Rios Subterrâneos

Por Guilherme Gomes

Nas mãos, um ramo de oliveira fino o suficiente para se poder dobrar. Ele chama-se Rodrigues, e passa os dias a conduzir homens de obra em obra; supervisiona, dá ordens, orienta. Quando falo do ramo de oliveira que tem nas mãos, remeto-nos para uma tarde do verão de há dois anos: estou a caminhar com ele por um caminho da quinta, e ele tem o ramo na mão. Dá passos lentos, e respira metodicamente. A certa altura, por uma espécie de magia, o ramo dá uma volta. Se o imaginarmos com a forma de um “U”, a parte côncava volta-se para fora, e ele diz Aqui. É aqui que se tem de furar. Quer isto dizer que aqui há água. A uns metros de profundidade há um lençol de água. Um lençol de água, com todos os acidentes que deve ter, transmite uma irresistível sensação de tranquilidade; e este ramo de oliveira revela um segredo que parece impossível: quem diria que debaixo do caminho de pedra, calcetado há tanto tempo, aqui, debaixo de onde os pés pousaram tantas vezes ao longo de tanto tempo, aqui há um curso de água. É difícil de imaginar. Rodrigues faz isto desde criança, altura em que, para além de dar com a água através da técnica do ramo de oliveira, ainda descia pelo buraco, no momento da escavação: está aqui em casa para abrir um furo na terra, para tornar acessível esta água subterrânea.

Leio que o segundo maior reservatório subterrâneo de água no mundo se chama Guarani, é o Aquífero Guarani, e percorre uma extensão que passa pelo Uruguai, Argentina, Paraguai e Brasil. Furos nos diferentes países levam à mesma água. Posto de outra forma, esta é uma água que dilui as fronteiras, atravessa ou é partilhada pelos diferentes países.

Começo por falar nestes canais de água subterrâneos porque me parece que também ideias e sentimentos funcionam assim: como se rios subterrâneos, discretos, invisíveis, mesmo impossíveis de imaginar nos atravessassem. Como quem dá uma nova definição para o gesto criativo, que é, tantas vezes, muito mais de descoberta que criação. Como se andassem as pessoas com ramos de oliveira, a caminhar cautelosamente sobre o terreno que somos, à espera que o ramo dê sinal para que se possa furar o solo, descobrir a água, revelar a sua substância, e perceber que o mesmo rio subterrâneo dá de beber às raízes de tantos terrenos diferentes.

Descobrir uma frase, uma melodia, ou um traço. Nem tanto introduzir uma novidade, mas revelar o que já existe. A criação é, nestes momentos, o mais franco e revelador olhar sobre nós próprios.

Rodrigues abriu o poço. Montou-se um motor. Puxou-se para a superfície a água subterrânea, e com ela encheu-se um tanque. Então, tu mergulhaste na água ainda gelada. A primeira pessoa a fazê-lo. A primeira pessoa completamente mergulhada nesta água secreta. A primeira pessoa, pronta para emergir.

BREVES CRÓNICAS DO TEMPO são pequenos episódios, registos, princípios de reflexão pelo dramaturgo Guilherme Gomes.

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