Rui Ramos – Entrevista

A Baal 17 está sediada em Serpa desde o ano 2000 com o objetivo de fomentar o interesse das populações pela cultura em geral e pelo teatro em particular, interligando a Companhia com as escolas, a comunidade e as mais variadas entidades e instituições nacionais e internacionais.

A sua atividade desenvolve-se em três áreas: Criação teatral e itinerância; Programação e Educação, onde desenvolve o programa de Teatro, Educação e Comunidade (TEC). O ponto de fuga em termos de objetivos estratégicos da Companhia é a construção do Centro Artístico “Cultura Viva”.

Conversámos com Rui Ramos, Director Artístico da Baal17 para saber mais sobre o projecto.

Que balanço fazes do percurso da Baal17?
Completamos 21 anos de trabalho ininterrupto. Em 2000 caímos, como se costuma dizer, de paraquedas em Serpa. Para um grupo de atores recém-formados aparecer assim, do nada, numa vila do interior alentejano, foi uma estranheza não só para nós, mas também para a localidade. Tivemos que construir tudo a partir do nada, e mais do que perceber o que nos apetecia fazer como atores foi importante conhecer as necessidades do território, que utilidade teríamos naquela região e naquela comunidade.

O nosso caminho artístico e cultural fez-se “degrau a degrau” observando e procurando a validade do teatro como instrumento de diálogo e valorização das pessoas. Foi a partir de Serpa que fomos criando e descobrindo novos caminhos, foi sempre uma aprendizagem conjunta. Desbravar um campo muito novo, muito fértil, com o trabalho que desenvolvemos nos primeiros anos com o teatro na educação. Depois talvez um caminho mais próximo com a terra que nos ligou a uma visão particular das temáticas rurais ao mesmo tempo olhando para o resto do mundo. Descobrimos depois a liberdade de inventar e aproximar esta relação do teatro com o público. Hoje os caminhos estão bem traçados, criámos ao longo destes anos uma espécie de mapa, uma cartografia de emoções, de valores artísticos e humanos que se vão renovando e que nos permite olhar para o futuro.

Como é a relação com a comunidade de Serpa?
A construção dessa relação sempre foi o maior desafio da Baal17. Haveria mil formas possíveis de fazer o nosso caminho em Serpa e na região. O Alentejo, tal como as outras regiões, tem as suas peculiaridades. Acho que é necessária uma constante observação, participação, envolvimento, parceria e diálogo para encontrar um entendimento. Algumas estruturas teatrais da região ficaram pelo caminho nestes últimos anos, mas a Baal17 não só resiste como também solidifica o seu projeto. Desde o início percebemos que o nosso trabalho na criação, na programação, na educação, teria de ser constantemente ativo, provocador, estimulante, mas sobretudo de proximidade.

Por isso grande parte do programa anual é dedicada a essa proximidade: o programa Teatro, Educação e Comunidade que procura estratégias para interligar a Companhia com a comunidade nomeadamente as grandes criações que juntam no palco a companhia com os amadores e o movimento associativo; o (NNN) – Noites na Nora – um evento multidisciplinar, 14 dias, sob o lema “A cultura como uma Festa”; o Encontro Cenas de Novembro – a apresentação de espetáculos de teatro e a discussão à volta da mesa entre criadores que com experiências diversas e o nosso público.

No que diz respeito ao repertório teatral: se nos primeiros anos as nossas escolhas eram condicionadas pela digressão que se pretendia regional ou nacional, ou seja, criações que produzimos com vista à apresentação exclusiva na região e outras para um âmbito nacional, hoje essa distinção já não nos faz sentido, e espero estar certo, é o resultado do diálogo e trabalho que temos feito com as nossas comunidades ao longo de todos estes anos.

Como se estão a adaptar aos tempos de pandemia que atravessamos?
No dia 12 de março de 2020 estreámos “Acto Cultural”, de José Ignacio Cabruja, um marco na dramaturgia venezuelana, numa encenação do brasileiro Clovis Levi e pretendia ser o espetáculo reflexão/comemorativo dos 20 anos da Baal17. Durante essa estreia, que quase não aconteceu, havia algo de novo no ar, em nós e no público, foi sofrível. No dia seguinte tudo parou. Gostaríamos de voltar a apresentar essa criação, mas no íntimo de cada um há uma recusa em voltar atrás.

Recusámo-nos a baixar os braços desde o primeiro momento. A pandemia trouxe-nos novos desafios, mas nunca nos passou pela cabeça parar. Houve, obviamente, um primeiro impacto, um choque quando nos mandaram para casa, mas imediatamente percebemos que teríamos aqui uma oportunidade para repensar este nosso percurso de 20 anos. Tivemos aquele tempo que andávamos sempre a adiar e que agora fomos obrigados a ter para repensar a nossa atividade. Felizmente as tecnologias estavam ali à disposição para um brainstorming coletivo diário. Finalmente tomámos opções que nos levaram a sair de uma zona de conforto que, por resultar, já nos estava a estrangular. Não deixámos de fazer nenhuma das principais atividades a que nos havíamos proposto, mas fizemo-lo de forma diferente e deparámo-nos com novas possibilidades para o futuro. Temos consciência de que pertencemos a um grupo privilegiado pelo facto de termos o apoio assegurado da DgArtes, e essa consciência obriga-nos a uma solidariedade e à procura de uma justiça para com os nossos colegas de profissão. Assegurámos os acordos laborais já apalavrados com as equipas pontuais e incrementámo-los. No início do ano a equipa residente era de 6 pessoas, no final éramos 9. Fizemos novas candidaturas, surgiram outras oportunidades. 2020 foi o ano mais intenso, em todos os aspetos, ou não estivéssemos sempre no fio da navalha. Veremos 2021.

Podes falar um pouco do projecto “Noites na Nora”?
O NNN surgiu como uma oportunidade para a Baal17 se aproximar de Serpa e desenvolver com a sua comunidade um espaço privilegiado de programação cultural onde é possível celebrar a cultura em espírito de liberdade e respeito. O NNN sempre cresceu segundo este lema, “a cultura como uma festa”. A beleza do espaço e o seu enquadramento em pleno centro histórico foi um fator determinante para conseguirmos criar estes momentos culturais únicos. As noites começam sempre com sorrisos, beijos, abraços, conversas animadas, um copo, um café, uma música de fundo que por vezes nos desvia o olhar para descobrir o espaço, contemplar, sorrir, conversar com quem está ao nosso lado, sentirmo-nos bem. Há uma coisa que acontece que não se explica muito bem. Há uma ligação muito forte entre os artistas, o espetáculo e o público. Quem passa na Nora sabe que este sentimento é especial. São momentos que nos aproximam mais uns dos outros. É esta energia de estar juntos que nos faz voltar todos os anos. A programação do NNN cresceu com este sentido, de criar uma relação forte entre o espaço, o público e o ato cultural.

Inicialmente o NNN prolongava-se por todo o verão. O espaço estava aberto a exposições e atuações de artistas e músicos da região. A Baal17 em conjunto com a comunidade criava espetáculos originais para o espaço da Nora todos os anos. Aos poucos fomos conseguindo apoios e a programação começou a ter mais teatro, cinema, residências artísticas e concertos.

Em relação aos espetáculos houve momentos muito especiais. Passaram pela Nora alguns dos nomes da história da música portuguesa, os novos talentos (agora já consagrados) e algumas das companhias de teatro de referência nacional. Fomos aos poucos criando uma regularidade e qualidade na programação.

Hoje, passados 21 anos, temos consciência que o NNN precisa de abrir mais portas. Temos vindo a amadurecer um novo conceito e a procurar novas formas de celebrar este espírito de festa. Queremos poder sair destas paredes amuralhadas e ocupar outros espaços na cidade. O centro artístico que a Baal17 ambiciona criar vem nesse sentido. O (NNN) – edição entre parêntesis do NNN, em 2020, deu-nos esse empurrão e levou-nos ao Parque Desportivo da cidade e ao Largo e Jardim do Palácio dos Condes de Ficalho. Foi também a oportunidade de assumir essa vontade da nossa parte com a cidade. No fundo queremos continuar a manter o mesmo espírito de diversidade artística e envolver mais a cidade, os artistas e a comunidade.

O segredo penso que está em cuidar deste espírito e deixar sempre espaço para que estes atos culturais aconteçam da forma mais espontânea e inesperada. É por esta razão que o NNN não é só um festival cultural, é fazer cultura como uma festa. E é uma família que todos os anos se reúne para celebrar a cultura e que não para de crescer.

Qual a importância do vosso programa de residências de criação artística?
Neste momento há um espaço, uma casa, um centro artístico, que está à espera de receber artistas, pessoas, projetos que se identifiquem de alguma forma com o meio rural onde nos inserimos, mas que não se fechem dentro dele. Este projeto para a criação deste centro artístico nasceu dessa vontade, da necessidade de partilhar com os outros o que nos liga à arte e à cultura. O que nos mantém vivos. As residências artísticas começaram logo desde o início do NNN e da Baal17. Serpa é uma cidade fantástica para isso. Tem tudo o que uma residência de criação precisa. Independentemente da área artística. Tem tempo, tem silêncio, tem um lado oculto que nos pode surpreender e um saber estar que permite encontrar uma espécie de energia criativa única. Há uma ligação muito próxima entre a Baal17, o NNN e estas residências artísticas. São oportunidades únicas para experimentar em conjunto, de oferecer o que nos inspira aos outros, de lhes abrir as portas em liberdade e deixarmo-nos contagiar ao mesmo tempo. Não pretendemos que sejam residências artísticas focadas em “mostrar trabalho”, em obrigação de apresentar espetáculos. Pretendemos que sejam mais momentos de construção e desconstrução, de experimentação, de abrir portas à descoberta, de procurar estimular este prazer de estar vivo e criar.

O facto de estarem sediados no Alentejo, fora dos grandes centros urbanos, é um trunfo ou um desafio?
Poderia ser isso tudo, trunfos, desafios, e muito mais, e em vários sentidos, positivos ou negativos. Neste caso, Serpa e Alentejo, a planície, pode ser muito cruel. Este espaço plano até perder de vista, não se sobe nem se desce, pode ser libertador, mas é também uma prisão. Nós avisamos sempre quem chega de novo: “Toma cuidado, muitos já saíram daqui loucos”. A equipa da Baal17 esteve sempre em transformação ao longo do tempo e aqueles que cá estão há mais tempo ou desde o início, sentimos orgulhosamente o projeto como  um triunfo.

Mas sim, é também um trunfo, por exemplo no que diz respeito aos financiamentos, o nosso historial coloca-nos na dianteira. E no que diz respeito à gestão do tempo para o trabalho de criação é facilitado – tudo é mais perto, tudo fica a 5 minutos a pé, e se quisermos não há nada que nos distraia entre a casa e o teatro a não ser o restaurante, é como se estivéssemos 24h juntos imersos no mesmo projeto. A proximidade entre a Companhia e o executivo autárquico permite que a relação seja também uma parceria estratégica para além de uma simples troca de serviços.

E é um desafio também, obviamente. Mas acho que o desafio é maior para cada um de nós individualmente e não tanto à estrutura como um todo. Aliás, são posições muito distintas.

Como Companhia, creio que se estivéssemos em Lisboa poderíamos encontrar um outro caminho mais focado na criação teatral e na fidelidade a um nicho de público com o qual cresceríamos em eterno e franco diálogo palco e plateia, explorar mais o trabalho criativo, crescer como atores, experimentar a velocidade e os estímulos que só a metrópole pode oferecer.  São “luxos” que como criadores e indivíduos, aqui, não podemos esperar. A Baal17 tem que criar para todos os públicos, tem que cativar aquele que nunca viu um espetáculo de teatro sem dececionar o espetador que vai a todas. E, se queremos ver teatro, terá de ser aquele que escolhemos programar em Serpa ou então temos de viajar.

A equipa residente vai-se construindo à medida em que cada um consegue subliminar o apelo da capital e decide ficar, criar raízes, construir uma família, e quando menos espera já não consegue perceber onde fica a sua vida pessoal e onde começa a Baal17, e afinal tudo se resume a um projeto também ele familiar – a família residente e os parentes mais próximos (muitos) que aparecem para ajudar nos momentos mais complicados.

A cidade é pequena, temos que ser uns para os outros e é uma eterna festa com os que cá estão.

O que reserva 2021 para a Baal17?
É claro que temos um Plano de Atividades traçado, mas, muito sinceramente, neste momento ainda é tudo muito turvo. Se me perguntar se conseguiremos levá-lo adiante face à situação pandémica que atravessamos, o máximo que lhe posso dizer é que faremos todos os esforços para que isso aconteça e, se não exatamente como delineado, certamente com reformulações e adaptações. Foi também assim que conseguimos levar adiante a nossa atividade em 2020, aproveitando as dificuldades e transformando-as em oportunidades. Foi o caso do (NNN) – edição entre parêntesis, que face às circunstâncias impostas pela crise sanitária sofreu uma reformulação e se abriu a outros espaços da cidade. Hoje, já não nos vimos a voltar atrás nesta decisão. Vai ser também um ano de muito pensamento, de um repensar necessário à não cristalização, de criação de novas parcerias, de início de novos projetos.

Peço-te um desejo para o Teatro para os tempos mais próximos
O Teatro precisa de sair para a rua, precisa de se voltar a encontrar com o público, precisa de respirar o espaço e o tempo desta realidade. Só assim podemos voltar a encontrar novos rituais para os próximos tempos. Precisamos de correr o risco de ser expostos fora dos edifícios teatrais, de falhar de novo, de assumir em conjunto a construção de um mesmo espaço estético. Novo, amplificador, desmascarado.

Existe um conto, bastante conhecido, que fala de um Homem que um dia decidiu ir para uma praça contar estórias a quem o quisesse ouvir. Contava estórias sobre tudo, umas conhecidas, outras inventadas… No princípio muita gente parava para o ouvir. Mas à medida que os anos foram passando, e as pessoas habituando-se àquela presença, cada vez menos gente lhe prestava atenção, até que ele ficou a contar estórias sozinho. Um dia alguém parou e perguntou-lhe porque continuava se já ninguém o estava a escutar. E ele dá a resposta que se tornou numa espécie de lema de resistência face às adversidades que enfrenta quem dedica o seu trabalho, e a sua vida, ao desenvolvimento cultural: “Eu comecei a contar estórias para mudar o Mundo. Agora conto estórias para que o Mundo não me mude a mim”.

Ainda que reconheçamos a beleza poética e o romantismo deste conto, nós na Baal17 acabamos por fazer quase exatamente o contrário. Ou seja, continuamos a “contar estórias” para que o mundo nos mude, nos transforme, para conseguirmos manter vital o diálogo entre as nossas aspirações artísticas e sociais e o Mundo que nos acolhe. Seja ele do tamanho de uma praça ou de um país.

Será esse então o nosso desejo para o Teatro, para a Arte, para a Cultura. Que se mantenha, ou recupere, o seu papel vital e dialogante, de nos fazer sonhar e lutar por um mundo melhor.

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Comments

  1. Francisco Valente says

    Sou natural de Fialho . Cheguei a Serpa , há quase 8 anos , depois de 52 anos em Almada , Os primeiros tempos foram difíceis mas , a procura do meio , levou-me a conhecer o potencial Cultural de Serpa e consequentemente o BAAL 17 , Musibéria , Biblioteca Municipal , Academia Sénior , que frequento , e outros . Participei em algumas peças de teatro , em Ficalho , orientadas pela Amiga Marisela e tive oportunidade de ver muitos trabalho do Grupo BAAL 17 e , até , fugazmente , participar no CAMINO REAL , onde conheci pessoas excecionais e fiz amizades , sentimento que partilho com os membros do Grupo . Assistir à criação do CAMINO REAL foram momentos muitos bons e elucidativos da criação que esta gente tem . Eles e elas saiam dos ensaios pegam nas ferramentas e com as próprias mãos criavam e ao mesmo tempo produziam as peças idealizadas . ATORES , ARTIFICES e BOA GENTE . Muita sorte para levarem de vencida os vossos anseios . . Abraços . Até já . . .

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