Pedro Pina – Entrevista

O MAPS – Mostra de Artes Performativas de Setúbal inicia-se esta semana e apresenta propostas variadas na área das artes performativas. Conversámos com o Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Setúbal, Pedro Pina, para saber um pouco mais sobre o evento.

Como nasceu o MAPS – Mostra de Artes Performativas de Setúbal?
O MAPS – Mostra de Artes Performativas de Setúbal surgiu no ano passado com a  vontade de dar palco e visibilidade aos artistas emergentes e à criação contemporânea nas mais diversas manifestações artísticas que integram as artes performativas.

Foi também uma forma de criar sinergias entre artistas da região e as companhias convidadas, descobrindo novos espaços de experimentação criativa e vontade de querer explorar outros que nunca nos ocorreriam no imediato.

Surgiu, ainda, da vontade de ir ao encontro dos públicos que não nos procuravam, que, por norma, saíam da cidade em busca de algo que os satisfizesse culturalmente, muitas das vezes não conhecendo o que se faz em Setúbal e o potencial criativo que existe.

Setúbal está a fervilhar com novos criativos, com uma vontade enorme de se fixarem e integrarem projetos culturais que já fazem parte da agenda ou de impulsionar outros que valorizem o seu panorama cultural e artístico.

O ponto de partida foi mostrar que a cultura pode acontecer em qualquer parte; apenas é necessário ter um olhar diferente sobre a cidade: seja num equipamento cultural, seja numa rua ou num armazém, a criatividade é mutável, flexível e adaptável.

Por último, consideramos importante, ainda mais no contexto atual, criar um espaço onde os criadores possam apresentar o seu trabalho, dando ao público a possibilidade de o conhecer e procurando contribuir, desta forma, para a reflexão social através das artes. Esta Mostra, que tem este ano a sua segunda edição, é ainda “jovem”, mas acreditamos que com esta aposta estamos a promover uma aproximação às Artes Performativas Contemporâneas.

O feedback do público e o interesse já demonstrado por esta edição incentiva-nos a continuar neste sentido.

Como integraram as inevitáveis limitações sanitárias na organização do evento?
As limitações, fruto da pandemia que todos afeta, apenas nos obrigam a ser mais vigilantes no cumprimento das diretrizes da Direção Geral de Saúde.

Acreditamos que o público está informado e atento, pois a fruição dos espetáculos em segurança e tranquilidade é um interesse comum.

O acesso ao MAPS é gratuito, mas implica a reserva prévia de bilhetes via correio eletrónico para qualquer sessão. Desta forma asseguramos que as lotações e distanciamento social  são cumpridos, sem que a qualidade e o usufruto de cada sessão fiquem em segundo plano.

No espaço público delimitaremos a área de atuação e os lugares na plateia estarão devidamente distanciados entre si. Incentivaremos ao uso da máscara, além de disponibilizarmos desinfetante para as mãos. O material promocional será entregue num saco de pano, de forma a não ser manuseado por várias pessoas. Nos espaços fechados serão adotadas todas as medidas anteriores, além de distintos percursos de circulações e de reduzido número de pessoas por sessão. Na maioria dos eventos optámos por fazer mais do que uma sessão, permitindo assim chegar a mais pessoas sem correr o risco de aglomeração.

Tem sido um desafio para a organização, mas temos vindo a ultrapassar os obstáculos com a colaboração de toda a nossa equipa e dos próprios artistas e companhias envolvidos.

Quais as principais linhas da programação deste ano?
Ainda que a maior parte da programação seja pensada com bastante antecedência, quase fomos surpreendidos pela constatação de que os diferentes projetos parecem dar corpo e voz ao momento atual que atravessamos. A corporalidade, a humanidade e a lucidez  são temas transversais nos projetos apresentados.

A Mostra inicia-se com a estreia de um projeto criado após os primeiros passos do desconfinamento, com um texto de Peter Handke na voz de João Lagarto e sob a direção de Jean-Paul Bucchieri. Além do desafio de criar em tempos de isolamento social, tem como génese uma reflexão sobre o conceito de duração que nos convida a repensar a ideia de tempo.

Outros projetos apresentam igualmente temas que estão na ordem do dia: Beatriz Dias, que incorpora a mulher ancestral, ao voltar às origens do género feminino, para perceber que elementos comportamentais ficaram perdidos no tempo.

O Teatro Só, de forma positiva e poética, retrata-nos a solidão e o envelhecimento, com um cenário magnífico que se funde com o espaço público, no Jardim do Bonfim, enquanto Ricardo Guerreiro Campos procura criar um arquivo imagético através da memória visual e procura colocar-nos numa posição de questionamento sobre como lidar com a multidão, após vários meses de isolamento social.

O Ateliê de Ópera de Setúbal canta, em 36 locais diferentes da cidade, o conceito de “Liberdade” em resultado do trabalho preparado durante os últimos meses, também ele refém do confinamento. Rita Vilhena & Yael Karavan refletem sobre o planeta e os efeitos da ação humana sobre ele, enquanto Ana Rita Teodoro remete-nos para a voz dos “fantasmas” do passado.

Tiago Bôto & Wagner Borges provocam a criação de um perfil ir(real) e o Teatro do Mar, através da imagem dos refugiados mostra-nos a natureza, comportamento e relações humanas quando subordinados a condições extremas. É o resultado de uma criação que inicia o seu processo em janeiro de 2020 através de uma coprodução com o Município de Setúbal e que agora é resgatada para apresentação pública. O Bando convida-nos a espreitar o projeto “Movimento Zebra”, que tem desenvolvido com a comunidade no âmbito do projeto “Setúbal, Território Intercultural” – Plano Municipal para a Integração de Migrantes.

Para os mais novos e famílias, há um convite da Catarina Requeijo e do Fernando Mota para viajar sem sair de casa (um conceito que nos acompanhou até há bem pouco tempo). A Catarina põe-nos a pensar sobre a bagagem que é realmente fundamental para cada um de nós e o Fernando faz o mesmo com música.

Ainda durante o percurso do MAPS –  em que convidaremos o público a percorrer um mapeamento artístico diversificado – teremos, sob a curadoria da FOmE, a instalação tridimensional do João Fortuna num dos espaços mais emblemáticos deste ciclo, os antigos Armazéns Papeis do Sado, que agora têm vindo a ganhar forma enquanto Centro de Criação Artística e a que chamámos “A Gráfica”.

Todos estes projetos têm uma linha comum. Aliás, a criação artística contemporânea não deve estar nem está, de todo, dissociada dos temas da atualidade. Quando falamos e reforçamos a importância da cultura na sociedade e no nosso percurso individual e coletivo, essa importância não passa apenas pelo sentido de pertença ou de identidade. É também a partir da cultura que o mundo em que vivemos passa a fazer sentido.

Haverá atividades paralelas?
Estabelecemos uma parceria com a Revista FOmE, que, além de ser nossa parceira na comunicação e assumir a curadoria de uma instalação, que estará patente n’A Gráfica, nos propôs dois encontros. O primeiro é dedicado ao tema “Programar em Espaços não convencionais” e decorrerá em 3 de julho com a presença de Rui Dâmaso (a Out.ra), João Leirão e Cristina Henriques (Moledo Acontece) e António Mestre ( MAU- Quinta do Anjo). A moderação fica a cargo de Margarida Mata.

O segundo encontro será sobre “Ser artista emergente na linha do Sado”, realiza-se  a 8 de julho e conta com a presença de Monstro Colectivo (Sérgio Braz d´almeida e João Bordeira), João Fortuna e Inês Pucarinho. A moderação fica a cargo de Patrícia Paixão. Ambas as conversas vão ter lugar no espaço d’A Gráfica – Centro de Criação Artística.

Achamos pertinente que, no âmbito do MAPS, existam atividades que complementam a programação e que convoquem os públicos a refletir e a discutir em conjunto com os criadores. A nossa intenção é que atividades “paralelas” também sejam desenvolvidas nas edições futuras.

Em que espaços poderemos assistir aos eventos?
Pelo segundo ano consecutivo, o MAPS ocupa A Gráfica – Centro de Criação Artística, um espaço que a Câmara Municipal de Setúbal está a desenvolver para que venha a ser um centro artístico dinâmico e aberto à cidade. Este espaço, que outrora foi conhecido como Armazéns dos Papéis do Sado (uma das primeiras gráficas a surgir em Setúbal),  pretende vir a ser um local onde se privilegia o momento de criação, em que os artistas de diferentes manifestações artísticas têm acesso a locais de trabalho e a possibilidade de cruzar as suas práticas com outras equipas e estabelecer parcerias. Queremos que seja um local inspirador onde se criam sinergias que possibilitem resultados concretos, não só para os projetos aqui desenvolvidos, mas também para a cidade e seus públicos.

É para nós importante que A Gráfica seja a casa-mãe desta Mostra, que, por si só, já indica quais as premissas que pretendemos desenvolver neste espaço, que, inevitavelmente, será criado e concebido junto dos criadores, artistas e comunidade.

O Jardim do Bonfim será outro dos locais de apresentação no dia 4 de julho, onde a amplitude do espaço e a envolvência é ideal para uma programação mais direcionada para famílias.

A Praça do Bocage, local central e emblemático da cidade, recebe dois projetos (Teatro do Mar e Ricardo Guerreiro Campos) e, por último, temos mais 36 locais da Baixa e Centro Histórico onde se vai convidar o público a fazer um percurso e a ouvir o Ateliê de Ópera de Setúbal.

Tal como o nome indica, este ciclo de programação é um mapa que convida a conhecer vários espaços não convencionais da cidade, bem como à apropriação do espaço público, enquanto local de fruição cultural e difusão artística.

Qual a visão do município de Setúbal sobre a cultura em 2020?
Esta é uma questão com que nos temos deparado desde o surto que se fez sentir no primeiro trimestre do ano.

Em 2019 desenvolvemos um plano assente numa lógica de enaltecer a criação artística no concelho, tendo como pano de fundo uma cidade inspiradora, convidando várias estruturas e artistas através de residências artísticas, privilegiando o contacto e envolvimento da comunidade. Quando iniciámos o caminho de  aprofundar a relação e aproximação às artes, a pandemia surge como elemento desestabilizador de todos os objetivos traçados. Procurámos, no entanto, reinventar o nosso trabalho, mesmo que de forma “tímida” estejamos a retomar as premissas com que nos tínhamos comprometido.

Mantivemos a programação, mesmo que on-line, em vários eventos que assim o permitiram; mantivemos os protocolos firmados com várias estruturas culturais e nacionais; não quisemos deixar de dar resposta ao público, mas acima de tudo, dentro das limitações que se foram cruzando, mantivemos o contacto e parceria com os profissionais da cultura.

Continuamos a retomar os objetivos traçados, a caminhar para uma cidade de criação artística, a retomar residências, a reagendar toda a programação prevista até ao primeiro trimestre de 2021. Este tempo, e este ano, ensinou-nos a readaptar-nos às circunstâncias. Tínhamos uma preocupação sobre o comportamento dos públicos, sobre qual o seu sentimento de insegurança e adesão, mas, desde logo, foi dissipada com o interesse incessante de querer participar na oferta cultural iniciada em junho.

Temos uma preocupação acrescida com os profissionais da área cultural e, por isso, é importante continuar a encontrar soluções, e não obstáculos, que permitam que a criação e a circulação artística se mantenham, mesmo com os vários constrangimentos que se avizinham.

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