Produtor de Eventos para Tótós

JoaoTovar

Foto: Locas Diego

Não sendo propriamente um produtor de eventos, estou numa escola onde se fazem ou na qual participamos em muitos eventos, a que acresce estar em contacto regular com muitos formadores que são produtores ou trabalham na produção e gestão de todo o tipo de eventos, e ainda, já ter assistido a algumas centenas como público e nos bastidores. Estas dicas são um pequeno resumo do que tenho ouvido, visto e reflectido, e nalguns casos, feito mal e bem. Claro que são sobretudo para a nova geração de estudantes e juniores do mercado, mas é sempre engraçado relembrarmos assuntos que no fundo nunca esquecemos.

Trabalhar em eventos é giro: não, não é nada giro. Pode ser frustrante, stressante, desgastante, compensador e até fantástico, em diferentes eventos e até tudo num só evento. Giro não se aplica a produzir profissionalmente um evento. Já a umas sandálias novas duma colega posso eventualmente aplicar o termo.

Os verdadeiros grandes eventos  são com as estrelas e as massas: eventos bem sucedidos com grandes estrelas internacionais e muito público podem ser marcantes, mas a mais das vezes a estrela está cansada da tournée, tem tiques e é desinteressante, e a gestão dos públicos é extenuante. E acabámos por não ter tempo para ver nada. Eventos Memoráveis são os que fazem a diferença e marcam na memória afectiva, geralmente porque impressionaram não só a equipa mas, e sobretudo, um público que não estava à espera e se envolveu duma forma exponenciada. Pode ser um evento de team buiding em outdoor só com meia dúzia de pessoas, mas se ajudou a mudar a vida dessas mesmas pessoas, é um dos tais.

O produtor tem que ser um Super Homem ou Super Mulher: é verdade que existem muitos tipos de eventos e situações e cada evento é um evento diferente. E que ao fim duns anos, já somos “especialistas” em tapas, écrans de led, arranjos de flores e protocolo militar. Mas o mais das vezes um produtor experiente é um verdadeiro especialista numa área do evento ou num tipo de eventos, e tem conhecimentos razoavelmente sólidos em todas as outras áreas complementares. Mas como seres humanos e imperfeitos que somos (felizmente) vamos ser sempre melhores numas esferas de competências ou num tipo de eventos que outros. Até porque gostamos mais.

Trabalhar em eventos é muito desgastante e não é para todos: é, sim senhor. Mas todas as profissões que levemos a sério cansam, mesmo que com prazer à mistura. Desgastante é trabalhar na estiva ou num infantário. E muitas vezes é desnecessariamente desgastante por falta de organização e competência (nossa ou dos outros).E já agora, o stress? Em eventos trabalha-se frequentemente sobre pressão, o que não se deve é deixar o stress tomar conta de nós. Até porque verdadeiramente stressante pode ser trabalhar num bloco operatório de urgências ou numa torre de controlo de aviões.

Ele ou ela está sempre a correr, é muito dinâmico: a maior parte das vezes é por falta de planeamento, preparação e organização. O chamado “tapar buracos”. Quanto mais preparação, mais tempo sobra em cima do evento para imprevistos inevitáveis, melhorias de última hora e até conseguirmos “gozar” um pouco o prazer do evento estar a correr bem. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei, ou melhor, quem juntar ao lusitano “desenrascanço” (que é uma qualidade) a organização, sobe vários degraus em profissionalismo.

O cliente tem sempre razão: não, não tem. O foco deve ser no cliente, compreender os seus objectivos e ajudá-lo em tudo o que estiver ao seu alcance. E tem que existir jogo de cintura para pequenas contrariedades e “singularidades”, dar mesmo o nosso melhor, admitir uma falha e corrigi-la se possível, mas existem regras de segurança, de respeito, etc que não devem ser ultrapassadas. Um dia surgirá a necessidade da palavra Não. A sua.

Nas escolas não se aprende nada sobre eventos: eventos existem desde o início da humanidade e escolas com cursos de eventos não. Portanto, pode não ir para nenhum curso e vir a ser um bom profissional. Mas o que os bons cursos fazem é criar um contexto próprio para aprendizagem, preferencialmente com formadores que sabem do que estão a falar, que colocam os alunos em práticas e que, sobretudo, os tornam fervorosos aprendizes para o resto da sua vida profissional.

O que eu quero é ser Produtor, não é servir cafés: correcto, servir cafés não é ser produtor. Mas passar por todas as fases, incluindo carregar vasos com flores e o diabo a quatro (não sei donde vem esta expressão mas gostava), faz de nós melhores produtores e mais respeitados por todos, porque sabemos quanto custa, quanto tempo leva, e se necessário ajudamos mesmo a carregar. E pode-se ser incrivelmente feliz toda a vida sem ser a pessoa que está sozinha no topo, que tem que pagar os impostos e salários e que tem que dar a cara sempre. O tal Produtor. E é verdade que ainda se “sobe” nem sempre pelas boas razões, e que a meritocracia e as distribuição de glórias e rendimentos sofre frequentemente de parca justiça. A escolha é sua, mas gostar do que se faz e fazer o melhor possível é sempre bom investimento.

O Produtor Empreendedor: existem produtores, ou momentos na vida dum produtor, de glória especial. E um dos maiores é quando o produtor empreende a sério: identifica necessidades, vê mais longe, concebe e cria o “seu” próprio evento, atrai marcas e público, e torna o evento numa marca. Que cria memórias e afectos, ou muda mesmo comportamentos e atitudes. Nesses momentos, raros porque difíceis, o produtor pode então acrescentar um P maiúsculo à palavra. Que de tótó não tem nada.

Artigo escrito por João Tovar, fundador e administrador na Restart
(publicado originalmente na revista event point)

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