Pedro Sena Nunes – Entrevista

De 15 de novembro a 15 de dezembro tem lugar a 13ª edição do InShadow que conta com várias propostas e encontros imprevisíveis entre cinema, dança e tecnologia. InShadow destaca-se internacionalmente na área do vídeo-dança e performance assumindo um caminho essencialmente de risco no cruzamento de áreas artísticas do corpo e da imagem. Conversámos com Pedro Sena Nunes, Diretor Artístico do festival.

Que balanço se pode fazer de 12 edições do Festival InShadow?
O festival tem sido um verdadeiro espaço de encontros, neste caso, do cinema à procura da dança, focadíssimo no movimento que enuncia um vice-versa.

Estes têm sido anos de franca descoberta e de encontro com as mais diferentes valências da criação contemporânea, o exercício de trazer o cruzamento disciplinar ao público faz deste festival um caso concreto da relevância e do impacto da dança na sua relação com o cinema, e reciprocamente.

O Festival InShadow tem renovado o seu lugar e as energias do seu legado, tem convidado as novas gerações para uma reflexão dos valores que se podem associar a uma memória que combina o passado com o futuro e tem tido este movimento pendular.

A evolução técnica, a carga narrativa dos trabalhos que vamos exibindo, são prova da aposta que temos procurado ao longo dos anos. Trazemos o cruzamento do corpo com a imagem, ancorados na tecnologia, à cidade de Lisboa, e depois à sua repercussão pelo mundo onde temos asseguradas várias parceiras.

O ano passado fomos obrigados a um abrandamento rítmico, este ano procuramos a continuação de um InShadow, queremos que esta edição continue a explorar atmosferas transdisciplinares. Novas ideias em torno de estilos e soluções estéticas e técnicas de representação do corpo no ecrã, no palco e noutros espaços de actuação. Géneros e linguagens cruzam-se em vídeos, espectáculos e performances, instalações e exposições, que confluem por atractividade ou por contraste na dinâmica da programação.

Perdemos há uns anos o São Luiz Teatro Municipal como co-produtor, essencial, mas muito agradecemos a todos os que nos têm apoiado para que o festival mantenha a sua razão de existir, bem como a todos os que nos apoiam ao nível dos prémios e permitem fortalecer cada vez mais o festival.

O que encontramos na interseção entre cinema, dança e tecnologia?
Com o nascimento do cinema, a dança passou a influenciar o modo como o cinema a filmava, e o cinema acabou igualmente por exercer uma atracção sobre a dança. A dança e o cinema são duas das artes que melhor caracterizam o século XX: o século do movimento.

É especialmente notória a relação destas duas artes com a evolução tecnológica. As mais recentes tecnologias digitais têm permitido a que muitos novos autores, e especialmente coreógrafos se juntem a equipas de cinema na exploração deste território híbrido.

O “slogan” do festival é “o corpo imagina-se na sombra”. Como o interpretas?
Esta sombra é um lugar habitado pela luz, onde convocamos o corpo a participar. O festival procura colocar o corpo no centro da acção, um lugar da imaginação, onde o espectador pode projectar a sua sombra numa dimensão performativa.

Quais os grandes temas presentes no Festival?
Os temas de um festival que se quer de vanguarda e atento às transformações da sociedade acabam por ser um espelho dos tempos em que se insere. Neste sentido, na presente edição, encontramos, acima de tudo, uma sociedade revitalizada por um fervor pós-pandémico, uma vontade renovada do toque e da exploração, como se de uma redescoberta se tratasse. Pelo meio, e de forma mais demarcada, outros temas vão florescendo, com diversos filmes a ressaltar algumas das questões mais prementes que a sociedade enfrenta nos dias que correm.

Foi por esta via que nos chegaram propostas bastante criativas a temas como, por exemplo, as alterações climáticas, ou a luta por uma igualdade racial e de género. O facto de chegarem um pouco de todo o mundo apenas vem enriquecer a pluralidade de visões e abordagens aos mesmos. Por fim, reunimos todo um conjunto de filmes que remetem para a própria identidade do festival, ao trabalhar a natureza da relação entre o corpo em movimento e as tecnologias, ou ao questionar-se relativamente ao próprio conceito de sombra.

Fala-nos um pouco das Competições existentes no evento
O InShadow tem três categorias nas principais competições do Festival, a Competição Internacional de Vídeo-Dança, Documentário e filmes de Animação.

A Competição Internacional de vídeo-dança é uma das secções de maior relevância pelas múltiplas nacionalidades e perspectivas que convoca, somou este ano mais de 300 candidaturas de 47 países.

Pretendemos mostrar o panorama de vanguarda do universo do vídeo-dança, promovendo o diálogo e acompanhamento dos realizadores das obras a concurso, com uma perspectiva e curadoria acrescida.

A Competição Internacional de Documentário é uma secção dedicada à exibição de documentários de processos criativos, destacando este mérito como meritório de ponderação artística e difusão pelo grande público. São decursos de criação, experiências artísticas e outras explorações e reflexões documentais em torno dos temas e relações entre o corpo, dança, performance e tecnologia.

A Competição Internacional de Filmes de Animação contempla filmes de animação centrados na representação do corpo através da dança, criteriosamente seleccionados para as faixas etárias do pré-escolar ao secundário.

As secções competitivas são pautadas por diferentes grupos de jurados. Para o videodança temos vários grupos de júris muito vastos e divergentes em género, idade, nacionalidade e ocupação e que contam com um total de 16 jurados, e o público presente numa das sessões, que avaliam e premeiam os filmes em diferentes categorias.

No Documentário, o Júri é composto por três elementos da comunidade, representativos de três gerações, com experiências profissionais diversas e não necessariamente próximas do meio artístico e o Júri da Animação é formado por alunos das Escolas participantes do LittleShadow.

A que eventos paralelos poderemos assistir?
O Festival InShadow deseja ser um espaço aberto, um lugar dos intervenientes: artistas e espectadores.

Mantemos o festival com uma narrativa programática muito concreta, bastante diversificada, e além das competições internacionais teremos workshops, masterclasses, performances, exposições de fotografia, instalações de vídeo e interactivas.

A programação arranca no Museu das Comunicações com uma masterclass com Cristina Gil sobre o tema DEAF CULTURAL EMPOWERMENT THROUGH DEAFTOPIAS.

Na Cisterna da Faculdade de Belas Artes, Rita Vilhena e Yael Karavan apresentam a performance MA+MA ficando posteriormente uma instalação performativa do projecto Pele a Nossa Pele.

Conta também com 2 workshops de escrita, dados pela espanhola Salud Lopez e por Conceição Garcia, em 4 momentos distintos e para deferentes públicos, na Biblioteca de Alcântara. Também Salud Lopez apresentará a performance Danzáfono, dando assim destaque à sua participação enquanto artista residente na Biblioteca de Alcântara.

Na galeria da Livraria Ler Devagar, no Lx Factory, Maddalena Ugolini e a Dança Imaginal apresentam a performance Alba.

O público é convidado, da mesma forma, a visitar várias exposições de fotografia e instalações de vídeo, nas galerias do Espaço Cultural de Santa Catarina, Espaço Cultural das Mercês, Cisterna da Faculdade de Belas Artes, Note Galeria de Arquitectura e Livraria Ler Devagar.

A Competição Internacional de Documentário decorre entre de 29 Novembro e 2 Dezembro, no Museu das Comunicações, enquanto que a Competição Internacional de Vídeo-Dança decorre no Teatro do Bairro de 7 a 10 de Dezembro.

Por fim, a entrega de prémios das Competições oficiais do Festival, decorre no dia 11 de Dezembro também no Teatro do Bairro.

O que esperar da homenagem a Jorge Salavisa?
Um momento com várias linhas de reflexão: o que o festival tem feito por este namoro entre dança e cinema, filmes do Fernando Lopes e do João Salaviza muito centrados numa das coreógrafas da sua eleição: Pina Baush, um filme documental e outro ficcionado, e por último um retrato documental do Jorge Salavisa através do olhar do realizador Marco Martins.

Temos vários convidados para nos ajudarem a reflectir sobre o festival e sobre a importância do Jorge Salavisa na cultura nacional, são eles: Maria João Mayer, Maria José Fazenda, entre outros a confirmar. E os realizadores Renata Ferraz e João Afonso Vaz para testemunharem a experiência do festival.

O Jorge foi uma figura incontornável da dança e que contribuiu para o nascimento do Festival InShadow. Muito lhe devemos por esse olhar visionário e daí merecer este lugar de destaque.

Peço-te um desejo para o Cinema, para os tempos mais próximos
Estamos a atravessar uma fase extremamente complexa, do ponto de vista da produção nada está fácil, mas a distribuição está também em grande transformação. A lei nunca facilita os mais desfavorecidos, isso é preocupante. Os mais novos encontram muitas barreiras, as organizações estão bem cientes das necessidades, mas o poder não está a conseguir reagir em tempo útil. É preciso entrar em acção e trabalhar muito todos os dias pela dignificação da área. É preciso mais entendimento inter-geracional. O futuro é aqui e agora.

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