Política da ternura

Por Inês Lampreia

Caro amigo,

Escrevo esta mensagem do outro lado do mundo. Terminámos hoje os Encontros para uma Política Mundial e senti esta urgência de te escrever para partilhar a possível esperança que paira no ar. Não estarás ao corrente dos temas que aqui se discutiram, mas em breve os ouvirás e verás nas notícias. Estes encontros indispensáveis tiveram como tema aquilo que todos sentimos – este neofascismo que vem crescendo desde o início do século. Como eu, também tu viste como décadas de ressentimento o fizeram florescer de novo.

Quando ainda estudávamos na faculdade, talvez não te recordes, o professor de Literatura Comparada falou-nos, certa vez, na via ensaística de Thomas Mann. No século XX, em 1940, já exilado na América, deu uma conferência em Los Angeles, sobre guerra e democracia, em que partilhou a seguinte ideia: se o fascismo chegasse à América, chegaria em nome da liberdade.

Ora, o fascismo sempre esteve connosco, como uma bactéria primária. Por vezes, adormecido, esquecido nas traseiras do jardim, mas, havendo oportunidade, reemerge…  e para infortúnio nosso, reemergiu.

Todos sabemos o que aconteceu. Andámos nas nossas rotinas, girando sobre nós mesmos, entretidos com os fluxos da moda, em busca de prazeres instantâneos, imersos num narcisismo que nos alheou em relação ao destino dos outros.

Agora, tudo é uma projeção do indivíduo. Os valores universais e as suas cartas entraram em vias de extinção. A verdade, a bondade, a justiça são, neste momento, adaptadas às perceções e interpretações de cada um.

E porque nos havíamos de culpabilizar se ambicionamos viver desenfreadamente? Não é de somenos este desejo. Afinal, depois de séculos sobre o jugo de sistemas religiosos, feudais e ditatoriais, entre outros, o bem-estar e as liberdades são nossas. Contudo, por detrás de um conforto merecido, gerou-se esta impaciência sobre o tempo. E com ela, a soberba e a inveja, a ansiedade e o controle, assim como a indignação e a violência.

Sabes tão bem quanto eu que muitas relações interpessoais se tornaram vãs, a nossa incapacidade de escuta é notória e ficamos com os nervos à flor da pele quando queremos a razão. Suportamos muito mal a crítica… deixámos de saber discutir. Agora, gritamos uns para os outros, enervados, ardemos depressa e queremos deter a razão sem nos justificarmos de forma profunda. Será que consideras o mesmo?

O medo e o desejo dominaram-nos: o medo de perdermos o que temos, o desejo de tudo alcançarmos e de sermos donos de alguma verdade.

É nesta miscelânea que vivemos… Mas, estaremos num momento de viragem?

Nestes Encontros cunharam um novo conceito. Somos os materialistas pró-niilistas. Passo a explicar. Depois da sociedade de massas de Ortega y Gasset, nos anos 30, do século XX, vivemos as sociedades líquidas de Bauman, mas avançámos para um outro lugar. O nosso reino é pró-niilista. Não que tenhamos em nós todas as características atribuídas pelo vetusto Nietzche, mas parece inevitável voltar a ele. Já não acreditamos em grande coisa, embora queiramos muito acreditar.

Esta angústia, transversal a todas as condições sociais, tem criado fricções, como sabes, e somos cada vez mais incapazes do confronto com valores intelectuais e espirituais. A vida tornou-se, felizmente, mais confortável ou abundante para muitos, mas vivemos a tragédia de não acreditar.

É neste ambiente que o fascismo contemporâneo emergiu. Ele é incomparável com os fascismos do século XX, contudo ao voltarmos às Lições sobre o fascismo, de Palmiro Togliatti (1935) que nos relembram como Mussolini ganhou poder pela via democrática, compreendemos as nuances possíveis que o mesmo tem agora. Não é certo que ele sempre assume as formas do seu tempo? A descrença nos governos, a falta de intelectuais com participação ativa (rapidamente substituídos por profissionais da opinião…), as contradições da meritocracia, cuja máxima é “quem se esforça alcança”, a desigualdade social… E as elites? Que falta nos fazem… tão parcas e sumidas estão.

Um misto de raiva e frustração alimenta o protesto populista e a descrença nas instituições, no governo e entre as pessoas. É curioso como a expressão “sou antifascista” se tornou, aliás, tão quotidiana. Mas, caro amigo, não é tão comum que os próprios fascistas assim se designem?

Lembras-te? Por volta de 2022? Chamámos-lhes, em inglês, os Fear Mongers, porque atiçavam discórdia com os seus discursos, eram provocadores sociais apenas com o intuito de obterem atenção. Criaram alarmismos, formas de manipulação espalhando rumores, com o perigo iminente na ponta da língua. Nunca estiveram realmente interessados em soluções, antes alimentavam o ressentimento e criavam bodes expiatórios, não pela estupidez – não podemos ser ingénuos -, mas por uma utilização continua de parangonas.

Tudo isto tinha de culminar em algo explosivo, em muito ressentimento impregnado… e onde há ressentimento há discursos populistas, à direita e à esquerda.

Confesso, meu amigo, às vezes penso em Espinosa. Se a liberdade é a capacidade de nos libertarmos da estupidez, do desejo e do medo como o podemos fazer nestas condições?

Finalmente caminhamos para a recomendação que o mundo necessita. Estes Encontros para uma Política Mundial foram produtivos e pensamos ser possível lançar a recomendação para todos os Estados já na próxima semana. Demos-lhe o seguinte nome: Política da Ternura. Bem sei que é um nome em discussão, mas para já garante-nos, linguisticamente, a possibilidade de um outro paradigma. Se reparares não há ternura no discurso de quem tem a pretensão de deter a verdade.

Imagino que perguntes como vamos fazer isto… ou que consideres, como um verdadeiro materialista pró-niilista, que os Encontros não vão dar em nada. Contudo, a esperança, felizmente, ainda reside em alguns de nós. Iremos investir no neo-humanismo naturalista e rejeitar, de uma vez por todas, o ressentimento, esse bacilo que corrói as sociedades. Para tal, há que confrontar os detentores da verdade. Aliás, meu caro, não escreveu Álvaro de Campos a curiosa frase “Se têm a verdade, guardem-na![1]”?

Um abraço, K.

[1] Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. in http://arquivopessoa.net/textos/153

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto: GuerrillaBuzz Crypto PR

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Comments

  1. Antonio Lourenco says

    Excelente! Sinto o que diz!

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