Resistência e luta nos passos do samba

Por Sara Figueiredo Costa

O novo trabalho de Luca Argel é um disco que é jornal, concerto, performance e conversa, onde se contam algumas histórias do samba a partir das lutas que lhe deram origem.

Há quatro anos, numa entrevista à Blimunda, Luca Argel falou sobre Samba de Guerrilha, um concerto feito de canções e conversas, uma performance musical que talvez um dia viesse a ser disco, fanzine ou objecto portátil que rodasse de mão em mão. Naquela altura, era um pequeno espectáculo que nascera por convite da associação Contrabando, do Porto, e que por vezes acontecia por aí, em salas maiores ou menores. A ideia era levar ao palco um concerto assumidamente didáctico, onde um conjunto de sambas mais interventivos iam sendo interpretados, havendo espaço para algumas contextualizações sobre a história do samba, a sua ligação à escravatura e ao colonialismo, os seus modos de resistência ao longo do tempo.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1988, Luca Argel mudou-se para o Porto em 2012 para estudar literatura. Cumpriu esse projecto, mas inaugurou, de caminho, vários outros. A sua inquietação permanente deu origem a livros, discos, projectos múltiplos partilhados com vários companheiros de caminho deste e do outro lado do Atlântico. Naquela entrevista de há quatro anos, realizada a propósito do lançamento do disco Bandeira, Samba de Guerrilha era apenas mais uma das muitas coisas que o carioca-portuense fazia acontecer sem grandes planos. Ainda assim, era de suspeitar que valia a pena fixar o título e esperar. Agora, Samba de Guerrilha está aí, assumindo uma forma simultaneamente virtual e física. Por um lado, é um disco que não existe noutro suporte que não o digital, podendo ser comprado na página do autor e escutado em qualquer computador, telefone ou similar. Por outro, é um jornal de grande formato, impresso a azul e cor de laranja, onde as letras dos sambas gravados se fazem acompanhar de textos sobre as canções, as suas origens e referências, e de ilustrações criadas por José Feitor, imagens que retratam algumas das personagens das muitas histórias contadas por estes sambas e, principalmente, os elementos históricos e culturais que nelas se fundem. Esses textos, na versão áudio, são lidos por Telma Tvon, rapper e também escritora.

Resistência e mistura na raiz do samba

O samba não começou na Avenida Sapucaí, nos desfiles de imensa produção televisiva ou no som padronizado que tantas vezes se apresenta como marca do Carnaval. As raízes são várias, dispersas por tempos e espaços, mas têm em comum a diáspora forçada de milhões de pessoas nascidas em África, aprisionadas em porões de navios e escravizadas no Brasil, primeiro pelo governo colonial português, depois pelo brasileiro.

Abolida a escravatura, em 1888 o preconceito racial em que o seu sistema assentava não desapareceu – ainda hoje se mantém, o que já é história para outros sambas. Libertados por decreto, os negros viram-se sem trabalho, casa ou alternativas, como se lê num dos textos deste Samba de Guerrilha: «ao abandonar à própria sorte 700 mil negros e negras, da noite para o dia, sem trabalho, sem educação, sem terra, e ainda por cima com o peso do racismo sobre as costas, a abolição brasileira trouxe a liberdade no papel, mas na prática plantou a semente da mais profunda desigualdade social.» Muitos regressaram às fazendas, escuta-se na canção «Na fazenda do senhor», um jongo tão triste como a situação que descreve, outros começaram a migração para as cidades, nomeadamente para o Rio de Janeiro, a capital. E será aí, entre as várias heranças culturais trazidas e mantidas desde o tempo dos porões, que nascem as rodas de samba, lado a lado com os terreiros de candomblé e a ginga da capoeira. A liberdade estava conquistada, mas o caminho continuaria a ser de luta, de muitas lutas. Faltava a justiça, a igualdade, o direito à vida, ao trabalho, à habitação, a quase tudo.

Clandestinos

Na Praça Onze de Junho, no Rio de Janeiro, fervilhava essa nova música que também era dança, narrativa, modo de ver e viver. Havia outros lugares, mas este era a referência. Ali perto, viviam várias comunidades de descendentes de escravizados e imigrantes europeus e de outras origens, cuja mão de obra veio ocupar – de modo precário – o vazio deixado pela abolição da escravatura.

Batucadas, danças de roda, cultos a orixás e outras entidades, tudo se misturou e cresceu, ocupando espaços e horas, facilitando sociabilizações e celebrações. Para as autoridades, eram apenas sinais de pouca civilização, rapidamente elevados a perigos públicos.

 

Foi assim que o presidente Getúlio Vargas, ao aprovar o traçado da imensa avenida com o seu próprio nome, pediu aos engenheiros responsáveis pela obra que criassem um desvio inicialmente não previsto, de modo a destruírem essa praça ocupada pelas comunidades que o poder não só queria ver longe do centro, mas tentava a todo o custo apagar da vida da cidade. Em «Praça Onze» conta-se essa história, num samba composto por Grande Otelo e Herivelto Martins: «Chora o morro inteiro/ Favela, Salgueiro/ Mangueira, Estação Primeira/ Guardai os vossos pandeiros, guardai/ Porque a Escola de Samba não sai». Seguiu-se a Lei da Vadiagem, aprovada em 1890, que permitia a perseguição policial e a detenção de qualquer pessoa suspeita de relação com as culturas afro-brasileiras. Transportar um pandeiro, dançar, gingar, tudo isso era motivo de violência policial legalmente justificada e, em última instância, de cadeia.

A ofensiva foi dura, mas o samba resistiu. Nelson Sargento, autor de «Agoniza mas não morre», escreve estes versos, mostrando que a longevidade do samba não sucumbiria a nenhum dos seus algozes: «samba/ agoniza mas não morre/ alguém sempre te socorre/ antes do suspiro derradeiro/ samba/ negro, forte, destemido/ foi duramente perseguido/ na esquina, no botequim, no terreiro». A resistência, no entanto, custou muitas vidas, para além de várias investidas urbanísticas que se destinavam, nas palavras do governo, a civilizar a cidade, e que acabaram com as habitações de comunidades inteiras e com os seus espaços de convívio ou religiosidade.

Salve, Almirante Negro

Em 1910, a bordo de um navio atracado ao largo do Rio de Janeiro, escrevia-se a carta que acompanhava aquela que ficou conhecida como a Revolta da Chibata. Marinheiros de baixa patente, quase todos negros e pobres, assumiram colectivamente que era tempo de pôr fim aos castigos corporais que a Marinha continuava a praticar. Sequestrados os oficiais superiores, navios ocupados e canhões apontados à capital do Brasil, os revoltosos escreviam:

Ilmo. e Exmo. Sr. presidente da República Brasileira,

Cumpre-nos comunicar a V.Excia. como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os Oficiais, os quais, tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça os Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço diário, que a acompanha. Tem V.Excia. o prazo de 12 horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada. Bordo do Encouraçado São Paulo, em 22 de novembro de 1910. Nota: Não poderá ser interrompida a ida e volta do mensageiro.

Marinheiros.
Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910.

A exigência foi cumprida e João Cândido, líder da revolta, ficou conhecido como o Almirante Negro. Em 1974, Aldir Blanc e João Bosco escrevem um samba que narrava a valentia de João Cândido e dos seus companheiros de luta, vencedores desse braço de ferro que acabou com as chibatadas a bordo dos navios da Marinha – chibatadas essas que tinham como alvo as costas dos mesmos marinheiros negros e pobres que se levantaram nesta revolta. Esse samba intitulava-se «Almirante Negro» e tinha três versos cantados em tom de festa e combate que eternizavam explicitamente João Cândido: «salve o Almirante Negro/ que tem por monumento/ as pedras pisadas do cais». Como seria de esperar a censura de então não permitiu que a mais alta patente da Marinha fosse associada a uma pessoa negra e proibiu a letra e o título desse samba, que passou a chamar-se «Mestre-sala dos mares», com a expressão «Almirante Negro» substituída, na letra, por «navegante negro», de modo a poder ser gravado. Como tantas vezes acontece, a censura não estava isenta de ignorância e o verso onde se diz que «o Dragão do Mar reapareceu», uma referência ao jangadeiro do porto do Ceará que liderou um movimento abolicionista, recusando-se a transportar as pessoas escravizadas para os navios negreiros, passou incólume…

Neste disco-jornal, Luca Argel volta a cantar «Mestre-Sala dos Mares» com as palavras originais, saudando o Almirante Negro e a sua luta, que era a de tantas pessoas. E no texto que acompanha a canção no alinhamento de Samba de Guerrilha, lê-se: Fica bem claro aí que nem a abolição, nem a república, nem as revoltas foram o bastante para acabar com o racismo estrutural no Brasil. O racismo que perseguiu o samba, que perseguiu a capoeira, que perseguiu e persegue até hoje a macumba, e tudo mais que seja invenção da cultura negra. Este racismo vem de um tempo que ainda não ficou para trás.»

Expurgado da vontade rasa da censura, este será o samba que une os muitos fios que se cruzam neste Samba de Guerrilha, da escravatura à clandestinidade, da luta contra o racismo que não acabou com a abolição do regime esclavagista à situação político-social que o Brasil atravessa, convocando velhos fantasmas e invocando a necessidade de novas lutas. O samba não faltará à chamada.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda 102.

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