Perguntório #08: Pode-se separar a arte do artista?

Podemos olhar para o objecto artístico sem olhar para o artista? É possível dissociar um do outro? Há inúmeros casos de artistas com percursos e atitudes no mínimo questionáveis, que produziram obras de referência a nível mundial. Colocámos esta difícil pergunta a 5 agentes culturais portugueses. As respostas são variadas e todas dão que pensar. Aqui ficam.

Ana Pais (Bolseira FCT de pós-doutoramento, dramaturgista e curadora)

Na retrospectiva dedicada a Paula Rego, no CCB, em 1997, uma deliciosa entrevista em vídeo desvenda as fases da sua carreira, os seus processos, a sua vida. Magnética, Paula Rego fala da sua obra como um percurso indissoluvelmente entrecruzado com acontecimentos mundanos e os seus afectos. Recordo um momento particularmente impressionante. Com a sua cândida sabedoria, Paula Rego explica que decidiu recortar as figuras que pintava por ter sido tomada por um ataque de ciúmes do seu marido. A tesoura vingadora era uma reacção à vida, dando origem a uma nova fase do seu trabalho – a colagem, com Os cães de Barcelona (1965).

Naturalmente, mesmo que não conheçamos este episódio, a obra de Paula Rego pode ser fruída e compreendida, isto é, não precisamos de conhecer a biografia ou o contexto sociocultural do artista para adivinhar a sua intenção. A obra tem uma vida própria, aberta a interpretações plurais.

Também a própria vida do artista pode converter-se em matéria artística, tornar-se obra. Quando a sua filha nasceu, Raquel Castro fez um diário em vídeo do seu primeiro ano de vida, para que visse quando crescesse. Esta era a base do espectáculo Os Dias São Connosco (2013). No mesmo ano, criou uma exposição/performance intitulada Uma Retrospectiva, com Mariana Tengner Barros, em torno das figuras reais e ficcionadas das artistas, “wannabes” da performance arte portuguesa. Agora, leva à cena A Morte de Raquel, em que a sua morte imaginada é motivo de reflexão sobre o presente e as possibilidades infinitas de futuro. Aqui, a artista é inseparável da arte. A não ser que esteja a fazer teatro.

Pedro Faro (Historiador da Arte)

Em poucas palavras, respondo que se pode e que não se pode. Depende das circunstâncias, como em tudo, e do tipo de abordagem que se pretende fazer sobre determinada obra. De qualquer forma, genericamente falando, as criações artísticas são sempre, mesmo quando não se consegue identificar, obra de umx autorx – individual ou colectivo. Por vezes, poderão estar inscritas numa linhagem autoral, mais e menos longa, que poderá interessar a mais e menos especialistas. A história das metodologias na História da Arte alternou, ao longo dos tempos, mais e menos, entre as abordagens mais biográficas ou entre a possibilidade extrema de uma História da Arte sem nomes. Como alguém que trabalha no âmbito daquilo que se designa como “arte contemporânea” interessa-me trabalhar e criar afinidades com artistas a partir daquilo que vão criando. Há obras que nos levam a querer saber mais sobre umx artista. Há artistas que nos levam a querer conhecer mais obras.

Resumidamente, poderia interessar-me um novo debate que possa surgir da releitura de “O que é um autor” de Michel Foucault, e “A Morte do Autor”, de Roland Barthes? Talvez, mas não é uma questão que neste momento me pareça produtiva ou que me motive muito. Será mais necessário reflectir sobre modos éticos e essenciais de subsistência dxs artistas , sem os quais não haverá arte.

Miguel Loureiro (Actor e Encenador)

É uma pergunta para qual não tenho resposta. Por um lado se pensarmos em Ezra Pound ou em Leni Riefenstahl, eu diria que sim, a obra sobrevive aos passos em falso dos artistas, por outro lado, eu, e num exemplo muito pitoresco, não aguento ouvir música tocada por pianistas feios. Escolho o que quero ver na Gulbenkian por exemplo pela fotografia do pianista, mas apenas neste instrumento, não sei porquê. O mesmo aconteceu quando em 1991 tomei contacto pela primeira vez com uma fotografia da Clarice Lispector, e quis num repente ler tudo o que escrevera aquele rosto, aquela expressão. O mesmo quando dizem que não gostam de um trabalho meu ou onde participo, sei que estão a negar-me como pessoa e não apenas a esse trabalho. É muito complicado, não sei responder com propriedade.

Maria João Garcia (Produtora e assistente de Direcção do projecto Casa da Dança)

A pergunta fez-me pensar na quantidade de vezes que sou interpelada por uma obra de arte sem saber da sua autoria ou do seu contexto. Mas queremos ou podemos fazer isso? A separação é ainda mais discutível se implicar juízos éticos. Ou seja, podemos, por exemplo, admirar as imagens de Leni Riefenstahl sem recordar o que ajudou a propagar? Ser artista é estar sujeito ao mesmo escrutínio social que qualquer outra pessoa. Se cada ser humano é livre de estabelecer a relação que quiser com os mistérios, discursos e estética da arte, nunca devemos deixar de ter uma posição crítica face ao conteúdo veiculado e à postura ética dos artistas.

Ivo Saraiva e Silva (Ator e criador, co-Diretor artístico dos SillySeason)

Aquilo que me motiva enquanto artista é a possibilidade de desdobrar as minhas experiências individuais em dimensões especulativas e espetaculares de carácter político, social, histórico e artístico. É desta forma que intervenho – ou antes, procuro intervir – de um modo mais fértil e arrojado no mundo que me envolve, com todos os elementos que lhe são inerentes. A eventualidade de uma obra que problematiza é a contingência de uma dialética que oscila entre o discurso do particular e o discurso do universal, constantemente: um discurso que me convoca a mim a par de um outro mais amplo que diz respeito às comunidades em que me insiro. Em último caso, à humanidade, no geral. Por isso tenho de acreditar – e acredito veementemente – que o artista nunca se separa da sua obra. Ele acompanha a sua época e questiona o seu futuro. As temáticas que o sondam nascem de vários polos: da racionalização dos seus legados individual e coletivo a par de um trabalho de apropriação do quotidiano presente; e, é claro, da contaminação pelas suas referências particulares e da plasticização de um estilo singular que procura fixar. Este processo funda um pensamento crítico que anima a obra na investigação poética e intelectual dos contextos correntes. Trata-se no fundo de, ao invés de espelhar o natural, o artista inventar a sua realidade privada e tentar projetá-la na própria vivência mundana. Por analogia, está o mito de Pigmalião: o escultor que cria uma estátua, e a estátua torna-se mulher.

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(foto de Eddy Klaus)

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