Perguntório #09: O que pode o sector cultural fazer para enfrentar a pandemia de Covid-19?

Vivemos tempos difíceis. A ameaça do Covid-19 já é bem mais do que uma ameaça, e as nossas vidas estão a ser afectadas por ele. O sector cultural não é excepção. Os espaços culturais foram fechados e toda a sua actividade suspensa. Pensaram-se alternativas mais seguras. O Coffeepaste reuniu uma lista de eventos online que actualiza à medida que vá sabendo de novas iniciativas. Todos temos de pensar como reagir. Nesse sentido, perguntámos a várias personalidades da nossa cena, o que pode o sector fazer para enfrentar esta pandemia. Aqui ficam as suas respostas.

Levi Martins (Director da Companhia Mascarenhas-Martins)

A minha filha tem um ano e meio e gosta muito de música. Temos tentado mostrar-lhe um pouco de tudo, de Miles Davis a José Mário Branco, da Radar, que ouvimos no carro, a música erudita. É deliberada a opção pelo eclectismo, achamos que talvez ajude a alargar os seus gostos e abertura de espírito, por oposição à tendência para os sentidos únicos. Calhou, nestes dias de reclusão, mostrar-lhe a Hey Jude, dos Beatles, cujo filme promocional está disponível no Youtube. A canção, como se sabe, culmina naquela melodia que muitos devem achar intragável, mas que, mesmo que assim seja, não devem conseguir deixar de trautear com prazer, sem darem por isso. Adiante. Como seria de esperar, agora, cada vez que vê um ecrã de telemóvel ou um computador, pede para repetir a experiência. Às vezes lá conseguimos deixar correr mais uma ou outra canção sem ter de voltar atrás. Onde quero chegar é, no entanto, ao filme promocional, que começa por ser apenas o registo de uma performance/playback com os quatro músicos, mas a certa altura modifica-se. Naquele momento determinante em que abandonamos a estrutura verso-refrão-verso-refrão e passamos para os quatro minutos de loop melódico, o estúdio é invadido por centenas de pessoas num gesto simbólico de comunhão multicultural, em que se canta em uníssono e se posa para uma imagem-exemplo dos ideais dos anos 60. Construção pensada para ficar bem ou gesto espontâneo, a verdade é que nestes tempos negros que ameaçam todas as comunidades do mundo e colocam à prova a nossa capacidade de união, estar ali, com a minha filha ao colo, a olhar para aquele momento e a escutar aquela melodia, fez-me pensar que podia ser ali que se encontrava uma das respostas possíveis a esta pergunta.

Martim Sousa Tavares (Maestro, Director da Orquestra Sem Fronteiras)

Não sinto que possa responder pelo “sector cultural”, porque o meio é difuso e feito de mil casos diferentes. No entanto, a título pessoal e enquanto director da Orquestra Sem Fronteiras, garanto que todos os esforços estão a ser feitos para repor concertos, para que não se trate de cancelamentos, mas sim adiamentos, o que sempre poderá atenuar o incómodo dos nossos músicos.

Enquanto artistas, espero que esse cuidado esteja a ser tomado pelas organizações que contavam connosco para eventos entretanto cancelados. Seria bom sentir que o nosso trabalho e situação merecem essa consideração.

Acredito que podemos exigir medidas atenuantes ao enorme desfalque que estamos a sofrer, mas não nos iludamos. Tal como nós, outros sectores estão em recessão (uns mais, outros menos) e respectivos lobbies e sindicatos já estão a queixar-se em voz alta.

Sabendo que o estado terá de acudir a todos, por isso sejamos realistas e estejamos preparados.

Por último, quem puder, siga o exemplo de Boccaccio e aproveite este surto pandémico para a criação de qualquer coisa. Eu sei que muitos estão desanimados, zangados e preocupados com razão. Mas quantas vezes nos é imposto o tempo livre, que é uma coisa sem preço?

Boccaccio escreveu o Decameron a propósito de uma quarentena de peste negra nos arredores de Florença.

Eu já escolhi ao que me dedicar e fico genuinamente curioso de ver o que os meus colegas mais resilientes vão produzir nos próximos tempos. E não, não estou a falar de barriga cheia. A humanidade já passou por catástrofes piores e isto não será (ainda) o fim do mundo.

Por último, devemos todos, independentemente da ocupação, fazer a nossa parte e cumprir todas as medidas de segurança.

Mia Tomé (Actriz-autora)

É importante manter a calma e a esperança, para que a desmotivação não nos deprima. Manter a lucidez para poder agir dentro das nossas possibilidades: continuar a produzir o que nos for possível dentro de casa, quem necessitar solicitar atempadamente o apoio que o estado poderá dar (o Expresso lançou a noticia)
Usar a tecnologia para que alguma arte possa continuar a acontecer, e acima de tudo: mantermo-nos unidos, para que nasçam as melhores soluções.
Vamos ser conscientes e esperar (apesar de tanta inquietação).

Tânia M Guerreiro (Produtora cultural)

O sector cultural pode fazer o que sempre fez, criar aproximações, relações, pensamento.
No sector das artes performativas, onde me encontro, a presença e o contacto são essenciais para se estabelecer a relação, é essencial continuar este acto, tornando-se um acto de resistência e de amor.
É necessário focar no essencial da relação com a arte – a presença, a verdadeira e total presença. Como no amor, a grande diferença entre o amor e sexo está na presença, na entrega. É a mesma coisa em qualquer outro acto também.

Penso que este momento nos leva a refletir sobre se esta relação se esta a fazer. Existe mesmo presença no acto e na nossa relação com a arte?

Nos últimos tempos, esta questão tem estado muito forte em mim, naqueles momentos na plateia em que senti que eu não estou lá, os performers não estavam lá, e o público não está lá. Não se faz o clique, não há arte. Não acontece.
Penso também nos outros espectáculos, em que a presença era de tal ordem que me levaram à transcendência, e o público entre lagrimas, arrepios e tensão estava lá.
É como nas relações, um acto conjunto de responsabilidades conjuntas.

É obvio que tudo isto é um reflexo da sociedade, um espelho do mundo, mas a arte devia ter o poder de transformação. Em que momento é que este poder mudou? O que podemos fazer para voltar a criar essa ligação?
Pensar no tempo para a construção, para a conecção? Pensar a criação e não na comercialização?

A arte devia ser aquele momento em que tudo para! Em que nos preparamos para ser mudados, despedidos, tocados, penetrados. Em que estamos disponíveis para viver intensamente cada instante.

Este isolamento provocado lembra-nos aquilo que já existe. Um isolamento que é apenas uma metáfora da separação na sociedade, da superficialidade, do corpo presente e da alma morta, da falta de verdade da relação, da ausência do verdadeiro toque, da intimidade e ainda, o mais importante: a presença e consciência total em cada acto.

Este período de isolamento pode recordar-nos o quanto é importante o contato com o outro.

É importante continuar a lembrar isto através de todos os actos de arte, através de todos os actos de amor.
É assim que sobrevivemos. E só assim existimos.

Ana Rocha (mediadora cultural, entre outras coisas)

“To dance is to hope and it takes courage to hope”

Ora o que pode o sector cultural fazer para enfrentar a pandemia de Covid-19, é uma boa pergunta. Mas ao mesmo tempo fica a pergunta em suspenso, pois penso referes-te ao sector para consigo próprio ou para com o que o rodeia. E aí vem com certitude que o dito sector, que é muito mais do que isso, tem vindo a ser esta ferramenta fundamental para a construção, e evolução da consciência social, histórica, humana e o seu sentido de comunidade.

Em tempos de abrandamento forçado à escala mundial, (re)surgem -me algumas coisas, umas talvez demasiado “futuristas” para este tempo (ou realistas), e outras do foro mais evidente e prático. Por um lado, observo a palavra teletrabalho, e olho em torno e entendo novamente, que esse “modelo”, do “caixeiro” agora pouco viajante, já é uma prática do fazer na nossa área. A intermitência, a fragilidade, a instabilidade e imprevisibilidade constante é o nosso tecto sem chão. O estarmos a viver de projecto em projecto, sem a certeza do “amanhã”. No entanto, nesta profissão “de risco”, visionamos e testamos o nosso tempo e espaço, e o daqueles que nos rodeiam, tentamos estar com e atentos ao dito contexto.

No entanto também, surgem aqui com o Covid-19 “às nossas portas”, na tona do real o que se passa dentro de nossas “casas”, na Cultura, e nos pilares fundamentais desse mesmo sector, desde o técnico, ao criador, todos eles elementos fulcrais para o desenvolvimento da criação artística.

Recibos verdes, contribuições, remunerações, um combate constante sobre a transparência, e eis que medidas foram tomadas pelo Governo Português (a ver o novo decreto lei que saiu entre 13 \ 14 de Março’20). Aguardamos para entender como será efectuado este procedimento.

Vemos em paralelo nas redes sociais, a partilha e a interajuda a tomar o seu lugar (#staythefuckhome, #ficaatentopelosoutros, #isolamentovoluntário, #entreajudapandemia, #intermitentes e covid, #acessoculturacovi19, festivais de artes performativas on-line como o primeiro em Itália e aqui em Portugal também a acontecer com o Quarentena, organizado pela Raquel André), eventos culturais que passam do público para o cenário privado \ público sendo transmitidos em tempo real on-line, enquanto os espaços de cultura e os seus promotores (institucionais e organizações independentes) vêem-se forçados a cancelar e \ ou adiar o que estava já agendado. O posicionamento dos seus promotores, conscientes da rede que afectam, na sequência destes cancelamentos, como o exemplo do Festival Tremor e do Teatro D. Maria II, entre outros. O impacto que isto tem? O que pode fazer o sector? Pergunto o que podem fazer todos os outros sectores em diálogo mais claro, consciente e sólido com o sector cultural?

É nítido, o que já era claro como a água que sai da fonte.
É este o momento para criar efectivamente um reforço.
Encarar e declarar este sector tão importante e relevante como qualquer outro.
Duas palavras, que devem ser projectadas no agora: necessitamos de meios substâncias de manutenção e continuidade.
Não me refiro a um copy\paste de modelos internacionais (francês, holandês ou belga), mas pensar realmente na criação dessa manutenção e continuidade, no sector cultural e para cada profissional desta mesma área.
Num estado democrata, somos profissionais independentes, a tentar sobreviver num liberalismo que se tornou repressivo, com a sua híper velocidade, com o seu devorar ávido da múltipla produção.

Cada um de nós, representa um infinito conjunto de capacidades que este sistema capitalista em que vivemos, é incapaz de encapsular, porque por mais que tente não pertencemos a um sistema piramidal e hierárquico. É contra natura. Somos “periféricos”, somos produtores com uma capacidade de resolução “rápida”, determinação exacta detectando os problemas a nível local, pois é com ele, o contexto que lidamos constantemente. As organizações de autoridade mudam, mas nós estamos “sempre aqui”, antes e depois.
Este estado de alerta, com a presença do Covid-19, vem dar espaço, para que organizações radiculares, mais difusas, mas mais capazes possam dar resposta, multiplicando-se em sincronicidade e abundância.

Seja na criação de um fundo solidário, na partilha de recursos, numa consciência comunitária e de sustentabilidade, na construção de um conjunto de instrumentos legais que possam reforçar as práticas artísticas e reformular o que é isto do acompanhamento, do estado de estar acompanhado, da companhia e da empatia social.

O momento é agora, e estar neste escrever da história, ao vivo e a cores, permite que o sector cultural repense efectivamente o seu papel na sociedade como cidadão, colocando um foco urgente no seu lugar e acção política.
E isso, acontece no acto consciente da partilha e do diálogo em rede, numa estrutura radicular, difusa, munida de mediação, mas eficaz como as plantas.

Leituras para estes dias :: “Secret life of plants”, de Peter Tompkins; “Life user’s manual”, de George Perec; “A nação das plantas, de Stefano Mancuso; Nature, Ralph Waldo Emerson, “The work of art in mechanical reproduction, de Walter Benjamin, e “The murmuring of the artistic multitude”, de Pascal Gieden.

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(Foto de Andreas Brücker)

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