Ricardo Alves – Entrevista

A completar 20 anos de actividade, a Palmilha Dentada tem finalmente uma sala própria, aberta à cidade do Porto, com programação para vários públicos. A abertura do “Lugar” aconteceu no dia 12 de novembro de 2021 com um ensaio aberto de “Vicenzo”, a mais recente estreia da Companhia. Conversámos com Ricardo Alves, um dos fundadores do Teatro da Palmilha Dentada, sobre este marco de duas décadas e esta nova fase da companhia.

Que balanço fazes dos 20 anos da Palmilha Dentada?
20 anos é muito tempo e no entanto não chega para muito. Sei que são apenas os primeiros 20 anos, mas o meu lado ansioso faz-me sempre desejar mais. E se o balanço dos primeiros anos é positivo, as ansiedades que ficam sem resposta são imensas. E isso é bom. Ansiar é bom.

A Palmilha nasce num tempo bom para a cultura no Porto, com Manuela de Melo à frente do pelouro da cultura da Câmara Municipal em plena capital da cultura. A Palmilha não nasce como projecto integrado no Porto 2001, mas porque calhou. Mas essa faceta, de margem de grande evento, acompanhou a Palmilha por muitos anos. É companhia que fez o seu caminho, procurou espaço para desenvolver actividade e criou cumplicidades, principalmente com o público. Foram vinte anos a inventar oportunidades, a inventar salas, a aproveitar propostas. Uma companhia oportunista que de cada oportunidade fez caminho. Sendo o público quem lhe permitiu existir 20 anos sem apoios estatais. Coisa que para alguns é suspeita, e para outros mau exemplo, por poder parecer que é possível a arte sem apoio públicos.

Fala-nos um pouco do documentário de Tânia Dinis sobre estas duas décadas de actividade
“21h46” não é um documentário, é, como lhe chama Tânia Dinis, um filme ensaio. ”21h46 porque essa sempre foi a hora nocturna dos espectáculos da Palmilha e é um filme ensaio porque, mais que um elencar da história da companhia, é a visão de alguém que sempre acompanhou a actividade da Palmilha Dentada enquanto espectadora e amiga. Não é a exposição de actividades, é um olhar para o âmago.

O “Lugar” era um sonho antigo? Como surgiu a oportunidade de terem um espaço de apresentação?
Sempre foi nosso desejo ter casa própria, onde pudéssemos dar continuidade à política cultural da companhia, sem os condicionamentos de ocupar casa emprestada. Porque muitas vezes – principalmente nos últimos anos – os objectivos artísticos e políticos de artistas, programadores e restantes agentes da cultura nem sempre são coincidentes. Consideramos que o público é razão primeira e principal de fazer teatro. Fazer para ser ouvido, fazer para questionar e fazer para inquietar. E ser escutado pelo máximo de gente possível, poder estrear um espectáculo, e se for daquelas fornadas que até saem saborosas, ter a possibilidade de permanecer em cena até que mais ninguém tenha curiosidade de ouvir o que temos a dizer.

Esta oportunidade nasceu de dois apoios, da repescagem do concurso aos apoios sustentados de 2019 e do apoio especial do Garantir Cultura. O projecto do garantir cultura foi elaborado tendo como base a ocupação temporária de um espaço com programação e formação. O projecto da DGArtes, para ser concretizado um ano depois do previsto, teve que sofrer várias alterações porque outros apoios já tinham caído e alguns projectos já tinham sido realizados quando o projecto foi repescado ao abrigo das medidas especiais do governo com vista a reduzir o impacto da covid nas estruturas culturais.

Sabendo que seria impossível encontrar salas de acolhimento que não estivessem com programação sobreposta devido ao confinamento, e onde fosse possível executar o nosso projecto, optamos por refazer o projecto passando parte da actividade para um novo espaço na cidade.

Como está a ser pensada a programação do “Lugar”?
O LUGAR é um espaço com dupla “gerência”, quase um time sharing, onde parte do ano é de programação do Teatro da Palmilha Dentada e parte da Narrativa Provável, uma associação cultural da cidade. No tempo de “gestão” da Narrativa Provável, a programação será mais virada para a formação e reflexão sobre as políticas culturais.

A Palmilha irá apostar em diversas vertentes.

Primeiro nas suas próprias criações, sendo o Lugar o espaço privilegiado de apresentação das suas produções de média dimensão, continuando a privilegiar o humor e textos originais.

A segunda linha de programação será a apresentação de espectáculos para a infância, tanto de programação própria como em acolhimento, com a realização de espectáculos de teatro, marionetas, sessões de contadores de histórias e outras actividades dirigidas às famílias.

A terceira vertente será o acolhimento de projectos emergentes, que habitualmente não encontram espaços de apresentação na cidade, e companhias de fora da cidade que não são programadas habitualmente nas infraestruturas existentes.

A última componente será a formação e reflexão sobre as práticas artísticas e políticas culturais, porque a cada momento estamos obrigados a perceber onde estamos e para onde podemos ir.

Como olhas para o panorama cultural da zona do Grande Porto?
O Porto é um lugar engraçado. Um concelho pequeno, tanto em área, como em população, mas acaba por ser a cidade fornecedora de cultura para os habitantes da área metropolitana. A demissão de alguns concelhos  limítrofes das suas obrigações nessa área é preocupante.

Nos últimos anos parece-me estarmos a viver um equívoco que apenas um estudo estatístico poderia esclarecer. A sensação que tenho é que se multiplicaram sessões, com óbvias subidas de públicos, mas que no fundo é um fenómeno principalmente alimentado pelos públicos que já existiam. As pessoas vão mais a espectáculos, mas são as mesmas pessoas que vão mais vezes. Não há um efectivo aumento de públicos de eventos culturais, não havendo por isso as vantagens da exposição da população em geral à cultura.

Por outro lado é de assinalar a escassez de salas de espectáculos com capacidade de programação – quer financeira, quer técnica – principalmente numa cidade onde há duas escolas superiores de teatro e duas profissionais. Não há um circuito alternativo que possa ser feito pelos jovens criadores de forma a evitar uma exposição de vulnerabilidades, faltam salas onde se possa assumir o erro que é necessário correr para encontrar a própria voz.

E como olhas para o futuro a médio prazo da Palmilha Dentada?
Com um sorriso. Pelo menos até ao final de 2022 , data em que finda o actual apoio sustentado da DGArtes. Depois logo vejo como é que vou arranjar maneira de continuar a sorrir. Eu gosto de sorrir.

Peço-te um desejo para as Artes, para os tempos mais próximos
Dinheirinho, que do resto os artistas tratam, sem necessitar de génios que realizem desejos.

Foto por Julio Eme

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