Pauliana Valente Pimentel – Entrevista

A Galeria sala117, no Porto, apresenta a exposição Empty Quarter #2 (Rub Al’Khali) de Pauliana Valente Pimentel. Esta é a primeira vez que a artista expõe no Porto, e traz consigo uma série fotográfica que retrata os Emiratis, os locais dos Emirados Árabes Unidos, os seus usos e costumes, a sua riqueza, a sua maneira excêntrica de viver, recriando no meio do Deserto tudo o que não têm. Conversámos com ela sobre o seu percurso artístico, sobre a exposição, sobre trabalhar num país do Médio Oriente, e sobre o panorama das Artes Visuais em Portugal.

Podes falar-nos um pouco do teu percurso artístico?
A minha vida como fotógrafa iniciou-se em 1999 quando comecei a fazer viagens para o Oriente e a publicar as minhas experiências na “Grande Reportagem”, onde publicava para além das fotografias textos. Foi nessa altura que comecei também a fazer workshops internacionais com grandes nomes da fotografia, como por exemplo, o David Alan Harvey, da Magnum e National Geographic. Foi nessa altura que comecei a fazer pequenos ensaios e a descobrir-me como autora. Foi mais tarde em 2005, com o curso de Fotografia e Criação Artística da Fundação Calouste Gulbenkian, que o meu percurso se começou a desenhar enquanto artista visual, foi no ano seguinte que eu entrei para o colectivo de fotógrafos “Kameraphoto” e entrei para a “Galeria 3+1 Arte Contemporânea” como artista residente. A partir desse ano comecei a fazer projetos autorais, trabalhei também para projetos colectivos no âmbito do meu colectivo, comecei a trabalhar para revistas e jornais nacionais e internacionais com regularidade e a fazer exposições individuais e colectivas nacionais e internacionais. Em 2006 vendi a minha primeira “obra”. Em 2009 foi publicado o meu primeiro livro de autora “VOL I”, pela editora Pierre von Kleist, “Caucase, Souvenirs de Voyage”, pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2011, em 2018 “Quel Pedra” pela Camera Infinita e em 2019 “O Narcisismo das Pequenas Diferenças” pelo Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa. Realizei também diversos filmes/vídeos: “Diz-se que Portugal é um bom país para se viver”, 40’, Portugal 2011; “Youth of Athens”, 13’. Athens, Greece, 2012; “Entre Nous”, 51’. Portugal, França, 2014; “Quel Pedra”, 13’, S Vicente, 2014; “Al Bidayer” Emirados Árabes Unidos, 2017. Em 2015 recebi o prémio de Artes Visuais, do melhor trabalho fotográfico do ano, “The Passenger” pela Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2016 foi nomeada para o Prémio “NOVO BANCO Photo”, pela série “The Behaviour of Being”, tendo apresentado “Quel Pedra” no Museu Berardo. Estive durante cinco anos representada na Galeria 3+1 Arte Contemporânea e sete anos pela Galeria das Salgadeiras, em Lisboa. Actualmente colaboro com diversas galerias. Parte da minha obra pertence a coleccionadores privados e institucionais, tais como Fundação Calouste Gulbenkian, Partex, Fundação EDP e Novo Banco.

O que te atraiu para as artes visuais?
A minha abordagem nas artes visuais é documental, numa perspectiva antropológica e sociológica. Apesar de ter começado em pequena por gostar de desenhar e pintar, cheguei mesmo a tirar um curso na Sociedade de Belas Artes em Lisboa, rapidamente descobri que não era suficientemente boa a tentar registar a realidade e que com a fotografia eu conseguia registar um momento único e congelá-lo no tempo. Para mim, o ir ver Pintura em museus é fundamental e os conhecimentos que tive deram-me noções de estética fundamentais – em termos de composição e luz, por exemplo. Apesar de me ter formado mais tarde em Geologia, onde fui uma jovem investigadora na Faculdade de Ciências de Lisboa, foi o gosto por descobrir mundos novos, e os registar em fotografia que me fez mudar o curso da minha vida.

O que podemos esperar da exposição “Empty Quarter #2 (Rub Al’Khali)”?
A minha primeira viagem aos Emirados Árabes Unidos foi em 2015, em que fui convidada pela curadora Marie Loffreda, para desenvolver um projecto fotográfico sobre o Dubai. O intuito foi construir uma memória visual, registando situações do quotidiano, situando a imagem fotográfica entre o documental e a poesia, num registo enraizado na tradição de Robert Frank, de William Eggleston, de Walker Evans, Stephen Shore ou Alec Soth onde a deambulação resulta numa mistura ecléctica de indivíduos, paisagens e de interiores. Visualmente o que mais me fascinou foi o lado de sonho, o lado plástico e não real que se confunde com a própria realidade. Interessou-me em particular fotografar os locais, os Emiratis e tentar tocar a forma como vivem a sua intimidade. Não consegui ficar indiferente à maneira como esta cidade dos Emirados Árabes Unidos evoluiu em tão poucos anos graças ao petróleo e comércio, brotando das areias do deserto da arábia.

Resolvi fazer a primeira mostra num apartamento, em 2016, pois tal como lá tudo é muito escondido, e é preciso conseguir entrar numa casa para os conhecer, e por isso fez sentido para mim fazer a primeira exposição num apartamento e onde as peças fizessem parte da decoração.  O – apartamento, um projeto do Armando Ribeiro, em Lisboa, mostrou-se aberto para fazer esta exposição, e esteve aberta ao público durante dois meses.  Voltei ao Dubai em 2017, para fotografar, e agora em 2019, a Galeria Sala 117 no Porto, convidou-me para mostrar este trabalho. Para além das peças antigas, tem novas peças e um vídeo. Fica assim concluída a minha série “Empty Quarter, que é a tradução para inglês do nome do deserto deles “Rub Al`Khali”, deserto este que está nas suas origens, os Emiratis vêm de tribos do deserto. Fui várias vezes ao deserto, um sítio pelo qual eu própria tenho uma grande atração, e onde vi desde Árabes a treinarem os falcões para caçar, a uma duna gigante onde vão passar o fim de semana a “passear” os seus luxuosos carros. Nesta série, vemos os usos e costumes deste povo que veio do deserto.

Apresentar agora o trabalho final numa galeria faz todo o sentido para mim, o passar de um apartamento, mais privado, para um espaço aberto, uma galeria linda e de espaços abertos, com uma arquitectura muito semelhante às galerias que se encontram no Dubai– onde as peças vão conviver de certeza de uma forma sublime.

Um país como os Emirados Árabes Unidos pode ser um desafio para um ocidental, especialmente para uma mulher. Como lidaste com a situação?
Apesar de haver regras restritas para as mulheres locais, próprias de uma sociedade muçulmana e Árabe, e uma mulher ocidental não tem de andar tapada, e pode viver uma vida livre, com algumas restrições como, por exemplo, bebidas alcoólicas só em hotéis. Mesmo não sendo obrigada a estar tapada, usei sempre véu e obedeci a todas as regras de etiqueta como forma de respeito e aceitação, pois eu estava a fotografar e conviver com os Emiratis. Foi muito difícil entrar na sua intimidade e normalmente o mundo masculino não se mistura com o mundo feminino. O facto de ser estrangeira e respeitar os seus costumes ajudou muito neste trabalho, assim como, e isso sim foi fundamental, estar com uma curadora, que apesar de francesa vive lá há muitos anos e encaminhou-me para as pessoas e locais pretendidos.

Este foi um projecto que levou 5 anos a concluir. De onde veio a necessidade de o estenderes no tempo?
Decidiu-se que este projecto teria 5 anos, uma vez que o meu objectivo era retratar os Emiratis, os locais dos Emirados Árabes Unidos, os seus usos e costumes, a sua riqueza, a sua maneira excêntrica de viver, em que no meio do Deserto recriam tudo o que não têm. Para conseguir entrar dentro do mundo Árabe não é fácil, leva tempo, eles não gostam de ser fotografados, e são uma cultura fechada, com raízes muito próprias, e eu sendo uma mulher também não ajuda. Na realidade constatei com o tempo que quando te acolhem e aceitam, é para a vida. Vivi em ambientes de muito difícil acesso e inimagináveis para um ocidental e tratei retratá-los da forma mais fiel possível, mas para isso foi preciso voltar, e ganhar a confiança.

A ideia era um ano ir fotografar e o ano seguinte apresentar o trabalho, depois voltar e voltar a apresentar novo trabalho sendo que o objectivo final é ter uma mostra final no Dubai em 2020, durante a EXPO2020.

É a primeira vez que expões no Porto. Como está a correr a preparação da exposição?
Eu já pertenci a duas galerias em Lisboa, a Galeria 3+1 Arte Contemporânea durante 5 anos, e 7 anos na Galeria das Salgadeiras. Atualmente colaboro com diversas galerias não só em Portugal, como no estrangeiro. Vai ser a primeira vez que vou pertencer a uma galeria no Porto, a Sala 117, e estou muito optimista em relação a esta nova etapa.  Este ano fiz uma residência artística nos Maus Hábitos, a convite do Daniel Pires, e realizei um trabalho sobre a juventude portuense que frequenta os Maus Hábitos, a série “Ask The kids” que foi apresentada em Agosto, e que teve muito sucesso, e agora em novembro inaugurei o “Empty Quarter” por isso estou muito feliz de começar a mostrar o meu trabalho no Porto.

É importante veres o teu trabalho fixado em livro?
Sem dúvida. Uma exposição tem uma mostra de tempo limitada, um livro é um objecto, um documento que fica para sempre. Estou com uma exposição no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa, de um trabalho que fiz sobre a juventude açoreana, em 2017, na Ilha de São Miguel “O Narcisimo das Pequenas Diferenças” e onde foi possível publicar um livro de autor.

O que te reserva 2020?
Ainda não sei muito bem…a vida de artista é assim, nunca sabemos muito bem o que nos espera, dependemos muito de bolsas e apoios para conseguir realizar os nossos projectos. Este ano foi uma “loucura boa” – tive sete exposições, em Lisboa, Porto, Braga, Caldas da Rainha e Barreiro, sendo quatro delas com novos trabalhos. Para o ano quero fazer novos projectos, sendo que há uma possibilidade de ir a Macau.

Como vês o panorama das artes visuais em Portugal?
Sempre foi muito difícil ser-se artista em Portugal e acho que o panorama está cada vez pior. Cada vez há menos apoios por parte do Estado e das instituições aos artistas. Cada vez é mais difícil conseguir alugar um estúdio para trabalhar, as rendas estão caríssimas em Lisboa e as Galerias de Arte estão também a passar por uma crise, a fotografia já era muito difícil de se vender, pois sempre foi considerada uma arte menor, em comparação por exemplo com a pintura – uma pintura é única, uma fotografia tem numero de série, e os coleccionadores não gostam muito disso. Apesar de ter havido um aumento nos últimos anos da procura da compra de fotografia, principalmente por parte de colecções institucionais, muitas dessas colecções deixaram de adquirir novas peças, por isso estamos num período muito difícil. O público em geral gosta cada vez mais e cada vez mais sinto que há um interesse pelas artes visuais, mesmo nas escolas, eu dou aulas na Etic e na Restart e cada vez há mais alunos interessados na fotografia, muitos são estrangeiros, sobretudo brasileiros. Há uma comunidade Brasileira jovem muito interessante, com uma linguagem fresca, que está a chegar cá, e isso vai influenciar de uma forma muito interessante as artes visuais, mas em relação a conseguir-se viver disso, e com a falta de apoios, vai ser muito difícil.

 

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