Rarefação

Por Inês Lampreia

Decorrida a ação principal, o ator surgiu novamente em palco e, recuperando os modos do teatro da antiguidade clássica, proferiu o epílogo de forma humilde, solicitando alguma compreensão do público:

“E assim entrámos na década da rarefação.  ̶  disse, de olhos fincados na plateia  ̶  Os escritores do futuro serão rarefeitos. Virão aqueles que acham que a escrita é um copy, uma frase ou um conjunto de frases, ou ainda um slogan capaz de prevalecer num néon durante as noites quentes de verão. Imaginemos locuções com apenas meia dúzia de palavras, palavras escolhidas em pormenor, partilhando uma ou outra ideia. Não mais do que isso… ideias em frases curtas, rápidas, eficazes.

O lugar incómodo trazido pelo escritor deixará de existir. A personagem André de Gionno, que acabaram de ver em cena e cuja última ação foi exatamente render-se à evidência de que não poderia escrever mais, entrará em exílio voluntário. Deixará de escrever. No futuro próximo, o romance, o ensaio, a tese… desaparecerão, em grande parte. O romance não passará das 100 páginas e os editores irão tratar a linguagem, meticulosamente apropriada aos tempos, passando a pente fino os estilos e maneirismos dos escritores, para os adaptarem às vontades e modas dos leitores.

O escritor não será mais aquele que observa o mundo e o reorganiza em narrativas, antes imperará o escrevinhador da frase simples e bonita, do slogan apropriado. Os emojis que, na sua génese não substituíam a escrita, apenas exprimiam as mais estandardizadas emoções, passarão a ser escrita.

Escrever-se-ão também mais textos próximos das letras da música pop, onde proliferam as repetições, e onde dizer uma grosseria curta se confundirá com um profundo haiku. Serão esses os poemas do futuro. E citando Steiner que nos lembrou que “a prosa é completamente permeável à desordem e às corrupções do mundo real”[1], sabemos que imperará a substituição de expressões, palavras e ideias por sinais… Igual passará a =, por exemplo.

Os novos escritores serão aplaudidos por isso mesmo, por criarem textos curtos, repetitivos, sincopados, iconográficos. E, em face da ausência de texto, o texto rarefeito será elevado a sublime.

Outros tomam o lugar dos filósofos: os ideósofos. Vão escrever-se mini-teses e reflexões várias, mas não imbuídas de um pensamento singular, novo, inusitado.

Qualquer indivíduo se autointitulará escritor. Professores serão escritores, jornalistas serão escritores, condutores de automóveis serão escritores, artistas serão escritores, curadores serão escritores, publicitários serão escritores, políticos serão escritores… mecânicos, ecologistas, médicos… dependerá da vontade de cada um assim se autointitular.

A literatura que se fez da relação entre o homem e um apelo à liberdade, e que se verifica ela própria numa relação de copresença entre a escrita e a leitura ou entre o escritor e o leitor tenderá a rarefazer-se por não servir as vontades do consumidor. E a vulnerabilidade, crucial para o processo de escrita, desaparecerá.

Nas feiras e mercados livreiros abundarão os novos tipos de projeção literária: mini sumários, reduzidos panfletos e escólios diminutos. De uma maneira geral, a estética da mensagem tenderá a substituir o seu conteúdo – o elemento da escrita que passará a valer será a forma.

Em determinado momento, iremos redigir o “manifesto contra o escritor total”, dedicado àqueles que escrevem por inevitabilidade, sem controlo de número de caracteres, que não são trabalhadores da escrita para cumprir prazos e que vivem a necessidade intrínseca de produzir literatura, exclusivamente, pelo gozo e não para um fim comercial.

O manifesto dirá: “Abaixo os escritores livres, de textos longos, de pensamentos articulados, de visões do mundo. Bem-vindos aqueles que dizem pouco e em poucas palavras. Os que infantilizam a escrita, os que não utilizam a pontuação. O pouco é novo e superficial e isso é bom. Acabar-se-ão as maiúsculas, as regras de virgulação, os advérbios de modo, os inícios e fins de frases e as intercalares, desnecessárias, claro está.”

E a história seguirá o seu curso. Ao contrário do que se possa esperar, os níveis de entendimento mútuo entre pessoas ao invés de serem altamente danificados pela ausência de leitura, escrita e, logo, do exercício de pensamento, ficarão cada vez mais horizontais e acessíveis. Os códigos de linguagem serão absorvidos com grande vitalidade porque detém as características dos tempos atuais: são rápidos, curtos e eficazes. Uma espécie de bonança abundará porque os textos difíceis desaparecerão e chegaremos ao momento em que apenas pequenas ideias passam de boca em boca. Poderá mesmo dar-se o caso de a ilustração ganhar, em muitas instâncias, o lugar da escrita e a fala, por conseguinte, ser reduzida ao essencial.

Como sempre, dependerá o essencial de quem o estabelece e das instâncias em que este opera. Mas, chegaremos então ao momento em que personalidades iluminadas – os novos ideósofos -, farão as suas elucubrações validando a evidência de que o destino da linguagem era, afinal, voltar à sua origem iconológica. O colorido e prolífero capital semântico que refletira as realidades multisseculares passará a arquivo protegido. A censura tal como a conhecemos ter-se-á dissipado e substituído por uma espécie de modelo de rarefação, operada pela nova repartição elitista dos poderes, ou seja, de quem detém os discursos do saber e da memória.  O Index Librorum Prohibitorum (o Índice dos Livros Proibidos) que durante séculos listou as publicações consideradas heresia e anticlericais, só abolido em 1966, é um marco na história da censura, mas estará muito distante dos modos de censura das próximas décadas. O Index fez parte do tipo de censura pela proibição, enquanto o futuro da censura está na apropriação natural da rarefação. A rarefação dos escritores, a rarefação dos livros.

Não quer isto dizer que o objeto livro desaparecerá. Pelo contrário, a rarefação faz-se pela abundância no objeto, pela mentalidade de mercado[2] e pelo espírito comercial aliado à doutrina de gestão. Assim, proliferarão livros, contudo de conteúdos fáceis, imediatos, eficazes que permitirão uma galáxia de formas de vender.

Cada palavra, cada gesto ou obra deveria continuar a ser uma pequena revolução, mas não. O escritor e as suas visões de mundo, o universo da narrativa e o mergulho único que a mesma possibilita, passará a coisa de um nicho de gente. Dirão alguns, “mas sempre foi de um nicho de gente?!”. Claro, mas agora o texto longo faz parte das coisas do tédio. O escritor proscrito, voltará, portanto, ao lugar que foi ocupando ao longo dos séculos, em determinados regimes ditatoriais, porém será proscrito porque pertence ao mundo daquilo que é entediante.

O ator fez uma vénia e retirou-se do palco, enquanto o público batia palmas vigorosamente.

[1] in Poesia do Pensamento, George Steiner, p. 29

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto por Enrico Sottocorn

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Comments

  1. Boa tarde,
    Gostei muitíssimo desta crónica. “O pouco é novo e superficial e isso é bom” remeteu-me para as frases do romance 1984, “Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força” e para a mesma crítica dos diversos totalitarismos, no 1984, mais dos políticos, nesta crónica, mais dos da literatura. O encadeado de tropos, no sentido filosófico, irónicos e sempre a raiar o fino sarcasmo, divertiram-me muito e muito me fizeram pensar. Talvez por estar entretido a ler os Ensaios do Michell de Montaigne, um livro – calhamaço- de mil e tal páginas, escrito por um pensador livre do século XVI, a crónica me tenha feito tanto sentido, quando por exemplo, nos obriga a reflectir que, “mas agora o texto longo faz parte das coisas do tédio”, ou que, o que já se passa na verdade, “Assim, proliferarão livros, contudo de conteúdos fáceis, imediatos, eficazes que permitirão uma galáxia de formas de vender”. Gosto deste tipo de escrita, seca, clara, concisa e certeira.

    Mensagem para a escritora da crónica: a escrita é um enigma, umas x > outras x <, mas sem importância é a % de quanto o escritor escreve, + ou – é irrisório, essencial & revolucionário é persistir e manter a ? e a ! bem vivas.

    Muito obrigado pela tua crónica!

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