Rodrigo Brandão – Entrevista

De 2 a 4 de dezembro, 13 músicos de jazz e música experimental de Portugal e do Brasil estarão na Fábrica do Pão (Casa do Capitão), das 18h30 às 21h30, a tocar em improviso para a gravação do novo álbum do artista de spoken word Rodrigo Brandão. No domingo, dia 5 de dezembro, haverá um concerto de encerramento que reunirá todos os participantes no palco do Musicbox, das 17h00 às 21h00. Conversámos com Rodrigo Brandão para saber mais sobre ele e sobre o evento.

Fala-nos um pouco do teu percurso
Bom, já que estamos sob o impacto do Get Back essa semana, aproveito pra usar uma canção dos Beatles no rascunho desse roteiro: The Long And Winding Road! Mas aí, que jornada! Tenho muito, mas muito o que agradecer por tudo que vivi, gozei e aprendi até aqui… Mas longe de mim querer alugar o leitor com todo sangue, suor e lágrimas.

Vale dizer que tambores me tocam. Que caneta, papel e microfone são meus instrumentos musicais. A voz é o amplificador da alma. Durante duas décadas, mergulhei de cabeça no hip hop, em modo MC, na arte da lírica.

Até que, em 2017, percebi que a poesia sincopada que lapidei nessa labuta queria, e podia, ir além das grades do grid, tanto aquele das bases pré-mapeadas disparadas de uma controladora por qualquer um que tenha um dedo na mão, quanto aquele imposto pela estrutura da música pop contemporânea.

De lá pra cá, o verbo vem voando boca afora de forma fluída e formosa, com todas as bençãos.

Como caracterizas o teu universo artístico?
Macumbeiro por excelência. Urgente. B-boy por um lado e punk por outro. Guerrilheiro sem dúvida. Muito brasileiro e (quase) nada brasileiro, ao mesmo Tempo…

Uma trama de Tarantino ambientada entre África, Nova Orleans e a Bahia Fantástica, estrelada por Orixás de máximo esplendor, e outras forças da ordem do espiritual. Temperada porém pelo veneno que só a cidade de São Paulo pode tatuar na tua alma.

O que te inspira a criar?
A vida. Aquilo que sinto, tanto a dor quanto a glória. Minha família amada: Piri, Yakémi & Omotunde. Os antepassados. Fé cega e faca amolada. A jornada interna, individual e intrínseca de cada pessoa no planeta. A atmosfera em torno. A expressão artística de outras almas, com destaque pra escrita, cinema, dança, artes plásticas… e sobretudo a música, essa deusa tão poderosa.

Fala-nos do evento LX LIVRE que acontecerá de 2 a 4 de dezembro
Encaro o acontecimento como uma daquelas ocasiões em que as estrelas se alinham, sabe? Trata-se de toda uma cinemática de relações que culmina numa cena musical rica e borbulhante. Falo da comunidade portuguesa de free jazz / improvisação. Esse nicho, com o qual me identifiquei no ato, é o sítio que cá habito, é a minha morada lusitana, existencialmente falando.

Assim, já pulsava no peito a vontade de registrar em disco essa vivência, essa gama de encontros, amizades e parcerias que venho experimentando desde a chegada em Lisboa, há pouco mais de um par de anos.

Agora vai: LX Livre se materializa enquanto eu teclo essa resposta!

O que inspirou o dispositivo em que vão decorrer as gravações?
Eu já vinha conversando com a Mariana Lemos, da Afárá Realizações Artísticas, discutindo a melhor forma de concretizar tamanho sonho. Depois que assistimos A Dog Called Money, documentário que mostra o processo de criação do disco Hope Six Demolition Project, da PJ Harvey, ela pirou de produzirmos o meu novo album num processo inspirado no formato proposto por Polly Jean: o prisma do estúdio enquanto instalação, na qual a obra exibida é o processo de gravação em si.

Fala-nos deste processo de composição em tempo real
Da mesma maneira que a gente ajusta a frequência do rádio para captar melhor a transmissão, entendo que existe uma espécie de consciência cósmica, que quando sintonizada, faz fluir de modo natural a técnica da composição em Tempo real. Tem tudo a ver com escolhas, musicais sem dúvida, mas também estéticas, filosóficas… e sensoriais. O fato é existem uma porção significativa de grandes instrumentistas que se devotam a essa forma de arte, que considero de uma honestidade comovente. É música feita no instante, se alimentando da atmosfera daquele instante, pra traduzir em sons e devolver pro mesmo instante: o agora.

Que convidados vão passar pela Fábrica do Pão?
Modéstia à parte, a gente conseguiu convocar uma seleção do mais alto nível! De Portugal, tem o trompetista Luís Vicente, os bateristas João Valinho e Pedro Melo Alves, a incrível Carla Santana nos eletrônicos, além de dois totens do jazz daqui: o contrabaixista Hernâni Faustino e o saxofonista Rodrigo Amado, a quem agradeço em especial pois foi o primeiro que conheci, quem abriu as portas do país para a arte que passa por mim para chegar aqui no Aiyê.

Do Brasil vem três dos meus mais longevoscomparsas! Dois deles tocam no Hurtmold: Guilherme Granado (eletrônicos – também do São Paulo Underground, GOATFACE!) e Marcos Gerez (baixo). O terceiro é o saxofonista Thiago França, conhecido como membro do Metá Metá, cuja assinatura está nos créditos de produção do meu primeiro disco solo, Outros Barato.

Além deles, tem o percussionista Fabio Freire (brasileiro residente na Suíça), o baixista carioca Felipe Zenícola e o saxofonista paulista Yedo Gibson, ambos radicados aqui, assim como eu.

O que esperar da festa de encerramento?
Nada menos que uma esbórnia de energia radiante! Evento cataclísmico de convergência de bambas, um cerimonial de celebração. Afinal, música é vida e vida é música. Vislumbro cataratas de som forjado em fogo, intensidade, acolhimento, pororocas de palavras pipocando, humanidade, e esse momento. O compromisso coletivo em traduzir esse exato momento. Quem assiste, em geral sente.

Peço-te um desejo para as Artes, para os tempos mais próximos
Poxa, na fase atual vou ter que fazer o milagre da multiplicação de desejos, pois como diriam meus amigos do Elo Da Corrente, se faz necessário voar. Então lá vai: Inspiração, sempre. Coragem. Plenitude. Entrega. Profundidade. Valorização. AXÉ!

Foto por Inês Mineiro Abreu

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