Para onde vai o sentido? Bom, falava de Husserl…

Por Patricia Portela

Após a leitura do meu primeiro Husserl, A crise da Humanidade europeia e a filosofia, inscrevi-me no curso Filosofia e Primeira Guerra Mundial, em Leuven, do meu muito estimado filósofo e professor Nicolas Fernando de Warren.

Foi trágico. Em menos de três meses tinha de aceitar que todos, repito, todos os filósofos nesta época apoiaram a Grande Guerra, acordando fazer discursos inflamados para as suas tropas (Husserl, para os soldados alemães, Bergson, para as tropas francesas) defendendo, com argumentos muito semelhantes, lados opostos de uma Guerra que consideravam necessária em nome da Civilização. E com isto apoiavam a destruição de bibliotecas, o início da utilização das armas químicas e o fim do conceito de Guerra como um duelo entre nações, disputada por nobres soldados, cheia de regras e acordos de cavalheiros. Estes grandes filósofos do tempo e da experiência abriam as portas ao terrorismo dos tempos de hoje comme il faut. E no meio destes meus estudos acompanhados pela minha obsessão em ler diários de autores admiráveis, encontrei uma carta de Husserl para a sua esposa. Uma carta da mesma época em que incentivava soldados alemães a irem para a linha da frente, uma carta em que carpia, através das mais belas palavras, a perda do seu filho, morto em combate nos primeiros dias da Grande Guerra. E eu pensei: Como é que o que achamos melhor para uma nação não é o melhor para um pai e o seu filho?

Há algo que não faz sentido, não acham?

O único filósofo assumidamente pacifista foi Bertrand Russel, o pai da arrepiante filosofia analítica mas também da frase mais bela sobre o ser humano, e que é mais ou menos assim:

“Será o ser humano aquilo que parece ser para um astrónomo, uma minúscula massa disforme e impura de carbono e água que se arrasta, impotente, por um pequeno e insignificante planeta? Será o ser humano aquilo que parece ser para Hamlet? Será ambos?”

Pensar em Hamlet lembra-me sempre Ofélia, a personagem mais maltratada da dramaturgia shakespeariana, por ser mulher, louca e a única que não mente nesta pavorosa tragédia que todos parecem aclamar. Mas Hamlet lembra-me sobretudo Alberto Pimenta (quem diria, não é?) e um livrinho maravilhoso que escreveu, onde questiona se to be or not to be deve ser traduzido por ser ou não ser ou para estar ou não estar, eis a questão…  ou será ser ou não estar ou estar ou não ser… Qual será mesmo a questão?, pergunto eu.

Hoje pode-se estar sem se ser, e pode-se ser sem se estar, e, pior do que tudo, pode-se dizer que se está onde nunca se esteve ou que não se é onde se está, e tudo sem que ninguém saiba nem perceba a diferença. É complexo, não é?

Alberto Pimenta lembra-me Meg Stuart e a sua peça Alibi. Coreógrafa nascida em Nova Orleães, ensaiava em Nova Iorque a sua nova peça sobre violência quando as torres gémeas caíram. Meg Stuart paralisou. Como falar de violência e agressão depois disto? Como continuar com o tudo como dantes no quartel de Abrantes depois da revolução? O que têm os nossos corpos para dizer depois da queda de dois arranha-céus a uns quantos quarteirões da sala de ensaios?

Meg Stuart e seus cúmplices no crime da arte de ser e estar através da dança descobriram, através do fazer, da experimentação, do reescrever, que a peça passara a ser sobre resistência, sobre resiliência. Eu vi-a em Lisboa, no CCB. É uma peça que tem uma cena de 20 minutos em que os bailarinos só tremem, até à exaustão. Uma peça em que Davis Freeman tem o monólogo mais disruptivo sobre nada, cheio de escárnio, asco, maldade (e no dia em que a fui ver, de tal modo foi convincente que uma senhora na primeira fila se levantou e deu-lhe um safanão e saiu visivelmente incomodada!).

Hoje, quase duas décadas mais tarde, questionamo-nos de um lugar semelhante ao de Meg Stuart: O que os nossos corpos têm para dizer e para criar depois de mais de um terço da população do planeta ter passado por uma quarentena? Saberemos estar no ser, ou seremos o estar enquanto colocamos a questão: Para onde vai o sentido?

(Correntes D’Escritas XXI parte 2… to be continued…)

Patricia Portela
Nascida pela altura da Intentona das Caldas, Patrícia Portela aprendeu a respirar pouco antes da revolução. Interessou-se por livros e bonecos já livre da ditadura. Segue à risca a máxima grega: transforma o mundo sem estrondo mas com esperança. Gosta de formigas físicas e metafísicas, de viajar e de olhar e ouvir a filha.” (por Raul J. Contumélias)

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