazendo em tribunal um número, hoje famoso, com uma luva que nem lhe assentava assim tão bem como isso. Patricia Highsmith acreditava que ele era culpado, e escreveu-o. Segundo ela, tal furor assassino, tanta facada, implicava um ódio forte – um ódio só destilável, por terrível ironia, a partir do produto oposto. Patricia Highsmith lá saberia: não era psicóloga, não conheceu nenhuma das partes, mas passara 50 anos escrevendo romances policiais, alguns deles adaptados para filme.

Que se lembrasse, um tinha sido adaptado por Hitchcock; outro tivera direito até a duas versões, uma por Wim Wenders e, décadas mais tarde, por mais um realizador qualquer. No filme de Wenders, o amoral Ripley foi interpretado por Dennis Hopper, na versão recente por Malkovich. Ambos magníficos, mas Malkovich um tudo-nada mais verosímil: mais «assentando que nem uma luva». Ambos, Hopper e Malkovich, useiros e vezeiros em interpretarem sociopatas. E, se Malkovich foi melhor a fazer de Ripley, Dennis Hopper foi inigualável a fazer do monstro humano demasiado humano de Blue Velvet, esse pesadelo que muitos consideram a obra-prima de David Lynch, o melhor fazedor de pesadelos cinéfilos depois de outro David, o canadiano David Cronenberg. De Cronenberg, lembra um filme aterrador, dos primeiros, quando ele ainda não tinha grandes orçamentos e filmava no Canadá. Agora não se lembrava do título, mas a história era mais ou menos esta. Pessoas começavam a aparecer mortas de forma atroz. Depois, descobria-se que os assassinos eram uns anões sinistros. Depois, a protagonista descobria que todas as vítimas estavam próximas de uma mulher neurótica que não saía de casa. No fim, descobrimos que os anões são a materialização das obsessões dessa mulher. Brr.

Da última vez que a vira acossada, sim, ele sabia, também em mais de um momento se sentira tentado a. Uma pessoa perde a cabeça, por mais amor que tenha dentro. Por vezes, o amor explode em horror. Até com crianças. «Não és meu pai!» Quantas vezes pode uma pessoa ouvir uma frase dessas sem se sentir mesmo ferida por essa frase? Sem reagir. Ele, da outra vez, falara com a professora, para saber por que motivo a criança se sentia acossada. A professora encolhera os ombros e dissera qualquer coisa sobre as crianças por vezes serem muito cruéis umas para as outras. Que ela talvez estivesse a ser vítima de um grupo. Ele lembrava-se de ter perguntado se a professora não podia fazer nada. Falar com os pais. Ela dissera que era muito difícil. Eram crianças. Podia intervir, mas havia falta de pessoal, as contínuas não podiam estar o tempo todo a vigiar.

Ele lembrou-se de, na altura, ter ficado espantado. Pensava que essas coisas só aconteciam com rapazes. Acabara por mudar a miúda de escola. Mas agora, mesmo neste colégio mais caro, que lhe custava uma fortuna, a miúda voltava a sentir-se acossada. E ele voltava a ter de ir à escola falar com os professores. E ela iria ficar de novo insuportável durante semanas, durante meses. Sim, era apenas uma criança. Mas as crianças, a outra professora, ela própria o dissera, podem ser cruéis.

E quando a miúda recomeçar com os «Não és meu pai», o que irá ele fazer? O que fariam O. J. Simpson, Patricia Highsmith, Ripley, Dennis Hopper, Malkovich, David Cronenberg?

Ah, ocorria-lhe agora o título do filme. Os Filhos do Medo, no original, The Brood, e ele não aconselharia ninguém a ver. Dá pesadelos.

Rui Zink (Lisboa, 1961)
Escritor e professor. Autor, entre outros, de Apocalipse Nau (1996) e A Instalação do Medo (2012). Livros mais recentes: Manual do Bom Fascista e O avô tem uma borracha na cabeça.

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