Pier Paolo Pasolini: capitalismo, consumo, censura

Pier Paolo Pasolini, o intelectual italiano mais processado, censurado e injuriado da história recente, transformou-se num “caso” nos últimos anos: de um lado ao outro da Europa, verificou-se a redescoberta dos seus filmes, letras, romances, peças teatrais, e a consequente “beatificação” do poeta que descreveu o capitalismo antevendo a sua forma atual.

por Matteo Bergamini

Se não tivesse sido assassinado em 1975, Pier Paolo Pasolini (PPP) completaria este ano o seu centenário.

Por toda a Europa, são muitas as manifestações de homenagem ao poeta, jornalista, cineasta e escritor,ao longo de 2022; em Portugal, por exemplo, diversos teatros  estão a pôr em cena Orgia, uma das primeiras peças escritas pelo autor de Il Vangelo secondo Matteo (O Evangelho segundo São Mateus), filme de 1964 cujas imagens foram usadas também na obra Intellettuale (Intelectual), do artista italiano Fabio Mauri (hoje representado pela galeria Hauser & Wirth), sendo projetadas sobre o corpo do cineasta. Pasolini, envolvido outrora nessa performance, afirmou sentir-se inquieto, pois não reconhecia as sequências temporais do filme, apesar de ser seu.

E por falar em consagrações por esta altura, na Itália, país natal do intelectual, são inúmeras as iniciativas a relembrar a imensa obra que ele nos deixou.

Uma coisa é indubitável: todo este carinho post-mortem – quase cinquenta anos depois! – indica que  Pier Paolo Pasolini é ainda hoje uma figura cujas ideias se revelam transgressoras, perigosas;  numa palavra, impronunciáveis.

Pier Paolo Pasolini, Monte Dei Cocci, Roma, 1960. © Archivio Fotografico Paolo Di Paolo, Cortesia de Collezione. Fotografia: MAXXI

Diz-se que águas passadas não movem moinhos: no caso de PPP, elas foram brutalmente interrompidas, pois faziam mover tudo o que encontravam: política, sociedade, alta cultura e baixa, arte, literatura.

O olhar e a caneta afiada do autor, assim como os seus filmes e romances, dedicavam-se tanto ao amor aos pobres, aos escalões mais baixos da sociedade, como aos mecanismos do poder entrosados no Estado italiano e nos seus partidos, e mesmo nas máfias que já o iam compondo, naquela época chamada de “primeira república”, finda em 1992, com a mega investigação denominada  “mãos limpas”, que envolveu umaclasse política inteira.

PPP foi polemizado, escarnecido e processado dezenas de vezes, desde a estreia do seu primeiro romance, Ragazzi di Vita (Meninos da Vida), em 1954, terminando com Salò o le 120 giornate di Sodoma (Saló ou os 120 Dias de Sodoma): este filme foi lançado após a morte do realizador e logo foi alvo de 31 ações judiciais, que resultaram na retirada da película de exibição; ela voltou à luz dos cinemas somente dez anos mais tarde, em 1985.

O homicídio de PPP foi resolvido pela justiça como uma consequência natural do escritor frequentar os “pouco recomendáveis ambientes homossexuais” da capital italiana daquela época: ele foi espancado até à morte numa área isolada da praia de Ostia, na periferia de Roma, durante a madrugada de 2 de novembro de 47 anos atrás.

Naquele momento, foram as trevas a cobrir a magnífica figura de Pasolini, uma das vozes mais incómodas e brilhantes da cultura do século passado, uma voz a calar-se.

Alberto Moravia,outro grande poeta italiano, no funeral do amigo, declarou numa oração lúcida e acalorada: “Perdemos, antes de tudo, um poeta. Os poetas não são muitos no mundo; somente nascem três ou quatro ao longo de um século. Quando acabar este século, Pasolini será entre os pouquíssimos que importarão como poetas. O poeta deveria ser sagrado […]Além de ele ser um escritor extremamente refinado e maneirista, havia uma atenção aos problemas sociais do seu país, ao desenvolvimento deste país. Uma atenção patriótica que poucos têm tido”.

Como cabe Pasolini no tema do Capitalismo? Ora então, cabe com tudo o que ele fez. Cada poema, cada conto, cada imagem criada por PPP é um ataque até à última gota de sangue contra o “capital”, no pior sentido possível do termo.

O realizador e escritor Pier Paolo Pasolini na sua casa em Roma, 1962. Fotografia: Mondadori Portfolio / Marisa Rastellini

Pasolini posiciona-se contra o poder ilusoriamente democrático que tiraniza os povos, contra o consumo-capitalista da nova era industrial que despersonaliza os pobres e as tradições em nome de novas necessidades criadas para esmagar a natureza dos homens e o meio ambiente. Para mais, Pasolini conhece a perfeita “anarquia do poder” presente em todos os regimes fascistas, que acabam por se tornar capitalistas e – hoje em dia – globalistas.

Logo nas primeiras poesias e poemas escritos por PPP, ainda utilizando o dialeto da mãe, já se percebia o extremado amor que o autor sentia pelas tradições, pelos laços culturais da sociedade camponesa e também pela fé, entendida como uma conquista individual do espírito, pois Pasolini era igualmente contra as imposições da religião católica, antigamente matéria obrigatória nas escolas.

Uma das melhores películas que misturam o “capitalismo” com as imagens da história da arte no cinema de Pasolini é La Ricotta, episódio do filme coletivo Ro.Go.Pa.G., dirigido por PPP com Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard e Ugo Gregoretti, em 1963. Aqui, o realizador põe em cena um local de filmagens, onde um grupo de atores e comparsas estão atarefados em fazer um filme sobre os últimos momentos da vida de Cristo, olhando para as pinturas de Rosso Fiorentino e Pontormo. Entre as personagens destaca-se Stracci (apelido italiano que significa farrapos), homem proletário, ator não profissional e faminto, que morre na cruz por causa duma indigestão.

Também dessa vez a película foi sequestrada, com a imputação de “vilipêndio à religião do Estado”, censurada e com muitas cenas cortadas, enquanto Pasolini declarava que o seu “filme dentro do filme” não era somente para homenagear a história da Paixão de Cristo, “a maior que eu conheço e cujos textos são os mais sublimes”, mas também para denunciar a mercantilização das imagens e dos ícones e- falando simultaneamente da condição dos mais pobres da sociedade -, derrubados pelo novo capitalismo que estava prestes a impor-se na área da cultura.

Os escritos e os filmes de PPP queimam pela veracidade que transmitem: Petrolio (Petróleo) foi o último romance no qual o autor ainda estava a trabalhar antes de morrer.Foi publicado somente em 1992, quase vinte anos após o delito. Tal não foi por acaso: enquanto em Saló ou 120 Dias de Sodoma o argumento principal é a nojenta e repetitiva submissão ao poder a que um grupo de jovens prisioneiros antifascistas se entrega para não morrerem, em Petrolio o autor, utilizando personagens fictícias, conta-nos a escalada ao poder de um homem medíocre chamado Carlo, por sua vez submetido a ordens. À volta dele, ao longo de mais de 650 páginas, desenvolve-se um carrossel de figuras ambíguas, viciadas e taradas, através das quais Pasolini relata a história negra da Itália, aquela não contada nem pelos jornalistas, nem pelos políticos.

Escreveu PPP nas páginas do Corriere della Sera, o mais famoso diário italiano, no dia 14 de novembro de 1974, um artigo que se tornou um manifesto:

“Eu sei. Eu sei os nomes dos responsáveis pelo que tem sido chamado de “golpe” (e que na realidade é uma série de “golpes” instituída como sistema de proteção do poder).

[…] Eu sei todos esses nomes e sei todos os factos (atentados às instituições e massacres) de que foram culpados. Eu sei. Mas não tenho provas. Não tenho nem sequer indícios. Eu sei, porque sou um intelectual, um escritor que tenta acompanhar tudo o que acontece, conhecer tudo o que se escreve a respeito de tudo, imaginar tudo o que não se sabe ou que se cala; que articula factos, mesmo que distantes, que reúne os cacos desorganizados e fragmentários de todo um quadro político coerente, que restabelece a lógica ali onde parecem reinar a arbitrariedade, a loucura e o mistério. […] Provavelmente os jornalistas e os políticos têm também provas ou, pelo menos, indícios. Agora o problema é esse: eles não revelam os nomes. […] A coragem intelectual da verdade e a prática política são duas coisas irreconciliáveis na Itália.”

Fabio Mauri e Pier Paolo Pasolini nos ensaios de O que é o fascismo, 1971. Stabilimenti Safa Palatino, Roma. Cortesia de Estate of Fabio Mauri e Hauser & Wirth. Fotografia: Marcella Galassi

Em Petrolio encontram-se a corrupção, os misteriosos incidentes nunca resolvidos e o surgimento de uma nova humanidade, escrava da neo-economia capitalista. Porém, não são tanto os produtos ou os novos hábitos da vida contemporânea a serem descritos, quanto os corpos, os movimentos, as perceções íntimas alteradas por causa dos estilos capitalistas, capazes de afetar as existências de maneira subtil, oculta.

Inesquecível, no livro, é o passeio que o rapaz chamado “o Merda” faz acompanhado da sua namorada Cinzia, atravessando as ruas da degradada periferia romana. Sem precisar de os fazer falar, Pasolini – com uma perspicácia desarmante- fala-nos dos novos gestos próprios dos jovens, das suas novas formas de vestir, e de como o poder tomou posse das suas identidades e da de milhões de pessoas como eles, na Terra: são os pobres sem instrução, e por isso vulneráveis e fracos no que  respeita às suas escolhas individuais, malta perfeita para se tornar num grupo social disposto a tudo em troca de um falso bem-estar económico. Pois, é claro, ao capitalismo não interessa humanos independentes e libertados, mas escravos levados pelo medoa obedecer, e especuladores ousados a dirigir os planos gerais.

Romance onírico e complexo, Petrolio acaba com uma “visão” do protagonista, Carlo; ele é carregado sobre um carro conduzido por uma série de deuses à volta do céu de Roma, e o panorama que dá para ver em baixo é terrível: todas as torres dos sinos das igrejas foram transformadas em falos gigantes, mas o pior é que a planta da cidade revela, espantosamente,  uma imensa cruz gamada, ou seja uma suástica. O capitalismo reverteu-se a nacional-socialismo.

PPP foi uma figura profética, até reacionária, apaixonada pela História e pela cultura antiga, tal como pela dignidade humana. Numa entrevista gravada em Estocolmo dois dias antes da sua morte e publicada pelo semanário italiano L’Espresso somente em 2011, referia o escritor: “Não existem mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista. […] Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, pois o fascismo clerical, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante”.

Neste tempo no qual vivemos como escravos tecnológicos, assustados pela pandemia e pelas guerras, envolvidos em consumos até naturais, mas quotidianamente ameaçados de acabarem por causas fora de controlo e relativas aos poderes globais, reler a figura de Pier Paolo Pasolini pode ser deslumbrante, mesmo para entender em que canto se colocou a Humanidade ocidental, apertada contra si mesma e apavorada com um futuro que já foi bem traçado nas palavras da arte universal de PPP.

Hoje em dia, para “aquele louco do Pasolini” – como o escritor se definiu a si mesmo na sua última conversa sueca – é tempo de resgate. Já não era sem tempo, e agora, quem sabe se alguém irá cuidar dignamente do tesouro do seu testemunho crítico, poético, e até político.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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