Quatro Esquinas

Por Guilherme Gomes

Em tempos terá sido o cruzamento mais frequentado da cidade; ali, onde a rua direita e a rua formosa se encontram, qualquer ideia seguiria o seu caminho como se tivesse entrado na corrente do mundo. Mas isso foi há muito tempo, quando as lojas de rua eram um dos elementos pulsantes da cidade; no tempo em que se ia para a feira semanal pela rua directa/direita, num tempo antes de se abandonar o centro histórico e construírem os centros comerciais.

Ao lugar chama-se quatro esquinas, por razões evidentes, e ali, numa tarde de setembro de 2022, já estas artérias da cidade pareciam perder o seu sentido, eu vi, como se fosse o eco de gestos passados, um grupo de jovens com pequenos escadotes e um megafone, a ler, a gritar, por vezes a dizer apenas, discursos de laureados dos prémios Nobel da Paz e da Literatura.

Começamos por ouvir a palavra de ordem Nós somos o problema, repetida até ao desconforto por um rapaz a quem, como elemento de uma metáfora maior, vai faltando a voz por estar a transformar-se. A sua voz a transformar-se e este grito como parte dessa transformação. Depois, uma a seguir à outra, como quem responde, outras vozes se juntam com textos diferentes. Falam-nos da guerra, do direito à educação, das alterações climáticas. Nas vozes daqueles adolescentes dois políticos adultos e uma jovem activista. Nas vozes daqueles adolescentes palavras de repúdio e elogios: como podíamos viver.

É um gesto de esperança; é um gesto de promessa. Mas são palavras que se dirigem ao presente, àquele presente, ali mesmo, nas quatro esquinas. E eles e elas gritam os discursos como coisas urgentes, fundamentais. E eles e elas gritam-nos para as quatro esquinas sempre cruzadas por gente. E eles e elas fazem-nos de frente para o melhor e o pior: a atenção e o desprezo. Mestres ao ponto de não esperar só a atenção das pessoas, e não se deixarem abater pelo desprezo dos outros. Mestres para saber que, quando fazemos isto, há algo a que é preciso que nos agarremos para além da atenção dos outros: o nosso dever falar, dever que Cesariny nos ensinou haver entre nós e as palavras.

Vê-los fazer isto, assistir à sua esperança, à sua garra, à vitalidade com que se mantinham nas quatro esquinas, enquanto as pessoas cruzavam, algumas paravam, outras levantavam o queixo desdenhando das palavras ditas (juro que vi um homem esboçar um esgar quando alguém falou sobre a defesa dos direitos humanos – as coisas a que uma pessoa assiste), vê-los ali ensinou-me muito sobre as posições que tantas vezes hesitamos tomar. Ali, ao permanecer com eles durante os 40 minutos de manifesto (que era! Um manifesto de carne e osso), eu não podia desvincular-me disto: pertencia a um grupo de pessoas que estava em torno de palavras audíveis. Visto de longe, era como que um subscritor daquelas palavras. E cada frase, cada ideia, cada berro ou hesitação, cada uma destas coisas era minha, também. Por estar ali, sentia-me a tomar uma posição, a assumir uma posição, a posicionar-me. Por estar ali, e não responder. Por estar ali, e escutar apenas. Escutar apenas: eis esta forma de acção. Nunca o tinha sentido de forma tão clara. De maneira que estar ali era também agitador, de certa forma desagradável. Tinha o sabor de uma afirmação, um coming out. Por mais que concordasse com o que era dito, o compromisso com as palavras era um ponto de tensão.

Uma tensão aliviada na segunda parte do manifesto, quando eles e elas começaram a ler discursos dos prémio Nobel da Literatura, que, apesar de falarem muitas vezes sobre o mesmo, e talvez o único tema seja o da dignidade, talvez o único assunto seja o de como podemos contribuir para a manutenção da dignidade humana; dizia, quando se voltaram para os prémio Nobel da Literatura, apesar de haver tantas arestas nas palavras, o contexto era outro; havia uma atenção poética na organização do discurso; apesar de serem discursos altruístas, o plural  que exige passava muitas vezes a singular que partilha. Eram textos com uma identidade menos colectiva, apesar de serem textos em que uma pessoa se projecta. E, porque não me implicavam da mesma maneira, muito agradáveis de de ouvir.

E este contraste foi uma descoberta. Ali, nas quatro esquinas, no lugar de passagem, lançaram-se para o espaço público palavras e ideias para serem agarradas por quem quisesse. Foi um momento de promessa, que merecia ser repetido. O cruzamento está ali. As ruas estão mais vivas do que julgamos. Com um escadote, um megafone, ou nem tanto, basta levar uma ideia: há quatro esquinas para escolha, e o nosso dever falar.

Daquela tarde do futuro, resgatei estas frases no bloco de notas:

Nalgum lugar, hoje.

A falta de esperança faz com que uma sociedade apodreça de dentro para fora.

Temos tudo para combater as alterações climáticas. Só nos falta vontade política. Mas vontade política é uma energia renovável.

Desculpem se vos pareceu pouco, isto para mim é tudo.

Imagem por Luís Belo

BREVES CRÓNICAS DO TEMPO são pequenos episódios, registos, princípios de reflexão pelo dramaturgo Guilherme Gomes.

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