Perguntório #12: Qual a tua opinião sobre a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses?

Numa altura em que a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP) está em fase de arranque, lançámos uma pergunta a ela relativa, a cinco personalidades do nosso meio cultural. Aqui ficam as suas respostas.

Mónica Guerreiro

Presidente da Direção do Coliseu Porto Ageas

O nascimento da há muito desejada (e prometida) rede nacional de equipamentos de artes cénicas é evidentemente uma notícia a aplaudir e a acompanhar com entusiasmo, mas não sem espírito crítico. Qualquer iniciativa desta natureza confronta-se com as expectativas e os anseios – frequentemente conflituantes – dos principais stakeholders, sejam os responsáveis (públicos e privados) pela gestão dos teatros ou os artistas e companhias interessados em circular e multiplicar os seus públicos. Claro que não se imagina um cenário em que todos sintam que as suas legítimas vontades sejam satisfeitas. Mas a rede acabou de ser formada e ainda só são conhecidos dois indicadores: o elenco de teatros credenciados e as verbas anunciadas para o financiamento (na fase inaugural). Dado o espaço para esta opinião, deixo tão-só três curtos comentários:

  1. É uma triangulação virtuosa a criação contemporânea da rede, do estatuto dos profissionais e dos novos regimes de apoio, assegurando a coerência e as sinergias sistémicas que tantas vezes não se verificam quando são “lançados” programas “inovadores” não alinhados com o que já está em vigor.
  2. A determinação de pré-condições para o acesso aos apoios financeiros (garantir orçamento em montante igual ao solicitado, direção artística autónoma, número mínimo de elementos com contrato e programação regular há alguns anos) levará a que teatros carenciados, que ainda não conseguiram alcançar esses requisitos, fiquem impossibilitados de concorrer e, portanto, nunca chegarão ao ponto em que a existência de condições é garantia de mais condições. A meu ver, não é o melhor caminho para corrigir as assimetrias existentes no território e deverá ser revisto em futuras distribuições de financiamento.
  3. Não se pode deixar de estranhar que a rede anunciada inclua 81 equipamentos e apenas um (curiosamente, aquele onde eu trabalho…) se situe numa das duas metrópoles. Embora não haja barreiras à integração de teatros de Lisboa e Porto (seria esquisito, aliás, pois são as cidades onde há mais teatros para credenciar!), o afunilamento dos propósitos da rede na obtenção de financiamento (esse sim vedado aos teatros dessas cidades) levou a que os teatros nem sequer se mobilizassem para fazer parte da rede. Ora, uma rede assim configurada estará sempre incompleta e ficará aquém do que se propõe (como as ações de qualificação de recursos humanos ou o fomento de boas práticas na transição digital, sustentabilidade ambiental, inclusão e acessibilidades, esta última matéria aliás já objeto de questionamento). Considero um erro estratégico a corrigir na futura fase de credenciação, aberta em permanência.

Victor Afonso

Programador do Teatro Municipal da Guarda

A Direção-Geral das Artes implementou, pela primeira vez, a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, com os principais objetivos de corrigir assimetrias culturais, descentralizar as práticas artísticas, envolver agentes culturais e artísticos locais, aumentar as coproduções entre entidades, desenvolver a acessibilidade física, social e intelectual e promover a circulação de espetáculos por toda a geografia nacional, numa ótica de igualdade de oportunidades. Assim, a RTCP pretende ser um mecanismo importante e decisivo para tornar a oferta cultural nacional mais equilibrada e de acesso massificado, revelando-se num dos maiores avanços na democratização no acesso à cultura e um marco incontornável das políticas públicas de cultura desde há décadas. A linha de apoio financeiro à programação aos teatros e cineteatros representa um valor considerável de 24 milhões num prazo a 4 anos (até 2025), numa atribuição de 6 milhões por cada ano aos teatros financiados. Em suma, todos os postulados teóricos e de princípio que esta Rede comporta são promissores e potenciadores do desenvolvimento cultural do país. Será certamente uma oportunidade única de afirmação da cultura como instrumento de coesão social, ainda que não isenta de riscos. E estes riscos dizem respeito à exequibilidade no terreno destes objetivos e à justiça quanto à equidade na distribuição territorial e descentralizada do apoio às estruturas culturais. Neste aspeto, cabe à DGartes este importante papel de executar e avaliar com total isenção e objetividade o plano de apoio dos teatros financiados. E estou plenamente convicto que esta entidade do estado que tutela a cultura, com a sua sabedoria e experiência técnica acumuladas, saberá cumprir e implementar, de forma equilibrada e assertiva, este decisivo desafio que representa a RTCP.

Catarina Molder

Soprano, directora artística e produtora

Ela existe, ou melhor os equipamentos existem, alguns teatros já trabalham em rede,  mas seria excelente que fosse mais fluída, inclusiva e eficaz, ou seja que houvesse muito mais circulação, mais parcerias, mais co-produções, mais teatros efectivamente a trabalhar em rede, em áreas cada vez mais variadas, envolvendo um maior número de criadores. Tenho-me batido muito por isso e acho que estamos num momento de viragem em que a Direcção Geral das Artes, pela primeira vez assume uma estratégia para essa rede funcionar, poder ter financiamento de uma forma continuada e ser mais eficaz. Espero que essa rede não seja construída exclusivamente em torno de projectos que contam com o apoio da dgartes porque isso seria muito limitador, existem projectos excelentes que não têm esse apoio e devem ser exibidos, é prejudicial se essa autonomia de escolha não for possível.

Não basta um equipamento existir, ele tem de ter uma estratégia subjacente a um modelo de financiamento aliado a uma programação, ao encontro de propósitos múltiplos de serviço público, em torno do público e do contexto da comunidade em que se insere, mas também do país e do mundo.

É complicado a meu ver, ainda o facto de muitos equipamentos, que até possuem excelentes condições logísticas, serem geridos muitas vezes pelos próprios vereadores da cultura ou técnicos camarários, que não são directores artísticos, nem têm vocação ou preparação para tal, desconhecem não só o seu público como o tecido cultural português, nas mais variadas áreas e acabam por construir uma programação inevitavelmente fraca e à deriva, que nem serve o público, nem o país, nem o equipamento, nem nada. Quem dirige um equipamento e em particular um teatro público tem mesmo de estar bem preparado, para poder gerar riqueza e falo de riqueza cultural e humana, de transformação a todos os níveis, de formação e desenvolvimento de novos públicos de todas as idades, de tornar o teatro um ponto de encontro, um lugar de transformação e inspirador para a vida da comunidade: promovendo a partilha inter-geracional, a auto-descoberta, o crescimento. Também observo vários equipamentos dirigidos por directores de companhias de teatro ou dança que criam programações quase exclusivas aos seus gostos e tendências, o que torna a programação distante de públicos mais variados ou até do seu público local. A variedade de “tendências”, de estéticas, de gostos é importante, quanto menos tendenciosa for, melhor para todos e mais riqueza pode gerar porque se liga a uma maior multiplicidade de artistas, de propostas artísticas e de públicos.

João de Brito

Actor, encenador e director artístico do LAMA Teatro

A Rede de Teatros e Cineteatros é, sem dúvida, uma medida bastante relevante, decisiva e que dita boa parte das regras que nos vão reger nos próximos anos. Diria que 80 ou 90 por cento dos equipamentos credenciados nesta primeira fase, já tinham uma actividade regular e um pensamento sobre a programação cultural. Parece-me importante que seja um processo de credenciação em permanência e que abra a porta a mais equipamentos num futuro próximo. Estou convicto de que esta rede pode impulsionar os municípios que têm andado mais distraídos no que toca às políticas culturais, mas não pode funcionar como medida estanque do Ministério da Cultura para combater problemas estruturais. Os Teatros e Cineteatros que já estão credenciados submeteram-se a uma candidatura para um financiamento de 4 anos e as que forem apoiadas terão mais condições para a programação a que se propuseram, mas é esse o ponto que merece uma reflexão.

Sendo a credenciação e a candidatura ao apoio financeiro um processo burocrático e que requer uma equipa (que muitas vezes não existe nos equipamentos), parece-me fundamental estreitar relações com os Municípios que ainda estão de fora, alertando sobre os benefícios de criarem uma estratégia para a Cultura e por sua vez perceberem as vantagens de ter uma equipa especializada que pense a programação dos seus equipamentos. No Algarve, região onde desenvolvo maioritariamente o meu trabalho e do LAMA Teatro, grande parte dos concelhos que têm equipamentos que ainda não estão credenciados são os que mais precisam de estar inseridos nesta rede, porque carecem de oferta, de criações, de coproduções, mas acima de tudo, de estratégias de acção, mediação e investimento.

Este processo de credenciação e programação a 4 anos pode ser muito vantajoso, porque obriga os Teatros e Cineteatros a estruturar uma programação com maior antecedência para poderem dar respostas, em tempo útil, às necessidades das estruturas de criação, e dos territórios; mas pode ser penoso para grande parte dos artistas e estruturas emergentes (são muitos/as), que não conseguem organizar o seu trabalho com essa antecedência, arredando-os destes espaços de criação, programação e, por sua vez, de visibilidade.

Catarina Saraiva

Direção e curadoria Linha de Fuga

O princípio está correto, e é uma das formas de democratização da cultura e também de longevidade das criações artísticas e de sustentabilidade do próprio tecido profissional. Num mundo ideal, esta medida faria com que existissem vários espaços disponíveis para coproduzir, acolher e dar vida a vários contextos, reforçando as próprias artes e público local.

No entanto, há duas coisas que me intrigam nesta rede e que me suscitam dúvidas sobre este programa, antecipando uma possível má utilização de bons princípios.

A Lei 81/2019 define os termos através dos quais um teatro poderá ser credenciado e integrado nesta rede. O DL 45/2021 cria e regula o apoio aos teatros credenciados. Uma das prerrogativas para obtenção de apoio é a identificação do responsável pela direção artística, figura essencial para o desenvolvimento da missão de um teatro, da fruição das artes e de uma comunidade local de artistas e espetadores, especialmente em territórios onde este é o único equipamento cultural. Há 80 teatros credenciados com um diretor artístico ou programador avalizado pela Direção Geral das Artes (DGA). Mas custa-me entender o que a DGA entende por diretor artístico e programador e como assume que todos estes teatros integram uma pessoa com as qualificações necessárias para desenvolver este papel tão importante.

Sei que entre estes 80, alguns trabalham corretamente e ainda que se possa dar o benefício da dúvida sobre todos, tanto a Lei como o DL assumem que a DGA avaliará a implementação deste programa e promoverá ações de valorização e qualificação dos recursos humanos destes equipamentos. Que formação, a quem recorrerá e em que medida conseguirá fazer este acompanhamento quando a maior parte das estruturas e artistas financiadas se sente desamparada no seu acompanhamento, também legislado nos programas de financiamento da DGA?

A outra nota igualmente importante, para além de muitas outras que devem ser discutidas – desde a mediação à acessibilidade – é a inexistência, na Lei, da exigência de desconexão entre os ciclos de programação e os ciclos eleitorais, essencial para que não exista uma instrumentalização destes equipamentos como ferramentas de propaganda política. Programar um teatro é algo muito sério, que requer uma sabedoria sobre o manejamento de distintas variáveis – desde os conteúdos, passando pela sustentabilidade, ao cuidado (dos artistas e dos espetadores) e cujos resultados não são imediatos, pelo que é essencial um aval de confiança e de independência – a pessoas que sabem o que fazem.

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