Paisagens privadas

Por Ivo Saraiva e Silva

Imaginar um anti-herói do futuro obriga a especular-se circunstâncias dentro de contextos privados. Nesse exame narrativo não muito diferente dos habituais, prevê-se que o anti-herói acorde com o barulho da chuva, tal como soletra a cartilha. No entanto, este anti-herói não desperta molhado, e não é por ter uma capa impermeável nem estar coberto por um manto que o abriga da tempestade, não. O facto é que a tempestade depende dele e da sua voluntária vontade de querer tomar banhos de chuva, ou de lua, ou de sol, ou de uma outra espécie de substância qualquer que lhe possa molhar o corpo, olear os tecidos. Na verdade, este anti-herói que vive no futuro talha o clima a seu bel prazer, e é-lhe permitido, através de mecanismos clássicos, mas assaz inteligentes e virtualizados, tecnológicos, moldar as conjunturas em que habita e decidir o que pretende visualizar, quando e como. Este é um sujeito que filtra paisagens e as desdobra para construir o seu mundo, feito com as suas referências, oferecidas sabe-se lá por que entidade. Ele move-se no seu habitat antinatural, porque se trata de um anti-herói, mas que anseia incansavelmente cumprir a realidade, copiar-lhe as formas e aperfeiçoar-lhe as fórmulas – ele está num quarto circunscrito por uma imensa parede mestra circular que lhe devolve um mundo sonhado a pixéis em escalas multidimensionais simetricamente sintonizado com a realidade. É, desta forma, que o sujeito agenda, calcula e regista os episódios da sua vida vulgar sem imprevistos ou surpresas. Mais, nos dias em que uma depressão o assola ou o humor não é o melhor, e é indispensável uma surpresa para entreter quem é anti-herói, o sujeito prepara tudo para se surpreender e força-se a fingir não saber dos minutos ou das horas que se avizinham. É, desta forma, que se mantém.

É tudo tão certo como a morte, que pode não ser tão certa assim, visto que a sua parede mestra vislumbra os avanços científicos mais ousados propostos por si e que permitem uma esperança média de vida alargada. Todo o contexto em redor deste anti-herói é património seu, pois fora ele que o construiu, e compõem as paisagens mais estupendas a que só ele tem acesso: talvez um rio que corre para lado nenhum sob uma ponte que vai dar a um centro comercial luminoso, uma montanha geminada a uma cascata que é só sua, pode haver uma árvore em forma de automóvel, e um pássaro que canta, que vai dando movimento à imagem, um pássaro. Está tudo debaixo de um céu virtual, tudo privatizado pelo Homem, pelo anti-herói, e é isso que lhe oferece algum alento, talvez algum significado. É o celebre verso “my loneliness ain’t killing me no more” que cogita na sua cabeça, que ele aprendeu não se lembra em que século nem por que via.

No avanço célere da sua passada, que suporta os dias e as noites esgotando os recursos e criando novos, há um dia em que este anti-herói decide fartar-se, farta-se de si e da sua monotonia, das suas surpresas, e resolve provocar algum conflito ao seu estado estável, mas fastidioso. É então que destrói tudo – as paisagens e as imagens, a parede quebrada a soco, com vista a ver no que dá. À medida que destrói, engasga-se no pó das ruínas, até avistar o que está para lá da fenda já bastante larga: nada: pó, cinza, um espesso e parado vendo que cheira ferro quente e tóxico. Tudo parece extinto. Já não há pássaros ou verdejantes logros ou centros comerciais. Para onde foi o rio que corria, não há como saber. E o anti-herói põe-se a pensar se, de facto, não teria alguma vez roubado tudo – ou comprado – à realidade concreta. É que já existe há tanto tempo para se lembrar… Por um segundo, um segundo muito ténue e tão apaziguador, ele considera se não fora ele o criador de toda a realidade em que acreditou até então. Insuportavelmente, o anti-herói desconfia que possa estar constantemente a despertar de diversos sonhos dentro de outros sonhos. Ou serão pesadelos? Num êxtase não muito demonstrativo, porque não há ninguém para assistir a um espetáculo como esse, ele deita-se no chão, com as mãos a trucidarem as orelhas, a obrigar-se a acreditar que a preservação da sua espécie depende daquilo de que desconfia, e que a preservação humana depende de uma preservação urbana e privatizada. Que provavelmente possa só restar ele, um anti-herói, ou possa só restar anti-heróis, e repara que não se lembra como é que pôde chegar a tal momento da sua História. Teria sido agradável ter tocado algo natural, algo vindo em seda original, sem filtros ou apliques, mas o coração de um anti-herói já não aguenta tanto. A sua ficção é já tão honesta que quase lhe é intolerável. Tem diante de si um mural de obscenidades privadas que lhe são muito caras – isto é, são-lhe muito queridas mas também lhe custam balúrdios porque a procura é elevada, ainda que a oferta seja muito generosa. De facto, consegue concluir que, se por um lado, a privatização das paisagens envolvida numa alienação crescente lhe vai amenizando as dores de cabeça do mundo, e afasta o outro, por outro, fá-lo cobrir-se de sensações individuais que ele entende como paraísos, porventura perdidos.

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Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

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