Resgatar a memória de amor e revolução nos 50 anos de Abril

Por Joana Neto

«Eu achei que ele era um rapaz bonito, com um
cachecol vermelho atado ao pescoço e com uma
porção de livros debaixo do braço».
Margarida Tengarrinha

Em 2022 começam as comemorações dos 50 anos do 25 de abril. Muitos dos que contribuíram para a liberdade que se alcançou materializada nesse dia ‘inteiro e limpo’ – segundo a descrição de Sophia de Mello Breyner Andresen – e que enfrentaram a prisão, o exílio, a tortura, a clandestinidade, vêm de gerações que desaparecerão.

O espetáculo em cena na sala estúdio do Teatro D. Maria II torna clara essa urgência de guardar testemunhos diretos de resistentes antifascistas e em preservar o seu legado. E são testemunhos, presenciais e em vídeo, que nos permitem resgatar espaços da nossa memória coletiva onde se esconde uma tensão entre um passado e um presente que se quer transformado à luz de reivindicações tanto antigas quanto novas, mas que necessita sobretudo de continuar a ser transformador. Na conversa no final do espetáculo e mesmo durante a peça André Amálio, seu criador, mas também intérprete na condição de narrador personagem, reitera essa intenção de guardar registos na primeira pessoa, de preservar palavra e memória.

A peça «Esta é a minha história de amor» é uma produção da companhia de teatro Hotel Europa (com direção artística de André Amálio e Tereza Havlíčková), uma companhia que se tem vindo a dedicar ao teatro documental, partindo de uma pesquisa historiográfica combinada com entrevistas e testemunhos para abordar questões ligadas ao colonialismo, fascismo, migração e gentrificação.

O espetáculo fala de amor na revolução, num contexto em que estas palavras se combinam, confundem e transformam individual e socialmente. Fala-nos dos desencontros, mas sobretudo dos encontros.

Encontros como o encontro de sorte e ‘fortuna’, descrito de forma avassaladoramente ternurenta, entre Mariana e Armando Morais.

Encontros marcados por momentos trágicos, como o da morte de José Dias Coelho, e que Margarida Tengarrinha descreve com a lucidez e força que lhe parecem intrínsecas. Aquele dia 19 de dezembro terminou de forma cruel. Como cantou Zeca Afonso: ‘o pintor morreu’. A notícia chega-lhe a 26 de dezembro, data que descreve com a clareza de uma marca feita de dor, a dor que ofuscou todos os seus natais, os natais de luzes e árvores do burgo lisboeta. Foi naquele dia em que soube que o seu amor morreu. E parece que estamos com Tengarrinha a atravessar aquelas horas que não sabe quantificar em que ficou, com o saco onde levava as prendas dos filhos para o pai, na zona de Belém, a ver o Tejo de olhos vazios depois de um camarada lhe entregar aquele fardo tão pesado: O camarada José Dias Coelho não está preso. Foi assassinado pela PIDE.

A Morte Saiu A Rua – YouTube

Voltemos ao início: «Éramos bonitos não eramos?». Eram, pois. Os artistas da ‘oficina de falsificações’.

Vidas Prisionáveis – Margarida Tengarrinha – YouTube

Contam-nos histórias onde o amor ou é mais uma vítima do regime, seja à laia da separação forçada, seja por o fascismo proibir também as manifestações de amor, ou resiste apesar do medo, do silêncio, das rotinas transformadas, da distância e da prisão, como o de Isabel do Carmo e Carlos Antunes cujo encontro se dá em Paris, um encontro que se constrói em cima de uma afinidade política e que marca a dissidência do PCP, a de seguir a via da luta armada ou a da separação dos filhos, como o de José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha, resistentes antifascistas e militantes do PCP, que se vêm obrigados a afastar-se da sua primeira filha Teresa ainda pequena.

As histórias de amor partilhadas em cena fizeram a revolução mais forte. Histórias que fortaleceram o amor feito de um objetivo comum, de um ideal de liberdade, democracia e igualdade, onde todos têm lugar menos a opressão. E não era uma liberdade qualquer, era a liberdade de todo poderem almejar escolher «a paz, o pão, habitação, saúde, educação» (Sérgio Godinho).

Armando Morais, Isabel do Carmo, Mariana Morais e Adolfo Maria, Gouveia de Carvalho, Margarida Tengarrinha, Mário Jorge Maria integram este espetáculo com arranjo musical de Mariana Camacho que encontrou na improvisação, como nos explica no final, a resposta para os desafios de André Amálio.

Há vários motivos para ir a este espetáculo, mas há um essencial e chama-se, independentemente das leituras e das vias que cada um seguiu, gratidão. Tal como André nos tinha avisado, saímos do espetáculo a sentirmo-nos um pouco filhos daquelas pessoas, afinal somos também filhos da madrugada, filhos da revolução. E é difícil não concluir que apesar desta dívida nunca se saldar temos também o dever de continuar esse legado, porque foram eles que nos deram a liberdade para continuar e construíram um lugar onde a escolha existe.

Esta é a minha história de amor, de André Amálio e Tereza Havlíčková / Hotel Europa
02/04/2022
Teatro Nacional D Maria II
Em cena até 10/04/2022

Comments

  1. Catarina Morais says

    Muito obrigada. Uma pequena correcção, o encontro de sorte e fortuna foi entre Mariana e Armando Morais e não com Adolfo Maria. Saudações

  2. Maria Manuel Mota says

    Gostei muito. A encenação está espetacular. Achei uma boa forma de transmitir aos mais novos a vida e as vivências de tempos muito difíceis.

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