Receita para curar a invisibilidade do trabalho doméstico?

Por Joana Neto

*Dedicado a todas as trabalhadoras domésticas no dia 08 de março de 2022

E se a receita é o mote para este artigo aqui fica a dita a correta leitura do artigo.

Recostem-se numa cadeira ou sofá onde se sintam confortáveis.
Abusem das almofadas, das mesas para pousar os pés, das mantas.
Não esqueçam as pantufas.
Coloquem a música ‘Libertango’ de Astor Piazolla (*integra a banda sonora do espetáculo).
Se quiserem pegar naquele vestido adiado
Chegou a hora.
Se vos apetecer os sapatos altos vermelhos
Chegou a hora.
Tragam um chá, um café, um sumo de laranja, um copo de vinho.
Façam uma posição de yoga ou um movimento que vos relaxe.
Dancem se quiserem.
Respirem fundo.
Imaginem uma situação em que sentiram o corpo muito cansado depois uma tarefa doméstica.
E se não são trabalhadores domésticas
Retenham a última imagem de uma trabalhadora doméstica que viram.
(Dia 4 de março. Sexta-Feira. Faculdade de Letras. Carregava um saco cheio de lixo pela manhã. Disse-lhe bom dia. Ela levantou a cabeça. E retribuiu. Ela levantou a cabeça. E retribuiu.)
E lembrem-se de, na vossa nova memória, a fazer levantar a cabeça.
Se são trabalhadoras domésticas descansem e respirem
Este artigo é-vos dedicado.
Façam a vossa greve intermitente que seja.
Não é ilegal descansar.
Não é normal ser explorada.
Tomem este tempo como vosso.
Ponham no forno a vossa energia à temperatura que quiserem
Sem tempo de espera.
Este tempo é vosso.
E, se tudo correr bem, sairão vozes de mulheres e homens, solidários com as vossas lutas.

«Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa» é o título de um texto do livro Novas Cartas Portuguesas (1971), das escritoras  Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, que deu o mote ao espetáculo criado, escrito e interpretado pela atriz Sara Barros Leitão no âmbito do projeto artístico Cassandra. A peça, sempre em modo lotação esgotada, tem vindo a ser apresentada em vários pontos do país (Lisboa, Loulé, Viana do Castelo, Santarém, Póvoa de Varzim, Coimbra, Guimarães, Viseu) e integrou a programação do Encontro «Trabalho Reprodutivo, Cuidados e Serviço Doméstico» organizado pelo Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS- UP) que teve lugar nos dias 4, 5 e 6 de março no Porto.

Conta-nos uma história negligenciada, uma história, que é tantas vezes feita das narrativas de heróis e personalidades, onde as mulheres, sobretudo mais fragilizadas socialmente, tendem a não ter lugar de destaque e onde as lutas de emancipação, resistência, da força bruta da coragem contra a opressão, são relegadas, com sorte, a nota de rodapé de um livro. Mas, e essa explicação é deixada no ar no espetáculo, quem procura encontra. A BASE-F.U.T, uma organização que surgiu na década de 60, mas fundada em Outubro de 1974 e ligada aos grupos católicos de oposição e resistência à ditadura fascista do Estado Novo tem publicações que nos permitem reconstruir este período. Sara Barros Leitão oferece-nos em esse legado em palco com extraordinária sensibilidade e colocando as suas reconhecidas qualidades como atriz ao serviço dessa causa verdadeiramente revolucionária: a de travar a invisibilidade e esquecimento do trabalho doméstico.

Enquanto se procuram lugares, o público recosta-se nas cadeiras de uma sala cheia, ouve-se todo o percurso sonoro até ao silêncio, entre o burburinho e o sussurro, e Sara Barros Leitão, de esfregona em riste, limpa, limpa, limpa. E, ou não houvesse uma expectativa sobre o que iria acontecer, tudo decorreria com a normalidade da invisibilidade, já que o trabalho doméstico conquista esse lugar de aparente invisibilidade automática, como se os braços e o corpo doridos não fossem nada… Mas ali não podia ser assim. De repente, estavam tantos olhos postos naquele chão fosco que ia ganhando cor e naqueles braços que simbolizavam a força de trabalho de mais uma de tantas mulheres, entre as muitas que asseguram o trabalho doméstico. As mulheres que parecendo invisíveis circulam nos corredores dos espaços públicos, das faculdades, escolas, universidades, hospitais, tribunais, centros de saúde, que tendem a olhar para o chão e a habituar-se a não serem vistas.

Este espetáculo tinha um objetivo explicitado nos primeiros minutos. Contar-nos a história da criação do primeiro Sindicato do Serviço Doméstico em Portugal. Uma história de mulheres chegadas à capital com pouco ou nada, da sua capacidade de transformação apesar da sua jornada de trabalho infindável, dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos intermináveis. Na peça ouvem-se as vozes da humilhação que sentiam por serem as criadas mal remuneradas que tratavam da roupa, da casa, da comida, dos filhos, que faziam os favores, os biscates, que desentupiam a fossa, e ao mesmo tempo aquelas de quem desconfiavam, que acusavam de ladras e as que servilmente obedeciam sem poderem interromper nem perguntar e deviam estar gratas por ter um teto onde o tempo de dormir podia ser o de tirar os calos da patroa. As que tinham de saber estar caladas, por ser o autoritarismo da ordem e a rigidez dos comandos a certeza dos patrões de que não questionariam, de que não se insurgiriam, e que tudo se manteria atávico, imutável, sob o véu do privilégio dos que mais têm, como manda o sonho burguês. Elas vinham do interior para Lisboa, tantas tão novas, tão crianças quanto os filhos dos patrões, tantas vezes abusadas sexualmente, como nas cartas que Sara partilha em cena.

A história começa com a provocação do governador civil de Lisboa, Lelo Portela, instigado pela agitação burguesa que fazia correr tinta nos jornais. Em 1921, o Jornal de Notícias publicava «Nestes últimos tempos, por uma criada fiel, dedicada, obediente, calada, cumpridora dos seus deveres, havia 99 respondonas, namoradeiras, caluniadoras». E é por esta altura que Lelo Portela cria uma licença obtida junto da polícia, pago pelas trabalhadoras, na senda de um certificado de registo criminal, que comprova que as empregadas domésticas não tinham praticado ilícitos nos três anos anteriores. Em maio, uma manifestação pública travou este processo persecutório e daí até à organização sindical e à criação dos estatutos foi um passo. Um passo de gigante por não terem folgas e ser tão difícil organizarem-se.

Toda a construção do espetáculo, suportada numa pesquisa e investigação notoriamente cuidada, é um recorte de História, mas sobretudo o recorte de muitas histórias, na primeira pessoa e é feito com uma audaciosa simplicidade emprestada também por Nuno Carinhas (que o Porto espera, saudosamente, que regresse muitas vezes à cidade onde deixou boas memórias) na cenografia e figurinos.

A comoção que o espetáculo provoca não lhe retira combatividade. E é um espetáculo de uma força pungente e dolorosa. Sobre trabalhadoras. Sobre mulheres. Sobre opressão. E sobre luta. Imperdível, claro.

«Pois então cá vou à vida, que me faltam as
louças, ajuntamente com as roupas e não
posso ter mais folgas se quero acabar hoje.
Pois então com a sua licença, minha senhora,
com a sua licença…»

8/5/71
«Novas Cartas Portuguesas»
Maria Isabel Barreno
Maria Teresa Horta
Maria Velho da Costa

Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa
Criação e interpretação: Sara Barros Leitão
5 de março de 2022
Teatro Nacional São João

Entrevista de Sara Barros Leitão ao Coffeepaste

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