Perguntório #07: Quais os teus 3 desejos para a Cultura em 2020?

E assim, sem sabermos bem como, já estamos no ano de 2020 a todo o gás. Uma nova década começa, cheia de promessa e de incerteza. O Mundo continua um lugar estranho, mas é nele que temos de viver. Retomamos, depois de uma pausa, a rubrica “Perguntório”, que tão bom acolhimento teve, pedindo a cinco agentes culturais que formulem os seus desejos para a cultura em 2020. Tentámos que os testemunhos viessem de convidados com perfis diferentes, mas todos dentro do meio cultural.

Maria João Guardão (Jornalista e realizadora)

– coração, cabeça e estômago

Coração
para ter desejo de futuro. para juntar vontades. para construir memória com os que vieram antes de nós e com os que estão agora a chegar. para alicerçar políticas maiores que uma legislatura. para alargar o horizonte dos possíveis. para conhecer a urgência e a exaltação.

Cabeça
para imaginar políticas consistentes, vontades urgentes, práticas consequentes para as artes e para os artistas. para inventar pensamentos claros. para construir redes e fazer delas bom uso. para ver longe. para apostar no que é incerto, no que é diverso.

Estômago
para resistir. para não desistir. para fazer da alegria a coisa mais séria. para continuar a reflectir e a agir sobre mundo a partir de um pensamento artístico. para desenhar e pôr em marcha orçamentos à medida da imensa capacidade de imaginação, resiliência e realização dos artistas portugueses.
E mais do que 1% para a Cultura eu quero 0,50% para a criação contemporânea.

António da Câmara Manuel (Director do Temps d’Images e do FUSO)

Sempre fui uma pessoa que nunca se preocupou com os desejos do futuro. Esqueço-me sempre do desejo obrigatório quando a passagem do ano chega e quando me obrigam, antes de trincar a vela no meu aniversário, a pedir um desejo.

Pediram-me agora três desejos para 2020. Aqui vão quatro.

Mais presença nos nossos espaços públicos de Pedro Cabrita, Reis e outros artistas da criação contemporânea, recheados de tempos, imagens, cumplicidades, bocas, pontes, gaivotas e outras coisas indisciplinadas.

Sucesso para o Delfim Sardo no Centro Cultural de Belém.

Continuação da programação de excelência do Teatro Nacional D. Maria II e paz no mundo.

Beatriz Brás (Actriz e membro da companhia auéééu – Teatro)

Quando me desafiaram a pensar no que desejava para a cultura em 2020, a primeira coisa em que pensei foi: o que é a cultura? Sendo um termo tão abrangente e rico, que se refere tanto à alheira de Trás-os-Montes como às vigas do Pedro Cabrita Reis, passando pelas missas aos domingos e pelo tapete de Arraiolos, senti necessidade de situar dentro deste espectro o meu destinatário. Uma vez que é através da «arte» (ui, não me escapo dos chavões…) que tenho vindo a tentar cultivar alguma coisa (nem que seja para mim), fez-me sentido ser esta a vertente cultural a que dirijo o meu desejo.

O meu desejo tem a ver, essencialmente, com possibilidade de escolha – tanto para o público como para os artistas. Refiro-me à diversidade do encontro, à diversidade na oferta daquilo que se dá a ver – objetos artísticos que correspondem a diferentes lógicas, estéticas, políticas e ideologias; que tanto pretendem entreter como aborrecer, lucrar como contrariar as leis do mercado; que nada pretendem, que provocam, que surpreendem, que dão a contemplar, que causam estranhamento ou espanto. O que desejo é que exista espaço para o que se quiser inventar. Que não se asfixie quem não quer corresponder ao que domina e é óbvio. Que se criem e reinventem condições para este encontro. Que exista espaço e dinheiro. Pois, que exista dinheiro para se pensar para além dele. Que se invista a fundo perdido. É esse o gesto – um gesto desgarrado, que não teme a inutilidade, a ineficácia e as formas soltas; um gesto disponível, vagabundo e corajoso. Que este diálogo horizontal se cultive cada vez mais, entre mais e mais pessoas. Que o olhar do outro nos desvie do caminho, é isso que se cultiva – a possibilidade de vermos mais do que veríamos sozinhos.

Miguel Seabra (Actor e Encenador, Co-Director Artístico do Teatro Meridional)

Todos sabemos que a cultura (ainda) é um parente pobre dentro do panorama social e político português e que (ainda) ocupa um espaço muito exíguo no respectivo orçamento geral do estado. Todos sabemos, todos.

Dito isto, respondo à vossa questão, citando um poema da artista brasileira Zélia Duncan.

“Vida em Branco”

Você não precisa de artistas?
Então me devolve os momentos bons.
Os versos roubados de nós.
As cores do seu caminho.
Arranca o rádio do seu carro, destrói a caixa de som.
Joga fora os instrumentos e todos aqueles quadros, deixa as paredes em branco, assim como a sua cabeça.
Seu cérebro cimento, silêncio, cheio de ódio.
Armas para dormir, nenhuma canção de ninar, e suas crianças em guarda, esperando a hora incerta para mandar ou receber rajadas.

Você não precisa de artistas?
Então fecha os olhos, mora no breu.
Esquece o que a arte te deu, finge que não te deu nada. Nenhum som, nenhuma cor, nenhuma flor na sua blusa. Nem Van Gogh, nem Tom Jobim, nem Gonzaga, nem Diadorim. Você vai rimar com números.
Vai dormir com raiva, e acordar sem sonhos, sem nada.
E esse vazio no seu peito não tem refrão para dar jeito, não tem balé para bailar.

Você não precisa de artistas?
Então nos perca de vista. Nos deixe de fora desse seu mundo perverso, sem graça, sem alma. Bom dia para quem tem alma!”

Statt Miller (Artista/ Crítica de Teatro)

Não consigo pensar em desejos para a cultura sem pensar em Teatro, que é de onde venho.
Não consigo pensar em três desejos para o Teatro sem pensar que três desejos apenas não são suficientes.
Não consigo desejar sem pensar em Utopias, mas se pensarmos que Utopias têm como significado um lugar ideal que não é o de agora, mas que pode ser construído no futuro, aí, nesse sítio, para esse lugar, eu consigo desejar:

Desejo que o Teatro não continue refém de sistemas obsoletos que determinam a saúde ou a extinção de companhias de teatro;
Desejo que existam mais espaços gratuitos ou a preços reduzidos onde as companhias sem casa ou grupos recém-nascidos tenham a oportunidade de ensaiar e/ou experimentar as suas propostas;
Desejo que os profissionais de Teatro sejam remunerados dignamente pelo seu trabalho, desejo que os actores possam ter UM emprego, que é aquele que os leva para o palco, e que possam viver do seu labor como artista. Desejo, por isto, que a condição do actor não continue a ser a do “sobrevivente” ou do “teimoso”. Ninguém é actor, ou artista, porque a isso foi obrigado.
Desejo a criação do estatuto do artista.
Desejo a Ordem do artista.

Desejo, sobretudo, que continuemos a acreditar:
Os actores são como os dragões, são como os unicórnios, são como Calibã, são como as sereias, são como os monstros dentro do armário, são como Godot e como o ciúme de Iago: só existem enquanto alguém acreditar neles. Se mais ninguém acreditar, eles deixam de existir. E como apesar de tudo não são como as fadas, não vale a pena bater palmas para que ressuscitem.
Acreditar não é tudo, nem será suficiente, mas temos que acreditar primeiro.

(foto de Max van den Oetelaar)

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