Parábola do pão

Por Juan Villoro

Os governos do mundo anunciam cortes na cultura em nome da economia (ser supremo da teodiceia contemporânea). O paradoxo é que as pessoas sobrevivem ao confinamento graças à cultura. Há muitos séculos, o esforço de lavar roupa supera-se cantando.

Churchill assegurava que a Grã-Bretanha ganhou a guerra por não ter fechado os teatros. Um povo que representa Hamlet durante os bombardeios não pode ser vencido. A paixão do primeiro-ministro pela pintura e pela literatura foi vista pelos seus colegas como uma extravagância similar ao seu consumo de charutos e uísque, e teve algumas repercussões imprevistas (o nome da banda de jazz-rock Blood Sweat and Tears surgiu do mais inflamado dos seus discursos, e a Academia Sueca aperfeiçoou a sua lista de erros ao conceder-lhe o Prémio Nobel de Literatura). A contraditória e carismática figura do lendário buldogue inglês não deixara de inspirar filmes e séries de televisão. Para além das circunstâncias da sua vida, convém resgatar uma das suas convicções: a política carece de sentido à margem da arte. Há uns dias, numa carta ao ministro da Cultura de Espanha, o diretor de teatro Lluís Pasqual recordou uma frase de Churchill: “Se sacrificamos a nossa Cultura, alguém me pode explicar para que fazemos a guerra?

Faz sentido um país sair da quarentena sem que os seus teatros, galerias, livrarias e salas de concertos reabram? Os artistas não parecem prioritários nos tempos de emergência. Apoios são-lhes suprimidos, ignorando que as pessoas precisam de gratificação estética. Em tempos desprovidos de grandeza ninguém toma uma tribuna parlamentar com o ímpeto de Churchill, para não dizer com a sua retórica.

No entanto, sobrevive-se à crise graças ao que as pessoas imaginam. Para sair do presídio mental, alguns compartem memes, gifs ou tuítes, outros recitam poemas, usam fantasias, cantam, conversam por telefone ou Skype, sonham, escutam os sonhos dos outros. Milhares de artistas disponibilizaram on-line as suas obras de teatro, filmes, livros, concertos. A espécie resiste através de formas de representação da realidade (eliminadas dos orçamentos públicos como a parte mais prescindível da realidade).

Em «O Grande Inquisidor», capítulo de Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski refletiu sobre o eterno dilema das prioridades humanas. Iván, o irmão intelectual, conta uma parábola a Aliosha, o irmão religioso. No século XVI, um velho inquisidor sevilhano volta a ver Cristo e aprisiona-o porque o seu regresso põe sob suspeita os ensinamentos de uma Igreja que se afastou da sua pregação. O ancião explica ao messias qual foi o pior dos seus erros. Quando ouviu a voz de Deus no deserto, poderia ter pedido qualquer coisa. O Pai Eterno ofereceu-lhe distribuir pão para toda a humanidade. Dessa forma Jesus poderia alimentar a humanidade para sempre, controlar a sua economia, submetê-la à sua lei. No entanto, a sua resposta foi desconcertante: «Nem só de pão vive o homem». A que se referia? Jesus preferiu promover a liberdade, mesmo sob o risco de ela ser usada contra si. Já na cruz, poderia ter recorrido a um milagre e subir ao céu escoltado por anjos. Mas não quis impor a sua fé com um truque. As pessoas deveriam decidir livremente se acreditavam ou não nele. Os milagres e a partilha do pão são uma forma de coação. Iván apresenta a história como um fracasso do cristianismo (um sacrifício inútil em nome da liberdade); Aliosha entende-o como um triunfo da fé sem amarras.  Há ainda um terceiro ponto de vista. Dostoiévski sugere que o pão e a liberdade são inseparáveis. Imaginar que o trigo pode ir ao forno e depois partilhado são atos culturais. Colocar-lhe preço já é outra coisa. Em 1929, escreveu Federico García Lorca: «Nem só de pão vive o homem. Eu, se tivesse fome e estivesse na rua, não pediria um pão, mas meio pão e um livro. E ataco aqui violentamente aqueles que só falam das reivindicações económicas sem jamais nomear as reivindicações culturais, que são aquilo que os povos pedem aos gritos».

A metade da nossa existência é imaginária, o sabor do pão depende da liberdade.

A civilização começou em torno de uma fogueira. Os governos do mundo deveriam saber que isso serviu para três coisas imprescindíveis: aquecer as mãos, preparar a comida e contar histórias.

Texto publicado originalmente pelo jornal mexicano Reforma, no dia 24 de abril de 2020 e gentilmente cedido pelo autor para a revista Blimunda

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda de abril de 2020.

Foto de Kate Remmer

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Comments

  1. Francisco Pedroso says

    Nesta linha e nesta altura aproveito para sugerir apoio à Livraria Barata, na Av Roma, em Lisboa. Naotenho qq interesse económico associado mas é a minha livraria há mais de 50 anos e precisa de vendas.

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