Perguntório #10: Que ações estás a tomar para atravessar a presente crise?

Numa altura em que passa sensivelmente um mês que o isolamento começou, quisemos saber junto de alguns agentes culturais o que têm feito para lidar com a presente crise. Aqui ficam as suas respostas.

Carla Bolito (Actriz e encenadora intermitente)

Após ter entrado em isolamento voluntário, de forma a cumprir a quarentena, inscrevi-me no SOS vizinhos da CML para prestar assistência na minha zona. Esta crise inédita trouxe-nos mais consciência sobre a importância de olharmos uns pelos outros.

Nas artes performativas, onde quase todos trabalhamos a (falsos) recibos verdes, encontramo-nos mais vulneráveis. Pertenço à direcção do Cena- STE – o único sindicato do país de trabalhadores de espectáculos, música e audiovisual. Recentemente reunimos com a ministra da cultura para discutir um reforço, não só da verba extra da DGArtes, como na criação de mais medidas de protecção social, dada a insuficiência da linha de apoio da segurança social.  Insistimos para que essa reunião fosse em conjunto com a ministra do trabalho, solidariedade e segurança social. Até hoje não houve resposta da ministra Ana Godinho. Na próxima semana o sindicato volta a reunir com a ministra da cultura. A pressão junto do poder político não pode parar, apesar da paragem das nossas actividades profissionais…mas por vezes, sou mais movida pela fúria do que pela política, sobretudo quando começo a sentir demasiada impotência.

O confinamento perante decisões políticas incipientes, algumas até obtusas, aliadas a uma “normalidade”do dia-a-dia, sabendo no entanto, que estamos num cenário insólito e assustador, criaram em mim uma impotência enraivecida e a vontade de fazer alguma coisa. Felizmente, existem outras pessoas que sofrem de inquietação, como eu, e que preferem agir: a Tânia Leonardo, a Ana Pais, a Marina Albuquerque e o Nuno Gil. Nasceu assim a M.U.S.A. – Movimento de União Solidária de Artistas (que será lançada “oficialmente” em breve) – uma organização informal, sem fins lucrativos, dirigida a artistas das artes performativas. Aproximam-se tempos difíceis, de escassez de recursos e de carestia. A M.U.S.A. quer dar uma resposta imediata, diária, no acesso a bens essenciais para a subsistência. Não requer quaisquer contrapartidas, ninguém tem de apresentar projectos, não há candidaturas, burocracias, nem demoras. Encontramo-nos a estabelecer contactos com empresas e instituições, de forma a promover parcerias para a criação de um banco de recursos, que depois serão redireccionados para quem recorrer à M.U.S.A. Também estamos a desenvolver uma parceria com entidades de profissionais do espectáculo para uma linha donativos. A M.U.S.A. acredita na inspiração da cooperação. Só assim será possível minimizarmos as consequências desta situação, temporária, mas devastadora.

Jorge Silva Melo (Artistas Unidos)

Não sei, não sabemos. Não sabemos mesmo. Não me entendo com esta moda dos streamings, onlines e assim, tão longe do teatro que imagino e desejo. Tentamos recorrer a todos os auxílios prometidos e preenchemos formulários, aguardando respostas. Ansiosamente- Queria ver a cara das pessoas: Mas neste último mês só vi duas pessoas – e com máscara. Penso que vai ser possível voltar a fazer teatro e penso num repertório possível. Georg Tabori? (o cáustico judeu que ainda conheci no final do século passado numa pensão em Berlim). Não me vou reduzir a vídeos, leiturinhas, pecinhas de circunstância. Mas será ainda possível fazer teatro? Ou seja: olhar os espectadores olhos nos olhos e eles poderem ver-nos a alma sabendo nós que é a deles a que lhes mostramos? Não sei. Fomos convidados a parar. Paremos. Não precisamos de alimentar este permanente fluxo de imagens e sons, acumulação de currículos a ver se se lembram de nós da próxima vez. Deixemos a concorrência, essa putrefação. Não sei mais, não sei mais. Queria estar com amigos., Não sei mais. Toda a vida vivi no meio dos outros. Mesmo sozinho. Mas não sei, não sei, não sei.

Miguel Bica (Director de produção do Gerador)

Falo pela associação que integro, o Gerador. Trabalhávamos, até ao início da pandemia, de forma simbiótica. Se um conjunto de entidades (publicas e privadas) nos pediam programação, ideias, comunicação ou criatividade, era a valorização da nossa resposta a esses pedidos a principal fonte de rendimento do Gerador. Esse valor era então distribuído nos projetos que, por si mesmos, não teriam viabilidade financeira para existir, falo da revista, da investigação online e do barómetro (estudo sobre a cultura) por exemplo.

Chegada a pandemia, chegou o inevitável cancelamento de todos os eventos programados. Chegou também a certeza que, mais do que nunca, urgia responder à pergunta que temos feito desde a fundação da associação “como fazer cultura para todo, hoje?”.

O Gerador agiu muito rapidamente, alocando todos os recursos num esforço de restruturação bastante considerável em duas vertentes principais. A da ação, com a criação de novas ideias em suporte online com o propósito que já existia de descodificação e aproximação da criação artística ao publico e o da reflexão, com a intensificação do trabalho jornalístico de investigação, focado na área da cultura. Surgem assim iniciativas quase todos os dias, com duetos, conversas, workshops etc. e um conjunto significativo de reportagens dedicadas à interpretação da situação que vivemos.

Quanto à simbiose que existia e que mencionei anteriormente, ela continua a existir, com vários projetos que estamos a desenvolver e que serão revelados em breve.

Paulo Lage (Encenador, e diretor do TeatroPlage)

Para atravessar a presente pandemia tal como a maioria de nós, estou em casa em confinamento social até novas ordens.

Tenho aproveitado para estudar e trabalhar em matérias dedicadas ao trabalho que estou a desenvolver desde 2017, quero iniciar uma especialização: o teatro para bebés.

Tive o convite da diretora do 1coletivo, a encenadora Cátia Terrinca, para o projeto de teatro radiofónico “Transmissão” que irá ser transmitido por várias emissoras de radio, Portugal, Cabo Verde e Macau. Escolhi trabalhar um conto para crianças de Mayana Neiva. Título: Sofia. Os ensaios com as actrizes são diários e através de uma plataforma digital, cada um na sua casa!

Para alem destes projetos profissionais, tenho pensado bastante, pensado principalmente em como iremos encarar o teatro e não só, pois a única certeza que temos hoje é que não será da mesma forma, há outra urgência em nós. Com certeza iremos entrar numa crise, tão forte ou ainda maior que a crise  de 2008, contudo como ainda estamos no meio desta avalanche as ações que tomei, foi a que penso que a maioria dos artistas tomou, candidatar-se a todos os apoios de emergência que foram criados quer pelo estado quer por entidades privadas.

Sofia Neuparth (investigação artística c.e.m-centro em movimento)

Como não se é corpo sozinho agradeço a pergunta e respondo no plural, não porque “represente” alguéns para além de mim mas porque sinto que o corpo que vai sendo sofia existe em ressonância com o corpo-outro, com o corpo-mundo, com o entre-corpos…

As acções que estamos a praticar são essencialmente pensar-pensar-pensar.

Trans-pensar, com-viver com pensamentos vindos das mais diversas formas de conhecimento, sem territorialidades ou protagonismos, pensar lado-a-lado.

Temos a oportunidade de viver o interior de uma brecha entre possibilidades, é urgente acompanhar cada movimento sem aplicar logo as nossas certezas e leituras enrijecidas.

Praticar o “não saber”, deixar que esse pensar-pensar, como, qualquer pensamento, gere gesto, gere acção, e vá aparecendo o pensar-fazer, mesmo que esse não saber convoque formas estranhas ao nosso entendimento. O que está a acontecer tinha que acontecer, assim saibamos deslocarmo-nos dos lugares de conforto, conforto que tanta vez é sofrimento e miserabilidade, e deixemos aparecer uma outra forma de existir onde seja possível respirar. A terra continuará sem nós, a existência humana, se quer insistir em existir, tem mesmo que saber escutar e pensar-fazer!

Numa outra escala, nesta experiência de “estado de emergência”, dedico cada dia a não me deixar aprisionar e a partilhar essa desprisão com quem está próximo. Não numa atitude “irreverente” de contrariar as ordens de confinamento mas não acatando a propagação do controlo emergente, re-habitando os espaços possíveis da rua, da cidade, acompanhando a força da primavera e observando esta Lisboa agora. Pratico estarcom, seja em coisas muito práticas do quotidiano como em lutas mais amplas contra as injustiças gritantes que estão a destruir vidas com esta nossa mania de generalizar, de não considerar as especificidades de cada corpo ou ajuntamento de corpos, de não saber agradecer a diversidade. Não saber agradecer a existência da Arte, enquanto forma fundamental de Conhecimento, por exemplo.

E claro, cada dia, dançamos-escrevemos e partilhamos a dança-escrita com quem quiser vir ao encontro por esse mundo fora.

Alexandra Ávila Trindade (Gestora cultural)

Vejo-me, nesta fase, a refletir sobre e a atuar em muitas frentes que, de um momento para o outro, deixaram de se reger pelos hábitos, rotinas, dinâmicas, prazos e objetivos que até há pouco tempo conduziam a minha vida, num certo automatismo não desejável. Não que tenha alguma vez deixado de (re)pensar os meus hábitos, rotinas, dinâmicas, prazos e objetivos pessoais e profissionais. Mas agora faço-o com a dificuldade acrescida de uma incerteza que, nos tempos que correm, envolve tudo o que tento definir a curto, médio (e longo?) prazo.

Trabalho em gestão e produção cultural há 17 anos. Sempre vibrei com novos desafios e com situações inesperadas que exigissem uma resolução rápida, inteligente e que resultasse no sucesso dos projetos que promovia. Por outro lado, sempre me senti privilegiada por concretizar projetos que não se esgotavam em eventos, mas que enriqueciam realmente o percurso de quem os experienciava. Agora, depois de um percurso nas artes performativas que me ensinou tanto, abracei outra área artística, fascinante pela mestria e genuinidade dos seus artistas e pela beleza das peças que criam: o artesanato. Continuo no papel de quem trata de tudo o que existe entre a ideia do projeto e a sua concretização, sendo quase sempre esta a minha forma de participar na criação da obra.

E como todos os criadores e artistas, neste que é provavelmente o momento mais desafiante das suas vidas pessoais e profissionais, os artesãos continuam a trabalhar pela sua arte e pelo seu público. E nós, gestores, produtores e promotores das artes e da cultura, temos que agarrar cada oportunidade que surge para lembrar o mundo que eles continuam a fazê-lo, por todos. Afinal, são os guardiões daquilo que a humanidade tem de mais perene.

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(Foto de Dave Mullen)

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