Promover a leitura com a mediação do ecrã

Por Andreia Brites

Alice Vieira disse um dia que a culpa de as crianças terem deixado de ler foi das vacinas. Com humor a escritora referia-se aos tempos infindáveis que se passava a recuperar de sarampo ou varicela sem qualquer ajuda, sequer, de uma televisão inexistente.

Mais de meio século depois as pessoas, desta feita adultos e crianças, voltam a ter de passar tempos infinitos fechados em casa por via da pandemia do covid 19. Há quem não se resigne e aproveite para recomendar leituras e sugerir alternativas a partir do livro.

Nas redes sociais o Planeta Tangerina anuncia medidas de combate ao tédio através da leitura dos seus livros. Com a ponderação que sempre pauta as suas intervenções e campanhas, a editora elenca uma série de títulos que respondem a necessidades e precauções várias. Intercalando orientações e livros cria-se uma sequência onde cabem legumes da época (Batata chaca chaca), falar ao telefone com quem se gosta (Telefone sem fio), evitar andar na rua sem ser preciso (Ir e vir) tentar manter relações equilibradas em casa (Mana), sem esquecer, obviamente, a lavagem frequente das mãos e a reflexão sobre o tempo e sobre cada um de nós. Quando as propostas foram lançadas no blogue da editora, a 12 de Março, as escolas ainda funcionavam, aguardando a decisão governamental que aconteceria no dia seguinte.

A partir de então o tempo acelerou e choveram propostas e generosas partilhas de artistas, mediadores e agentes culturais para ajudar nos dias mediados por ecrãs.

Nazaré de Sousa, livreira da Hipopómatos na Lua, decidiu comemorar o centenário de Gianni Rodari oferecendo ao público um conto ao telefone. Assim, basta ligar para um telemóvel entre as 15.00 e as 17.00 e ter a paciência suficiente para esperar a sua vez! Na véspera a livreira anuncia que conto será narrado e por quem. Homenageia-se assim o mestre italiano que escreveu as Histórias ao Telefone, contextualizando-as com uma bela fantasia: a de um pai caixeiro-viajante que telefonava à filha e lhe contava uma história assim, à hora de dormir. Como os recursos eram poucos, a história durava o tempo que as moedas permitiam. Por isso todas as histórias são curtas, tão curtas como fantasiosas, sensoriais, plenas de humor e emoções várias.

Já a Andante, uma das mais antigas associações artísticas que promovem a leitura, recuperou o blogue onde desde 2007 regista em áudio leituras poéticas com música e sonoplastia. Conta-meumconto.blogspot.com passa a contar com uma atualização semanal, uma outra forma de o leitor ouvir a cadência, expressividade e intenção musical da dupla Cristina Paiva e Fernando Ladeira, agora que os seus espetáculos em escolas e bibliotecas, assim como o seu clube de leitura em voz alta (CLEVA) estão interrompidos.

Foram também vários os contadores de histórias que decidiram publicar momentos diários de narração nas redes sociais como forma de se manterem próximos do público incentivando também as famílias à partilha da leitura ouvida. Uma delas é Catarina Claro que tem colocado no YouTube, desde dia 16 de março, momentos de narração de álbuns. O incrível rapaz que comia livros, de Oliver Jeffers ou Onde moram os monstros de Maurice Sendak são apenas duas leituras. A mediadora cultural participa num outro projeto de narração oral organizado por Bru Junça e que envolve muitos narradores. Contos em Linha partiu de um desafio aos leitores/ ouvintes: todos os que desejassem podiam inscrever-se até dia 19 de março para receberem, a partir de dia 20, um telefonema surpresa entre as 10h e as 23h em que um contador contaria, nessa chamada telefónica, um conto.

Também as Bibliotecas Municipais se desdobram em esforços para minimizar o afastamento imposto aos seus utilizadores. São muitas as propostas de leitura postadas nas redes sociais. Em Vila Velha de Ródão, a estante física onde leitores deixavam livros como sugestão a outros leitores migrou agora para o Facebook. A proposta é tão simples como a original: basta ao leitor tirar uma fotografia da capa e de uma página do livro que quer partilhar e enviá-las para o e-mail da Biblioteca. Depois as fotografias são colocadas na página do Facebook com a indicação do leitor.

Também as Bibliotecas de Lisboa criaram, no YouTube dois momentos: um de narração de histórias para pais e filhos e outro dedicado à semana da poesia, que teria programação nos vários equipamentos e agora oferece a leitura de um poema por dia durante uma semana.

Em Benavente, a Biblioteca Municipal criou um evento de sessões narrativas aos domingos e 4as. feiras a pensar nas famílias da sua comunidade. Antes das sessões, são postadas indicações sobre objectos ou outros elementos que os ouvintes podem ter consigo durante o momento interativo. Quando Ana Luísa Oliveira aparece em direto no grupo do Facebook começam a chover comentários de pais a indicar a sua presença. Ana Luisa fala e as famílias respondem por escrito. A narração também pede participação e depois as famílias enviam fotos do momento. Neste caso, a proximidade alimenta-se e é visível o quanto o grupo responde com entusiasmo. Apesar de ser uma iniciativa para um determinado público, pensada para alimentar laços de proximidade, são muitas as pessoas que acompanham a transmissão fora do eixo geográfico de Benavente. Há quem esteja em Carcavelos, perto de Lisboa, e quem esteja em Angola.

As propostas são muitas. É preciso tempo para escolher. É preciso experimentar. É preciso ver o que funciona em cada casa, para cada família. O que gostamos mais? O que faz mais sentido para nós, neste grupo e neste espaço?

Não vale a pena cair na tentação do consumo. Temos tempo. Pouco ou muito, temos. Aos agentes culturais, especialmente aos mediadores, cabe-lhes essencialmente isso, oferecer uma proximidade dialogante, um momento que replique os comportamentos de comunidade para que os laços com a leitura, entre leitores e com os espaços, não se percam. Os que o conseguirem terão certamente muitas e novas histórias para contar e ouvir depois.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de março de 2020.

Foto de Patrick Robert Doyle

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